Domingo, 13 de Março de 2011

Um País à rasca

Portugal viveu no fim-de-semana um sobressalto cívico, único na história recente e sobre o qual haverá ainda muito a dizer, mas não foi apenas de uma’ geração à rasca’, foi de um País, literalmente, à rasca. De desempregados, mas também de empregados, de jovens, mas também de menos jovens, de recibos verdes, mas também dos que estão seguros e mal pagos.

A classe política, em geral, e o Governo de José Sócrates, em particular, não devem cair na tentação de desconsiderar as manifestações e mobilizações que ocorreram por todo o País. As manifestações de um País à rasca dão, por exemplo, razão ao Presidente da República, que alerta para a impossibilidade de se pedirem mais sacrifícios aos portugueses. As manifestações de um País à rasca não podem nem devem ser desvalorizadas, porque nasceram no ‘facebook’, em cima de uma ‘deolindização’ da geração à rasca. Seria um erro, imperdoável, e se há alguma ilação a tirar destes movimentos de rua, aqui e ali salpicados pelas músicas do 25 de Abril, é a de que alguma coisa está a mudar na sociedade portuguesa. Ainda ninguém sabe é exactamente para onde.

Há, contudo, um problema de fundo, para o qual não há respostas evidentes, nem imediatas: A ‘deolindização’ da nova geração é mobilizadora, contaminou as outras gerações, mais velhas, mas tem pressupostos errados. Dito de outra forma, seguida a carta dos ‘Deolinda’, estaremos, dentro de dez anos, pior do que estamos hoje.

Não está em causa a bondade dos ‘Deolinda’ quando escreveram a música ‘Parva que sou’. A geração que está a chegar ao mercado de trabalho, com canudos que o mercado de trabalho não quer ou que, simplesmente, não tem capacidade para absorver, vive um ambiente de frustração e indignação compreensível. Nós, portugueses, não estivemos à altura das promessas que fizemos aos mais jovens e estes sentem-se enganados. Mas a verdade, como se percebe por estas manifestações, é que nos enganámos a nós próprios. Não é apenas a nova geração que está desiludida, a menos jovem também, e mal paga.

O manifesto dos ‘Deolinda’, de forma implícita ou explícita, quer garantir para os jovens que estão a entrar ou entraram no mercado de trabalho os mesmos direitos – e poucos deveres – das gerações anteriores. De preferência, na Função Pública e com direito à ADSE.

Portugal precisa de outra coisa, de outro modelo. Não vejo os ‘Deolinda’ a escrever uma música sobre o mérito, sobre a necessidade de terem, todos, acesso às mesmas oportunidades. Aliás, foi este mérito e a oportunidade de acesso que fizeram dos ‘Deolinda’ o que eles são hoje. São um bom exemplo de que vale a pena olhar para o mercado, fazer o que outros não estão a fazer e inovar. No final do dia, os melhores, os mais competentes, os mais bem formados, triunfam. Mais cedo ou mais tarde.

O País à rasca quer o direito ao emprego, quer acabar com a precariedade, quer salários dignos, quer protecção social para os que mais precisam. São princípios que devemos, todos, defender. Mas, para isso, é preciso mudar as regras, o contrato social que temos hoje e que nos trouxe até aqui, que forma profissionais que o mercado não quer, que protege os instalados, que impede a mobilidade e flexibilidade, que trava a criação de riqueza, que não incentiva a criação e a inovação. Poderemos, todos, fazer manifestações e mais manifestações, mas o emprego e o salário só poderão resultar de mais riqueza. E menos ‘Deolindas’.

publicado por concorrenciaperfeita às 23:50
link do post | comentar | favorito

mais sobre mim

pesquisar

 

Março 2014

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
15

16

24
25
27
28
29

30
31


posts recentes

Salgado recupera a espera...

A política destrói valor

Porque é que Cravinho ass...

Em inglês não soa melhor

A palavra de Cavaco

Uma mão cheia de nada

Acordo para uma saída cre...

Carta aberta ao 71º subsc...

O plano P, de Parlamento

Um acto falhado

arquivos

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

blogs SAPO

subscrever feeds