Segunda-feira, 24 de Janeiro de 2011

O 'novo' Presidente vai coexistir com o Governo?

Portugal já tem, outra vez, um Presidente, depois de uma campanha pobre, penosa, negra em alguns momentos, incapaz de mobilizar os portugueses para o voto no dia de ontem e de os motivar para o futuro. Cavaco Silva ganhou, Manuel Alegre perdeu e Fernando Nobre surpreendeu, mas, estas eleições foram muito mais do que 'apenas' Presidenciais, foram também uma antecâmara de divergências profundas, políticas e pessoais, entre Cavaco Silva e José Sócrates que, ao longo de 2011, vão ser testadas ao limite.

Os líderes políticos do PS e do PSD, Passos Coelho e Sócrates, juram que as presidenciais não foram as primárias de eleições legislativas, mas nenhum dos dois acredita no que diz. E os dois, sem excepção, sabem que, independentemente das leituras partidárias destas eleições, o segundo mandato do Presidente-eleito tem um pano de fundo económico e financeiro determinante para o futuro político próximo. Verdadeiramente, e mais importante, hoje, dia 24 de Janeiro, o que fica para o futuro e o que é necessário perceber é se o 'novo' Presidente vai coexistir, e de que forma, com o Governo.

 

Cavaco Silva era, à partida, o vencedor anunciado, mas a nova liderança do PSD, com Pedro Passos Coelho, o desgaste do Governo e a crise económica e financeira aumentavam o interesse em torno da votação de ontem. O desenrolar da campanha mostrou, verdadeiramente, dois candidatos: o Cavaco Silva defensivo e ofendido e o Cavaco Silva agressivo e crítico, sobretudo do Governo e de José Sócrates. 

Cavaco passou por dificuldades por causa do caso BPN, precisamente porque foi atacado na honra e no carácter, dois atributos que pareciam ser intocáveis na figura. O candidato-Presidente - e, é verdade, às vezes, essa dupla função foi ambígua - não estava preparado para responder a críticas pessoais, optou pelo silêncio e por respostas curtas, e isso foi, claramente, insuficiente face ao tom e à gravidade das críticas e das suspeitas, entretanto, levantadas. Cavaco percebeu o óbvio, percebeu que o PS estava por detrás dos ataques de carácter e que Francisco Louçã, ironia das ironias, serviu de lebre de José Sócrates para o atacar. Foi, precisamente, nesse momento que Cavaco decidiu passar ao ataque, ao ataque ao Governo, como nunca se viu em cinco anos de presidência.

O candidato-Presidente considerou que o Governo falhou se recorrer à ajuda externa do FMI, criticou a austeridade - que, de resto, promulgou enquanto Presidente - na Função Pública e chegou a sugerir a criação de um imposto extraordinário para evitar a redução de salários na Função Pública. Lembrou que poderá haver uma crise política e que não abdicará dos seus poderes presidenciais, leia--se da possibilidade de demitir a Assembleia da República. E, no último dia de campanha, até disse que os juros da dívida pública portuguesa agravar-se-iam se não fosse eleito à primeira volta. Quem tivesse chegado a Lisboa neste momento, arriscaria dizer que o Governo não passará do primeiro semestre. 

A votação final terá refreado as suas intenções: depois de semanas de choque com o Governo, os portugueses deram-lhe cerca de 53% dos votos, menos do que Jorge Sampaio no seu segundo mandato. A legitimidade política de Cavaco Silva está, obviamente, intacta, mas a sua força política é necessariamente diferente da que seria se ganhasse com mais de 60% dos votos. Os portugueses querem mesmo uma mudança?

 

José Sócrates é um dos derrotados da noite, porque, mais uma vez, como com Mário Soares, apostou no nome errado no momento errado. Mas começou mais derrotado do que acabou. Sem nunca se ter empenhado verdadeiramente na campanha de Manuel Alegre - de resto, como Pedro Passos Coelho relativamente a Cavaco Silva -, Sócrates expôs-se o suficiente para perder. Num contexto económico e financeiro crescentemente difícil - imprevisível até - o primeiro-ministro deixará de ter no Presidente-eleito um aliado, terá mesmo um vigilante atento e exigente, mais do que nos últimos cinco anos, que não o poupará. A cooperação estratégica passará a ser de 'vigilância interventiva', que Cavaco apelida de magistratura activa, mesmo num discurso institucional como o que fez ontem à noite no Centro Cultural de Belém.

O primeiro momento de verdade nas relações entre Cavaco Silva e José Sócrates num novo contexto político tem uma data marcada: Abril/Maio deste ano, quando o Governo tiver de apresentar a execução orçamental dos primeiros três meses do ano e, posteriormente, quando o ministro das Finanças (Teixeira dos Santos?) tiver de apresentar em Bruxelas o novo programa de estabilidade e, espera-se, de crescimento. Qualquer previsão para além deste prazo arrisca-se a ser ultrapassada pela realidade.

Cavaco Silva dificilmente provocará uma crise política, apesar das ameaças, mas José Sócrates vai ter de cumprir uma exigente redução do défice público e vai ter de garantir que Portugal não recorrerá ao FMI. Serão duas condições indispensáveis à estabilidade política nos próximos doze  meses. Depois, se verá.

publicado por concorrenciaperfeita às 01:13
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1 comentário:
De Joaquim Gil a 24 de Janeiro de 2011 às 18:04
Temos um novo Presidente, esta frase tem muito sentido, sendo a mesma pessoa, estou plenamente convencido que do antigo Presidente, nada resta, este já não espera nova eleição, agora já não tem nada a perder e só vai esperar uma pequena estabilização económica para colocar as suas cores no poder, penso que até pode ser positivo para o país, se com isso consiga trazer alguma estabilidade!


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