Quarta-feira, 6 de Abril de 2011

O regresso ao passado, a olhar para o futuro

Portugal regressou ao passado, 28 anos depois. Às 20.39 horas de ontem, José Sócrates cedeu à pressão da realidade e anunciou aos portugueses, com cara fechada, que Portugal pediu à Comissão Europeia uma "assistência financeira". Estamos hoje, claro, muito melhor do que em 1983, quando Mário Soares pediu a ajuda do FMI, o grau de preparação das nossas instituições é outro, mas os problemas não são menores.

Não é agora o momento de apurar as responsabilidades de quem nos trouxe até aqui, até ao dia 6 de Abril de 2011, as eleições servirão também para isso. O longo e confuso dia de ontem está ainda por contar, como está por contar porque é que o primeiro-ministro desmentiu contactos para o pedido de ajuda ao fim da manhã e o ministro das Finanças anuncia a um jornal (e não ao País) ao fim da tarde que Portugal já não sobrevive sozinho. O dia de hoje serve, sobretudo, para duas reflexões: por um lado, qual será o tipo de acordo a realizar com as autoridades europeias e as suas consequências e, por outro, se aprendemos alguma coisa com esta crise.

A situação de emergência financeira do País era já insustentável, medida pelas declarações mais ou menos dramáticas de quem tem a responsabilidade de gerir o 'nosso' dinheiro, os banqueiros. A cada dia que passou, perdeu-se margem de manobra negocial e, por isso, agora, tudo será mais difícil. Mas não impossível.

É claro, já, que Portugal precisará de uma ajuda financeira superior à concedida à Irlanda, que foi de 85 mil milhões de euros. Porquê? Porque os buracos, ou potenciais buracos, são muitos e, decidido o pedido de ajuda, não vale a pena estar a pedir 'a menos', devemos pedir o necessário. Não é apenas o Estado, são as empresas públicas, a recapitalização da banca e até o 'enterro' definitivo do caso BPN, que tem mais de cinco mil milhões de euros 'parqueados' na Caixa Geral de  Depósitos.

A capacidade negocial de Portugal junto das  autoridades europeias depende muito, no nosso caso particular, dos consensos políticos necessários à prestação de garantias, porque temos um primeiro-ministro em gestão. O Governo pode e deve pedir ajuda, mas não haverá nenhum líder europeu, nem a senhora Merkel, disponível para assinar um cheque em branco. E, como é obvio, o próximo Governo, qualquer que ele seja, tem de ter um período de tempo mínimo para entrar em funções e tomar conta do País. Mais do que nunca, será necessário um Presidente que não tivemos nos últimos cinco anos.

A vida dos portugueses vai ser mais difícil, o desemprego vai aumentar, o rendimento disponível dos empregados vai diminuir, e o Estado não estará lá para tudo pagar. O PEC V que vai ser apresentado aos portugueses, veremos se antes ou depois das eleições, vai ter mais e mais medidas. E mais impostos. E não é por causa do FMI, é por nossa causa, por responsabilidade nossa. Felizmente, existe o FMI, que é um financiador líquido do Fundo Europeu a quem vamos pedir ajuda.

Como alguém dizia, os portugueses são um povo que não se governa nem se deixa governar. Vamos ter de nos deixar governar, à força. E isso tem o seu lado positivo. Tantos, tantas vezes, disseram e escreveram que tínhamos de mudar de vida. Agora é que é.

 

PS: A RTP prestou ontem um verdadeiro serviço público, com um especial informação intitulado Portugal e o Futuro, com Fátima Campos Ferreira e João Adelino Faria. Análise, entrevistas e reportagens que ajudaram o país a perceber melhor o que está em causa. É para isto que os portugueses estão dispostos a pagar uma televisão pública.

publicado por concorrenciaperfeita às 22:42
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