Domingo, 27 de Fevereiro de 2011

Um dia de cada vez

Portugal está como um paciente com uma doença terminal, a viver um dia de cada vez e à espera de uma descoberta milagrosa, que o salve do fim previsível e esperado, neste caso o recurso a ajuda financeira externa. Todos os dias, surgem notícias na imprensa internacional de referência, muitas vezes em ‘off’ e com origem em Berlim, Paris e Bruxelas, que nos ‘aconselham’ a recorrer ao Fundo Europeu de Estabilização Financeira o que, na prática, significa recorrer ao Fundo Monetário Internacional (FMI). Fazem-nos a vida negra e explicam-nos, a nós, portugueses, que por acto ou omissão, nos deixámos cair numa situação de pré-falência de um modelo económico e financeiro. Dito de outra forma, ‘isto’ não é vida.

Nas últimas semanas de 2010, Portugal parecia condenado a pedir ajuda, tal foi o aumento rápido e agressivo das taxas de juro que os nossos credores nos exigiam. Ultrapassando os míticos 7%. Resistimos ao Natal e ao início de 2011, mas, agora, voltámos a estar no centro do mundo, e não é pelas boas razões. O calendário das próximas semanas, até à cimeira europeia de 24 de Março, é verdadeiramente alucinante e mostra como estamos, neste momento, a viver um dia de cada vez. Como o Diário Económico revelou na edição de sexta-feira, a Standard & Poor’s (S&P) esteve em Lisboa há algumas semanas, reuniu com bancos, empresários, economistas e decisores políticos. O resultado não é brilhante e o melhor que poderemos esperar é que a S&P também espere, pelo dia 25 de Março e por uma decisão dos chefes de governo europeu, e pela senhora Merkel, em defesa do euro, logo de Portugal. A Moody’s, essa, está hoje em Lisboa para realizar o mesmo circuito e, provavelmente, chegar à mesma conclusão. A austeridade vai trazer recessão e, por responsabilidade própria e dos que nos governam, estamos em causa pela doença e pela cura.

José Sócrates e Teixeira dos Santos, chegados aqui, podem fazer muito pouco. Depois do desastre orçamental de 2010, podem, têm a obrigação, de cumprir a execução orçamental de 2011, e podem, têm a obrigação, de correr o mundo a explicar qual é a verdadeira situação de Portugal. Como têm feito, tentando ‘vender’ o País nos mercados onde, hoje, há dinheiro. É preciso dizê-lo, ao contrário da Grécia e da Irlanda, que corriam o risco iminente de entrarem em ‘default’, Portugal não está nessa situação. Nem a República, nem o sistema financeiro. Ainda. Mas os mercados apostam nesse cenário, com um grau de probabilidade que, todos os dias, aumenta, não fosse a ajuda externa de que já beneficiamos, do Banco Central Europeu.

O tempo, infelizmente, não está para grande reformas e grande anúncios, porque ninguém quer ouvir falar do longo prazo, quer saber como ultrapassámos o curto prazo. O tempo está para as finanças e não para a economia. E, neste caso, o nosso ‘curto’ prazo começa a contar já esta semana. Portugal vai ao mercado esta semana, na próxima quarta-feira, para se financiar, mas, desta vez, não estará sozinho. Outros países, numa situação mais favorável do ponto de vista de imagem junto dos investidores e/ou especuladores, vão também financiar-se no mercado para fazer face às suas necessidades. E, no mesmo dia - coincidência - Merkel chamou Sócrates a Berlim.

Dia 3 será o dia ‘D’, provavelmente o primeiro de muitos nas próximas semanas. Até uma decisão que nos tire desta angústia, seja ela uma nova oportunidade, o FMI ou eleições antecipadas.

 






publicado por concorrenciaperfeita às 23:42
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