Quarta-feira, 9 de Março de 2011

O regresso do pântano

Em 2001, António Guterres demitiu-se na sequência de uma derrota política do PS nas autárquicas e anunciou que Portugal estava num 'pântano', do qual só poderia sair com novas eleições legislativas. Passados dez anos, com novos protagonistas, regressou, definitivamente, o pântano político. É a principal conclusão do discurso de tomada de posse do Presidente da República, num momento em que o Governo e a Oposição vivem dia-a-dia.

Cavaco Silva foi brutal na forma como descreveu o estado a que chegou o País. Num discurso de cerca de 40 minutos, dedicou cerca de 15 minutos a sistematizar a situação de emergência económica e financeira - "e agora também social", acrescentou - do País. Nenhum dos números divulgados pelo Presidente reeleito é novo, mesmo na sua boca. Aliás, recordou, mais uma vez, que ninguém (leia-se o Governo e o PS) lhe deu o devido crédito quando alertou para o endividamento e défice externo crescente. Foi uma década perdida, como a classificou, em que Portugal cresceu 0,7% em termos médios, por ano, em que o desemprego passou de 215 mil para mais de 600 mil pessoas, em que a poupança caiu abruptamente.

Claro, a palavra do Presidente chegou mais longe, e fez mais mossa, porque os números, somados, são avassaladores, porque omitiu, propositadamente, a crise europeia que agrava o falhanço das políticas internas, e porque foi um discurso de tomada de posse.

Feita esta radiografia, defendeu um modelo e uma visão da sociedade que está muito longe das preconizadas por José Sócrates. As críticas explícitas ao TGV - para o qual o País não tem dinheiro - ou as críticas implícitas à forma como o Governo nomeia os gestores e decisores públicos - sem ter em conta o mérito - revelam o que o separa de Sócrates. No entanto, talvez surpreendentemente, Cavaco foi longe no pedido de estabilidade política. Quem esperava um discurso de tomada de posse que indiciasse a dissolução da Assembleia da República por sua iniciativa, acabou desiludido. O reeleito Presidente não só voltou a sublinhar a sua intenção e vontade em cooperar com o Governo PS, como desafiou Sócrates a definir um plano estrutural de médio prazo para sairmos da crise, com um apoio político alargado, do PSD, claro.

Contraditório? Não, se tivermos em conta a natureza de Cavaco Silva. O Presidente vai pressionar Sócrates até ao limite, mas não vai dissolver a assembleia. Vai deixar esse trabalho para a Oposição, portanto, neste sentido, foi um discurso clarificador. Mas isso não limpa o pântano, pelo contrário, reforça-o.

As relações entre Belém e São Bento mudaram, e isso, ontem, foi evidente, até na reacção do líder parlamentar do PS, Francisco Assis, regra geral contido nas declarações. Mesmo Sócrates não disfarçou o que lhe ia na alma. Mas o primeiro-ministro não é António Guterres, não vai fugir, e Cavaco sabe-o. Sobra a responsabilidade para o PSD, que vai ter de fazer cair o Governo. Curiosamente, hoje, tem a primeira oportunidade, com a moção de censura do Bloco, que, já anunciou, vai chumbar. Pedro Passos Coelho já deve estar arrependido...

 

PS: A intervenção clarificadora de Cavaco ganhou fôlego, e vida, quando chegou aos jovens. Aí, sim, o Presidente mobilizou. A dias de uma manifestação da 'geração à parva', apelou à indignação dos jovens, porque, diz, e bem, não lhes poderemos deixar dívidas e desemprego. Um incentivo presidencial arriscado.

publicado por concorrenciaperfeita às 23:01
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