Os dois bancos portugueses que recorreram a empréstimos do Estado para cumprir o reforço dos rácios de capital imposto pelas autoridades já começaram a fazer o seu trabalho de casa. Mas Nuno Amado tem mais dores de cabeça do que Fernando Ulrich neste caminho, que só terminará no dia em que o Millennium bcp e o BPI pagarem os referidos empréstimos.
O Millenium bcp e o BPI estão, igualmente, capitalizados, mas partem de posições bem diferentes neste processo de ajustamento, desde logo porque o banco de Ulrich já tinha feito a desalavancagem - isto é, a diminuição do rácio de empréstimos e depósitos. Por outro lado, o BCP de Amado herdou, e continuará a ter, um balanço mais desequilibrado, que não se corrige em seis meses. Dois factores, entre outros, que devem ser tidos em conta neste processo de ajustamento, importante porque afecta a política de crédito e financiamento à economia.
Dito isto, Nuno Amado apresentou um prejuízo de 544,2 milhões de euros, pior do que o previsto, enquanto o BPI revelou um lucro 85,1 milhões de euros, melhor do que o previsto. Gestão das expectativas à parte, porque os mercados, os analistas, os investidores e até os jornalistas são influenciados por isso, constata-se que Amado tem um problema que deveria resolver já, porque será um factor permanente de instabilidade, e de prejuízos, nos próximos anos. Sem esperar pela decisão da Concorrência europeia, o BCP deveria vender as suas posições na Grécia e na Roménia. Já.
O que foi, em tempos, uma vantagem competitiva do BCP face ao BPI - a diversificação geográfica das suas operações - é hoje um passivo. A Grécia é um factor de risco, especialmente para um banco, e a incapacidade política, europeia e dos gregos para ultrapassar esta crise antecipa que essa ameaça não vai ser ultrapassada nos próximos anos. E foi a Grécia a pesar, e muito, nos mais de 500 milhões de euros de prejuízos e a ameaçar as próximas contas, como deixou perceber Amado na conferência de sexta-feira passada. Das outras operações internacionais, sobra apenas a Polónia, porque Angola e Brasil são estratégicas, mas não têm dimensão.
Fernando Ulrich surpreendeu, e não foi apenas pelas palavras da conferência de imprensa. Nos últimos anos, foi a operação angolana a garantir os resultados do BPI, e a compensar uma degradação da operação doméstica. Ulrich e os accionistas do BPI pagaram caro a fé na dívida pública grega, mas, arrumado esse assunto nas contas de 2011, este ano o BPI garantiu uma subida dos lucros em Portugal, contra uma descida dos lucros em Angola.
Os resultados do Millennium bcp e o BPI serão avaliados, trimestre após trimestre, sob um prima, a capacidade de os dois bancos devolverem ao Estado o que lhe pediram emprestado, sob pena de aqueles empréstimos se transformarem em acções, leia-se, uma nacionalização parcial, no prazo de três a cinco anos. A contagem decrescente já começou e será a medida do sucesso de Amado e Ulrich.