Domingo, 5 de Junho de 2011

Pedro, o ministro das Finanças, Portas, a equipa e as eleições de 2015

Os portugueses decidiram mudar de vida, e de primeiro-ministro, mas, hoje, mais do que nunca na história democrática portuguesa, é muito mais relevante perceber o dia de amanhã de Pedro Passos Coelho do que os últimos seis anos de José Sócrates. Em Democracia, o ajuste de contas faz-se, e fez-se, nas urnas, e as eleições legislativas foram, neste sentido, claras e 'terminaram' às oito da noite, quando foram conhecidas as projecções de resultados. E a vitória do PSD.

Em primeiro lugar, Pedro Passos Coelho escolheu o caminho mais difícil para ganhar as eleições, porque apresentou um plano e medidas, algumas delas difíceis e polémicas. Mereceu ganhar. O presidente do PSD registou uma vitória clara, reforçada mesmo, a uma dúzia de deputados da maioria absoluta. Pedro Passos Coelho pediu uma maioria clara, às vezes, absoluta, e fica claro que esse objectivo esteve, de facto, à sua disposição. Por isso, é possível hoje medir o que custaram os sucessivos erros de campanha, isto é, a distância que o separa dos 116 deputados. É, de qualquer forma, uma maioria que lhe dá, a ele, Passos Coelho, e ao seu Governo, condições inquestionáveis para governar e levar a cabo o programa que o Estado português assinou com a 'troika'.

O acordo com o FMI e Bruxelas é exigente, vai comportar sacrifícios e, em consequência, vai gerar um ajustamento do nível de vida dos portugueses à sua verdadeira condição económica e social, à sua capacidade de produção, competitividade e eficiência. Serão dúzias de medidas, umas de emergência, outras estruturais, que vão destruir o País que temos e vão, desejavelmente, construir outro. Mas vão causar mossa, desde logo no universo partidário do PSD, que o 'acabou' de eleger. Ora, isso vai gerar conflitos e vamos, com toda a certeza, assistir a um período de conflitualidade social sem paralelo. Na rua. Exige-se, por isso, de Passos Coelho nos próximos dias mensagens curtas, mas claras e eficazes, para os portugueses, para as empresas e famílias, para os líderes europeus, para os mercados.

 

O presidente do PSD não vai ter uma segunda oportunidade para causar uma primeira boa impressão, desde logo na escolha da equipa. Durante a pré-campanha e campanha eleitorais, muitos exigiram a Pedro Passos Coelho, injustamente, nomes e caras. Ora, não era possível, até ontem. Hoje, o novo primeiro-ministro tem de apresentar um Governo forte, particularmente quando anunciou uma estrutura com dez ministérios apenas. Todos são muito importantes, mas há um mais do que os outros: as Finanças. O nome do próximo ministro das Finanças é crítico, Pedro Passos Coelho não pode falhar e a avaliação da qualidade do próximo Governo resultará, muito, deste nome. Um mau ministro das Finanças fará um mau Governo. Terá de ser inquestionável do ponto de vista técnico, prestigiado e reconhecido pelo seu percurso profissional, mas tem de ser, também, politicamente hábil. Não há muitos nomes, e deixo três: Eduardo Catroga, Vítor Bento e João Duque. Qualquer deles deveria ser alcandorado à condição de vice-primeiro-ministro.

Porquê? O novo ministro das Finanças vai ter de ser, mesmo, um super-ministro, vai ter poderes reforçados e áreas nas quais não tinha a única nem a última palavra. Portugal viverá mesmo, e pela primeira vez desde há décadas, uma ditadura das Finanças, por força do acordo de ajuda externa. Serão necessárias negociações, dentro do Governo e fora dele, no Parlamento e com os parceiros sociais, e a capacidade para gerar as maiorias, como diz o meu homónimo (e candidato à liderança do PS?) António Costa, também sociológicas. Sob pena de perder nas ruas o que ganhou nas urnas. Aconselha-se uma viagem rápida à Grécia… 

 

Depois, Pedro Passos Coelho vai ter de fechar, rapidamente, um entendimento de Governo com Paulo Portas. As expectativas são uma coisa 'lixada' e, ao final da noite, parecia que o CDS-PP tinha sido um dos derrotados. Não foi, foi um dos vencedores da noite, mas, ainda assim, aquém do que se chegou a admitir. Portas vai vender 'cara' a negociação, mas não tem, como Passos Coelho, outra alternativa. Vai exigir, pelo menos, uma pasta sensível, e a Economia poderá ser uma à sua medida, e à altura das suas ambições do seu próprio partido.

O entendimento entre o PSD e o CDS, esse, não pode demorar mais de oito dias. Se esse entendimento não for anunciado neste período, suspeito, a convivência governativa será difícil e pronunciará uma mudança de regime ainda mais dolorosa. Portugal precisa de quatro anos de estabilidade e de uma solidez à prova de bala entre Passos Coelho e Paulo Portas.

 

Hoje, não é um dia de festa, nem sequer para Pedro Passos Coelho. É um dia de mudança, que Portugal precisava, mas que, se o fizer bem, lhe vai custar o futuro. Pedro Passos Coelho tem de governar para quatro anos, porque isso será a garantia de que vai cumprir o plano de refundação do País, que ele próprio, também, assinou, a partir do primeiro dia em funções. Não haverá 'estados de graça' e, se houver, não serão de três meses, mas de três semanas, dada a dureza do que aí vem. Portugal é hoje um País exposto, vergado à humilhação de ter de prestar contas do que faz, trimestralmente, a quem nos emprestou dinheiro. A medida do sucesso de Pedro Passos Coelho e do seu Governo será a rapidez com que Portugal se volte a sentar, de igual para igual, com os outros países da União Europeia. Sem favores. Não é coisa pouca.

 

PS1: O PS vai virar à esquerda, depois de seis anos de liderança de José Sócrates, que o levou a ocupar o 'centrão' político português. Ora, é da praxe, em noites eleitorais, especialmente de derrota, que os discursos sejam conciliadores. Mas será mais importante, para o futuro próximo, que o 'novo' PS mantenha o compromisso que assinou, em nome de Portugal, e que viabilize politicamente as mudanças que se exigem.

 

PS2: Como é possível a dimensão da abstenção nas eleições de ontem? Tendo em conta o dramatismo do que estava, e está, em causa, será necessário perceber porque é que tantos e tantos eleitores decidiram abdicar do seu direito de voto.

publicado por concorrenciaperfeita às 23:11
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