Segunda-feira, 19 de Julho de 2010

A PT tem futuro?

A PT continua sob o regime especial da ‘nacionalização temporária’. É esta a mais importante, e trágica, conclusão da decisão da Telefónica de retirar a oferta de 7,15 mil milhões de euros sobre os 50% que a PT tem na Vivo. Porquê? Porque a administração da empresa portuguesa continua a (não) decidir um negócio – e é disso que estamos a falar, de um projecto empresarial de telecomunicações – por razões políticas e não por razões económico-financeiras. Se queriam motivos para uma comissão de inquérito, esta sim importante e relevante, aí têm um.

Há uma expressão que sintetiza, na perfeição, o que se está a passar na PT: ‘a política destrói valor’. Sim, a política, essa actividade nobre, a mais nobre de todas, que é, por vezes, utilizada com outros fins. Menos nobres. E, provavelmente, essa destruição de valor vai começar a ser medida, já hoje, em bolsa, pela evolução das acções da PT. Exemplo: um ministro, Silva Pereira, fala, após um conselho de ministros, sobre um negócio que está a ser discutido, ao mesmo tempo, em conselho de administração da PT, para condicionar uma decisão que, diz ele próprio, é dessa administração.

Na sexta-feira, depois de mais um conselho de administração iniciado no dia anterior, a PT não conseguiu dar uma resposta à oferta da Telefónica. A empresa liderada por Henrique Granadeiro e Zeinal Bava pediu mais 12 dias para negociar, mas, do que se sabe, e não foi desmentido, a Telefónica estaria até disponível para pagar mais dinheiro. Não foi suficiente, não se sabe porquê.

Sabe-se que, às tantas, já não estamos a falar de um negócio e suspeita-se que qualquer que fosse o preço oferecido, não seria aceite. Não é um ponto de partida razoável. A Telefónica ‘fartou-se’ dos portugueses. Verdade seja dita, a Telefónica geriu este dossiê, literalmente, com os pés, mas sem a habilidade dos jogadores espanhóis que ganharam o campeonato do mundo de futebol. Acreditaram que estavam a negociar com uma empresa de um País de terceiro mundo. E desvalorizaram a força da opinião pública que, não percebendo nada do que está em causa, percebe uma coisa muito simples: vender aos espanhóis é igual a perder para os espanhóis. Isso foi, também, o que percebeu José Sócrates. Que levou a guerra ao limite, e ultrapassou-o. A corda partiu. E todos perdem, especialmente a empresa e quem nela investiu. E o País e o interesse estratégico que o Governo quer defender.

Agora, como é que vai ser o futuro: há, já, várias conclusões a retirar. A relação entre os accionistas de referência da PT, públicos e privados, está ferida de morte e vai ser, como com a Telefónica, um casamento de conveniência; a PT vai passar por uma situação de impasse e veremos durante quanto tempo, dependendo da guerra jurídica que vier a ser aberta pela Telefónica; E o primeiro-ministro vai ter de continuar a mandar na PT, até tudo isto acabar, e arranjar uma solução. Depois, espera-se, venha, enfim, o fim da golden-share. E o futuro da PT.

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Terça-feira, 13 de Julho de 2010

Os rumores

O ataque de que o Millennium bcp foi alvo na última semana, por sms e email e por mensagens nas redes sociais, é muito mais do que um ataque a um banco, é um ataque ao sistema financeiro como um todo e à própria economia portuguesa. E, desta vez, não foram especuladores, foram mesmo criminosos a coberto do anonimato. Os rumores sobre a fragilidade financeira do BCP, garante a administração, não passam disso mesmo, mas nos dias que correm, quando expressões como ‘stress tests’ aos bancos entraram nas conversas de café, todo o cuidado é pouco.

Porque é que, desta vez, o boato ganhou uma força inesperada: a verdade é que o BCP não tem vivido momentos fáceis desde a guerra entre Paulo Teixeira Pinto e Jardim Gonçalves. As autoridades e a justiça descobriram operações consideradas fraudulentas protagonizadas pelo fundador do banco e por parte da administração que estava consigo, como Filipe Pinhal. Depois, foi a sucessão e a chegada de Carlos Santos Ferreira e as acusações de intervenção política do Governo de Sócrates e o caso Vara. Em cima de uma crise económica e financeira sem precedentes, em Portugal e no mundo. Nem o mais sólido dos bancos resistiria a tanto. Já muito resistiu o BCP.

Há uma crítica que deve ser feita a Carlos Santos Ferreira. Depois do caso Vara, permaneceu em silêncio tempo demais, dando a ideia de falta de liderança que expôs o banco. Falou tarde, mas falou com uma voz grossa, mais do que lhe é habitual, numa longa entrevista ao Diário Económico, publicada na edição de nove de Abril. Sem rodeios, assumiu as fragilidades e dificuldades, falou das relações do ‘novo’ BCP com Angola, apontou objectivos e deu números de rentabilidade, solvabilidade e liquidez (ler destaque nas páginas 5 a 8 do jornal de hoje e entrevista em www.economico.pt).

