Segunda-feira, 27 de Fevereiro de 2012

O dono que faltava

O Millennium bcp tem a partir de hoje um novo presidente-executivo, Nuno Amado, e tem, pela primeira vez na sua história, um dono que manda, a Sonangol. Para memória futura, faz toda a diferença. O maior banco privado português arrasta-se, há pelo menos dez anos, umas vezes melhor, outras pior, por motivos internos e externos à sua gestão e aos seus accionistas. A sua história recente, desde a guerra entre Jorge Jardim Gonçalves e Paulo Teixeira Pinto, ainda está por escrever. Sabe-se pouco, e o pouco que se sabe revela a influência de um Governo, e de Sócrates, numa solução de emergência para tentar salvar o banco. E uma transferência da gestão da CGD para o BCP, que acabou por adiar o inevitável. Um banco, como uma empresa, tem de ter uma de duas condições para sobreviver e vencer: um dono forte ou uma liderança forte. E no Millennium  bcp não foi possível garantir nenhuma das duas.

Carlos Santos Ferreira foi o melhor presidente possível, mas era impossível fazer melhor. Porque atravessou uma crise sempre cedentes, e porque respondia a vários donos, quase todos capitalistas sem capital e que usaram o banco para as suas guerras, em outras empresas e com outros interesses. Historicamente, Jardim Gonçalves conseguiu ser esse líder, e ‘matou’ qualquer pretensão de um só dono. Acabou no dia em que o próprio saiu da presidência executiva e quando se percebeu que, na Malhoa, não havia ‘rei nem roque’.

A entrada de Nuno Amado é uma oportunidade para o BCP pôr termo à monocultura financeira em que o país vive, dependente, para tudo, do BES e sobretudo de Ricardo Salgado. É uma oportunidade pela sua competência, e pelo facto de, pela primeira vez, um accionista assumir o seu papel de ‘dono’, com capital.

A Sonangol, que tem cerca de 15% do banco, tem mais capital, leia-se acções, e tem dinheiro. É mau? Foi o que valeu ao longo de 2011 e o que pode ser crítico para atrair novos investidores para o banco. Os accionistas portugueses, esses, têm menos capital, e nenhum dinheiro. Pelo menos agora, não voltaremos a ver um qualquer accionista a festejar os resultados de uma assembleia-geral como se de um jogo de futebol se tratasse. Porque ‘isto’ não é um jogo, apesar do que se viu na última década. Já não há dinheiro para isso, e ainda bem.

Para Nuno Amado, não haverá os equilíbrios que se pressentiram nos últimos anos. O faz–de-conta que todos mandavam, mas havia um que mandava mais do que os outros. Agora, não, agora manda um, o que tem mais votos, e obedecemos outros, os que têm menos. É assim nas democracias, e uma assembleia-geral é a Democracia do Capital. Nesta, aqui ou em Angola, manda quem tem votos e quem tem, além disso, dinheiro.

Amado constituiu uma equipa que não é apenas sua, é também do accionista Sonangol. Tem uma vantagem, não há equívocos, nem ambiguidades. A responsabilidade do sucesso – ou insucesso – será de Amado e do accionista que manda. Portugal ensaiou uma ofensiva diplomática em Angola mais relevante do que qualquer missão empresarial. O ‘Prós e Contras’ em Luanda, com Miguel Relvas e a elite política angolana, deu barulho em Portugal, sobretudo por uma gestão danosa de um programa de rádio, mas cumpriu os objectivos: Angola pode assumir, pela primeira vez, o poder que tem no BCP em Portugal. É aproveitar agora, porque, no momento económico e financeiro do País, mais relevante do que os centros de decisão do capital, são os centros de decisão da gestão. E, no caso do BCP, vai sair do Porto, mas vai ficar em Lisboa.

 

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Quinta-feira, 23 de Fevereiro de 2012

A nacionalização dos gestores públicos

O novo estatuto do gestor público é um daqueles diplomas que colhe o apoio popular, passa bem especialmente em momentos de crise, mas presta-se às maiores demagogias.

A crise, o desemprego crescente, os aumentos de impostos e os cortes nos subsídios de férias e Natal dos funcionários públicos são um terreno propício para pôr os gestores públicos na ordem. É um mau caminho, o pior, porque utiliza um instrumento – a política remuneratória - que deveria ser usado para as empresas atraírem os melhores e não para se contentarem com os piores.

Vamos por partes: em primeiro lugar, as funções de topo na Administração Pública, incluindo os titulares de cargos políticos, são mal remuneradas, face à responsabilidade das funções, experiência necessária e concorrência do sector privado. O estatuto do gestor público tem objectivos bondosos ao nível da promoção da meritocracia, isenção e transparência nas escolhas, mas nivela por baixo uma questão central – os salários - para promover efectivamente a captação dos melhores, sejam eles quadros do Estado ou contratados aos privados. Pedro Passos Coelho diz, e bem, que o tema do seu próprio salário não pode ser discutido agora, nestas condições. Já agora, em coerência, não deveria nivelar todos os gestores públicos por um salário que, reconhece, é baixo.

