Quarta-feira, 18 de Dezembro de 2013

Um Governo sem cautela

 

O Governo só pode queixar-se de si próprio, e não de Mário Draghi, na polémica em torno do recurso a um programa cautelar depois do fim do programa de ajustamento, e está, ainda por cima, a dar o pretexto que faltava a António José Seguro para emergir no meio de tantas plataformas e manifestos de Esquerda que são a evidência das suas dificuldades políticas.

Pedro Passos Coelho e Paulo Portas estão a transformar o melhor dos planos B para o risco e a desconfiança dos investidores em relação ao Tribunal Constitucional, à decisão que será conhecida esta semana sobre a convergência das pensões, e à avaliação dos cortes salariais na Função Pública, no pior dos problemas políticos interno e externo. Por três ordens de razões, pelo menos.

Em primeiro lugar, Passos Coelho estigmatizou este seguro de regresso aos mercados e, com isso, deixou criar a ideia de que o Cautelar representaria um falhanço da sua política. Sem intenção, é certo, mas com este resultado, o primeiro-ministro não percebeu que a decisão da Irlanda de sair do seu programa de ajustamento deveria ter sido imediatamente aproveitada para fixar o plano B. Se conseguisse melhor, isto é, uma saída limpa, beneficiaria politicamente dos resultados do regresso aos mercados. Passos Coelho tentou corrigir o tiro, na entrevista à TSF/TVI, mas com poucos efeitos.

Em segundo lugar, o primeiro-ministro afastou, outra vez, o PS das possíveis negociações de um programa cautelar. Passos Coelho tem razão quando diz que este seguro – nas suas diversas formas, como se pode ler na edição de hoje do Económico – tem a duração de um ano e, portanto, a ser accionado, terminará ainda dentro da actual legislatura. Só que as medidas de condicionalidade que lhe estarão associados vão ter efeitos para lá de 2015 e aconselham portanto, à criação de compromissos e consensos políticos.

Finalmente, em terceiro lugar, Paulo Portas está a comportar-se como o líder de um partido da Oposição radical de Esquerda. Com o afã de mostrar que, consigo, o protectorado acabará em Maio de 2014, está paradoxalmente a criar um problema ao Governo. O vice-primeiro-ministro decidiu até inaugurar um relógio para fazer a contagem decrescente do tempo que falta para o fim do programa de ajustamento, uma iniciativa populista que não resiste à necessidade do País de manter o ajustamento, com ou sem ‘troika’, com ou sem programa cautelar.

São estas razões, e outras, que explicam porque é que as declarações de circunstância de Mário Draghi, uma espécie de segredo mal guardado, ganharam o protagonismo no dia de ontem e obrigaram até a um comunicado oficial. Portugal será, em última análise, quem tem de decidir se quer ou não um Cautelar, se quer arriscar um regresso aos mercados com uma rede de segurança ou sem ela. Mas não se livrará de um ajustamento que está ainda a meio caminho.

publicado por concorrenciaperfeita às 08:00
link do post | comentar | favorito

mais sobre mim

pesquisar

 

Março 2014

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
15

16

24
25
27
28
29

30
31


posts recentes

Salgado recupera a espera...

A política destrói valor

Porque é que Cravinho ass...

Em inglês não soa melhor

A palavra de Cavaco

Uma mão cheia de nada

Acordo para uma saída cre...

Carta aberta ao 71º subsc...

O plano P, de Parlamento

Um acto falhado

arquivos

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

blogs SAPO

subscrever feeds