Mas há uma crítica maior, e mais grave, que pode ser feita a Jardim Gonçalves e a Filipe Pinhal. Nas últimas semanas, de forma consecutiva, têm sido reveladas nos jornais peças da defesa destes ex-presidentes no ‘caso BCP’. Sucessivamente, e metodicamente, primeiro em entrevista e depois por via de documentos que constam do processo, Jardim e Pinhal põe em causa a forma como Santos Ferreira terá chegado a presidente do banco. Jardim e Pinhal têm todo o direito de se defenderem do que são acusados, mas já não têm o direito de atacar o banco que fundaram para a sua defesa, porque não foi Santos Ferreira a criar ‘offshores’ que o Ministério Público veio considerar parte integrante de um plano de falsificação e ocultação de contas.

Não imagino possível o envolvimento, directo ou indirecto, destes dois banqueiros no que se tem passado no BCP nas últimas semanas, mas a sua defesa deveria passar também por se distanciarem, de forma pública e clara, destes rumores. Sem cederem, por um segundo que fosse, na defesa da sua honra e bom nome.

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Quarta-feira, 7 de Julho de 2010

Assim se vê a força de Sócrates

Escrevi hoje, na última página do Diário Económico, que qualquer solução para o presente e futuro da PT só passaria com a aprovação de José Sócrates. O comunicado da Telefónica, hoje, anunciando a disponibilidade para voltar a negociar, vem dar força à posição do primeiro-ministro.

publicado por concorrenciaperfeita às 19:50
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Diálogo ibérico

As administrações da Telefónica e da PT vão voltar a negociar. Mas, então, o conselho de administração da PT já não tinha mandatado Henrique Granadeiro, Zeinal Bava e Pacheco de Melo para fazer isso mesmo!? E, do que se sabe publicamente, não houve qualquer contacto ou negociação. O que mudou? E o que vai mudar?

publicado por concorrenciaperfeita às 19:09
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Resolver o presente e mudar o futuro

Exactamente oito dias depois de José Sócrates ter usado a ‘golden share’ para vetar a decisão da maioria dos accionistas da PT de venderem a Vivo à Telefónica, o tema já não é económico nem empresarial, já pouco tem a ver com o futuro da operadora portuguesa, é ‘apenas’ político.

O primeiro-ministro José Sócrates é, para já, o único vencedor. O primeiro-ministro é um animal político, percebeu, antes de todos, que tinha nas mãos uma oportunidade única, a de recuperar o País para o seu lado, a maior parte dele não sabe o que está em causa em concreto, mas sabe que depois de perdermos para Espanha no futebol, não poderíamos perder para Espanha nos negócios... mesmo que isso seja à custa dos donos da própria empresa.

A defesa dos interesses do País é um argumento válido, mas, para isso, o melhor seria não privatizar empresas e, até, recomprá-las para asegurar esse objectivo. Em coerência. O Estado vendeu as empresas, recebeu o preço definido por si próprio pelo negócio, mas quer continuar a mandar. E a verdade é que continua, como se vê. Que sirva de lição, também, aos privados, incluindo os accionistas da PT como o BES e a Ongoing (dona do Diário Económico).

O negócio, qualquer negócio que a PT venha a fazer, não se fará sem o acordo do primeiro-ministro. Isso já era claro e só os mais distraídos, ou ingénuos, poderiam admitir outro cenário. Mesmo que, legalmente, existam possibilidades para o fazer. Sócrates não vai largar este assunto, e a decisão do Tribunal Europeu, já amanhã, previsivelmente contra o Estado português e a ‘golden share’, é paradoxalmente, o melhor que lhe pode suceder. Será mais uma oportunidade para mostrar que não verga, nem contra Bruxelas, nem contra ninguém. E, nisso, verdade seja dita, não há ninguém como ele. Quem disse que estava politicamente morto, enganou-se redondamente. Não está, está mais forte.

Obviamente, Ricardo Salgado percebeu isso e proferiu, ontem, pela primeira vez, a mais importante das declarações: o Governo decidiu vetar um negócio, o Governo tem a palavra para ultrapassar este impasse. É, realmente, o que está agora em causa. O Governo vai ter de levar a sua intervenção até ao fim e assegurar uma solução que defenda a sua posição inicial e desbloqueie não apenas o negócio da Vivo, mas o próprio presente da PT.

Por isso, a PT é, obviamente, o principal perdedor. Os accionistas privados perderam, a Telefónica perdeu, mas, verdadeiramente, quem mais perdeu, até agora, foi a PT e a sua administração, tolhida por um futuro incerto e por uma quebra de confiança entre os accionistas de referência, privados e públicos. A PT vai mudar, não se sabe como nem para onde. Antes, é preciso resolver o seu presente.

 

PS: Qual é a maior evidência de que o racional económico e empresarial já foi esquecido? A primeira posição pública de Santana Lopes, é bom recordá-lo, antigo primeiro-ministro, diz tudo e mostra quão longe pode chegar a demagogia política: o Estado fez bem em usar a ‘golden share’, pasme-se, mesmo que o preço oferecido fosse dez vezes mais alto.

publicado por concorrenciaperfeita às 07:00
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