Terça-feira, 16 de Agosto de 2011

As obrigações europeias e o 'eixo BB'

Os líderes europeus não aprendem e os cidadãos europeus vão ter de continuar a pagar, com impostos, a incapacidade política para tomarem decisões que, de forma estrutural, ponham um ponto final numa crise financeira, que já é também económica e social. A cimeira franco-alemã não passou, por isso, de mais um fracasso.

Cada vez que a chanceler alemã e o presidente francês reúnem, cria-se uma expectativa de que a solução para a crise das dívidas soberanas - isto é, do financiamento dos défices e das dívidas dos países do euro - vai ser a última necessária, a definitiva. Mas já deveríamos ter aprendido que isso é pouco mais do que um 'wishful thinking', um desejo. Pelo menos enquanto os credores dos países europeus não cobrarem taxas de juro insuportáveis para emprestar a países como Espanha e Itália...

Qualquer das medidas anunciadas ontem por Merkel e Sarkozy adiantam muito pouco ou mesmo nada, e a criação de um governo económico europeu e do cargo de mais um presidente pode até atrapalhar.

Um governo económico europeu é necessário, mas não é este, um governo que vai reunir duas vezes por ano. Será possível que alguém acredite que uma nova estrutura política - em cima de outras que já não funcionam - que reúne duas vezes por ano vai conseguir coordenar alguma coisa, ou corrigir, em tempo útil, a descoordenação de algum dos Estados? O Pacto de Estabilidade ainda está em vigor, e exige coordenação, e até sanciona os infractores…

Depois, a inscrição de limites ao défice público ou à dívida nas constituições dos países é positiva, defendia quando Luís Amado teve a ousadia de a propôr, nas páginas do Diário Económico, contra a posição do primeiro-ministro José Sócrates. Mas tem apenas uma dimensão política e não efectiva, é uma medida bondosa, mas que só serve se existirem outras, outras que não estas, as que foram anunciadas ontem.

Mesmo a criação de um imposto europeu sobre transacções financeiras, medida cara às opiniões públicas que querem ver, legitimamente, os investidores financeiros a pagar pela crise, está longe de ser uma solução estável e duradoura. O novo imposto - já muitas vezes anunciado - servirá para quê? Para financiar o fundo de estabilização europeu que apoia os países em crise, como Portugal? Se for para isso, não chegará para acalmar os mercados, simplesmente porque nunca terá a dimensão necessária para socorrer as maiores economias, como Espanha e Itália, os senhores que se seguem.

Como saímos daqui, então? Com a emissão de obrigações europeias, isto é, os Estados deixam de pedir emprestado nos mercados internacionais, e passará a ser a zona euro a fazê-lo, em nome de todos. Os alemães não querem, mas a realidade vai encarregar-se de mostrar à senhora Merkel que é mais vantajoso, para si e para os contribuintes alemães, que sairá mais barato do que socorrer outro país do euro. Em contrapartida, vamos ceder mais soberania, vamos ter de aceitar que muitas decisões de política económica e financeira tomadas, até agora, em Portugal, pelo Governo, passarão a ser decididas, também, no 'eixo BB', leia-se, Berlim/Bruxelas. E ainda bem, porque isto é que é uma união económica e monetária.

publicado por concorrenciaperfeita às 22:58
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