Segunda-feira, 28 de Março de 2011

Um País em 'stand by'

Os portugueses assistiram a um pouco de tudo nos primeiros dias após o pedido de demissão de José Sócrates: a constatação de que estávamos já muito mal, o anúncio de um apocalipse financeiro, a confirmação de que Berlim e Bruxelas mandam mesmo em Portugal e a convicção de que Pedro Passos Coelho tem ainda muito trabalho pela frente para convencer os portugueses e ganhar a Sócrates.

José Sócrates calculou politicamente ao milímetro os seus passos e decisões das últimas duas semanas. Sabia, melhor do que ninguém, que Bruxelas e Berlim aplaudiriam o novo plano de austeridade e sabia também que, assim que caísse o Governo, os juros continuariam a subir e seriam muitos, como foram, os apelos, implícitos e explícitos, a Portugal para que recorra ao Fundo Europeu de Estabilização e ao FMI.

A situação financeira de Portugal não está pior hoje do que estava há duas semanas, antes da crise política. Claro, uma situação de impasse e dúvida não ajudam, mas, estruturalmente, não dependemos hoje de ajuda externa mais do que há duas semanas. Já dependíamos, e vamos ter de recorrer a ela, qualquer que venha a ser o mecanismo. Actor com as linhas decoradas, Sócrates rejeitou, reconheça-se, como sempre o fez, essa possibilidade e defendeu a independência de Portugal.

Mas, como sabe, Portugal não é independente. Já foi, hoje está nas mãos da senhora Merkel que, em pleno parlamento alemão, não evitou falar da política portuguesa e mandar. Mandou, como nunca se viu na história recente do País, interferiu na política interna e só faltou decretar o fim da Democracia durante seis meses para pôr Portugal e os portugueses na ordem. Exigiu, esbracejou, com olhos arregalados, como aqueles pais que estão cansados das tropelias dos filhos. E avisou que a mesada está prestes a acabar. Lamentável, não se ouviu uma voz indignada, de ninguém, de Cavaco a Sócrates, de Passos Coelho a Portas. Porquê? Porque todos sabem que quem paga, manda.

O tempo de Pedro Passos Coelho chegou. Mas o primeiro dia do resto da sua vida, o dia seguinte ao pedido de demissão de José Sócrates - ainda à espera de uma decisão de Cavaco Silva - não correu bem. Correu mesmo muito mal. O presidente do PSD já o tinha dito em circunstâncias anteriores, ao estilo 'read my lips' de George W. Bush (pai): "Não aceito mais aumentos de impostos". Ora, nesse primeiro dia, disse o contrário, sem mais, sem explicações ou contexto. E nem sequer é certo que um aumento do IVA não seja mais penalizador do que o corte de pensões. Nesta matéria, haveria, e há, muito para dizer. Não há uma segunda oportunidade para uma primeira boa impressão, por isso, agora, Passos Coelho tem já de pensar muito bem na segunda e terceira boas impressões.

Pedro Passos Coelho está a cometer um erro que lhe poderá sair caro: está a deixar sair propostas e mais propostas, soltas e sem enquadramento, que permitem aos seus opositores 'construir', eles próprios, o programa do PSD. A ideia, por exemplo, de que Portugal poderá pedir um 'empréstimo-ponte', uma espécie de ajuda de emergência, é bondosa e até pode ser uma solução de terceira via, mas só lança a confusão, dita neste momento e em pré-campanha eleitoral. E deixa implícito que se rendeu ao FMI. Do ponto de vista político, é trágico.

Depois, está a deixar que fale, em nome do partido, quem, claramente, não está sintonizado com o tom do seu discurso, eventualmente até com algumas das suas medidas em concreto. Um exemplo? António Carrapatoso foi e é um gestor brilhante, dos melhores que o País tem. Gestor e, agora, empresário. Mas corre numa pista própria. Não haveria nenhum problema, se Passos Coelho não deixasse que as palavras de Carrapatoso se confundissem com as do PSD. Deixou e, quer queira, quer não, quando os portugueses ouvem o presidente da Vodafone Portugal, vêem Passos Coelho e as suas ideias. É para ser assim?

A campanha eleitoral ainda não começou verdadeiramente. Vai ser longa, e dura, e provavelmente, suja. Do PS, o discurso está articulado e sólido, apesar do desgaste, apesar de tudo. Do PSD, percebe-se que continua à procura do seu destino. As sondagens dão vantagem clara a Passos Coelho, mas Sócrates ainda não morreu, longe disso. E, no meio disto tudo, Portugal, periclitante, lá vai vivendo, à espera dos dias, eventualmente fatídicos, em que terá de pagar os empréstimos que pediu anos atrás.

publicado por concorrenciaperfeita às 10:20
link do post | comentar | favorito

mais sobre mim

pesquisar

 

Março 2014

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
15

16

24
25
27
28
29

30
31


posts recentes

Salgado recupera a espera...

A política destrói valor

Porque é que Cravinho ass...

Em inglês não soa melhor

A palavra de Cavaco

Uma mão cheia de nada

Acordo para uma saída cre...

Carta aberta ao 71º subsc...

O plano P, de Parlamento

Um acto falhado

arquivos

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

blogs SAPO

subscrever feeds