Em segundo lugar, tem um efeito perverso que nos pode custar, a todos, muito mais do que o pagamento de salários competitivos como sector privado. O estatuto do gestor público cria três grupos de empresas, é certo, em função de critérios como o peso das transferências de fundos públicos para os resultados operacionais das empresas e o volume de emprego e activo líquido dessas empresas. E abre espaço a situações excepcionais, como a da Caixa Geral de Depósitos ou a TAP, que estão em situação de concorrência no mercado com empresas privadas. Mas não chega. Não deixa de ser curioso, e contra-natura, que o Governo que mais promete liberalizar a economia e tirar o Estado das empresas legisle, ao mesmo tempo, de forma a carimbar e a pôr em causa a necessária e progressiva autonomia de empresas do universo empresarial do Estado. ‘Estatuto do gestor público’ diz tudo.

Esta não é, apenas, uma questão de forma, é de substância, porque é uma espécie de regresso ao passado, ao pior do passado, e transforma empresas em direcções-gerais qualificadas. Mas não é só. Nas excepções, como se percebeu já pelo caso-Caixa Geral de Depósitos, e não será o único, mas o mais evidente, as boas intenções, às vezes, resultam em más práticas. O novo estatuto abre uma excepção que permite evitar a indexação de um salário de gestor a 85% do salário ilíquido do primeiro-ministro, qualquer coisa como 5.300 euros brutos. Mas, como o Governo tambémquis regular as excepções, acomoda a possibilidade de administradores com as mesmas responsabilidades auferirem salários muito diferenciados. É possível formar uma equipa nestas condições?

Jorge Tomé, reconhecidamente um dos mais competentes banqueiros portugueses, saiu da CGD para a presidência executiva do Banif e, agora, é necessário substituí-lo. Não é possível, nemaceitável, que a Caixa não tenha condições remuneratórias para contratar o melhor quadro possível. E, neste ambiente populista, com estas limitações legais, isso é o que vai suceder. Quanto nos vai custar, a nós, contribuintes, o maior banco do sistema não ter outro Jorge Tomé?

 

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Terça-feira, 21 de Fevereiro de 2012

Um Tomé bem Amado

As mudanças no conselho de administração do Banif, um dos bancos líderes da liga de honra do sistema financeiro português, são mais relevantes do que à primeira vista possam parecer. Pelos nomes escolhidos – Luís Amado e Jorge Tomé -, pela situação de fragilidade do banco, quer ao nível accionista, quer de capitais, e pelo risco de efeito borboleta, de um banco mais pequeno no sistema financeiro como um todo.

Abanca está a fazer o seu próprio processo de reestruturação e de austeridade, em simultâneo com o programa de ajustamento económico e financeiro do País. As mudanças nas administrações, o ‘murro na mesa’ dos principais accionistas, a saída de uns e a entrada de outros, são exemplos, não os únicos, desta nova dinâmica no sistema financeiro, que também tem de mudar de vida. Os grandes – da primeira liga – estão a limpar os seus balanços, como se prova pelas centenas de milhões de euros de imparidades de crédito. Os pequenos, à sua escala, têm também de fazer este trabalho. E o Banif é, talvez, o que mais tem de fazer.

Luís Amado não é propriamente um banqueiro, é um diplomata de excepção e foi mais do que um ministro dos Negócios Estrangeiros, como se percebeu, cedo, quando sugeriu, contra a opinião de José Sócrates, a inscrição de um limite de dívida e défice na Constituição. ‘Leu’ os ares de Berlime Paris antes dos outros. E não se escondeu. Vai ter duas funções críticas: unir accionistas desavindos – particularmente a família de Horácio Roque que, com o seu desaparecimento, entrou em choque público e notório. E, mais importante, tem de cativar um ou dois novos accionistas internacionais que reforcem os capitais do banco e lhe dêem vida e futuro.

Jorge Tomé é um banqueiro na verdadeira acepção da palavra, e não apenas na que decorre do facto de ser presidente de um banco. A Caixa Geral de Depósitos perdeu, provavelmente, o administrador que mais sabia de banca, particularmente de banca de empresas, e que muita falta fará ao banco público que, de uma vez por todas, tem de concentrar-se em emprestar a quem quer criar riqueza e investir, e não em financiar participações ou grupos falidos. Nota de rodapé: Pedro Queiroz Pereira foi bater à porta da Caixa para comprar uma posição na Cimpor. Aí está um negócio que deveria ser proibido pelos estatutos do banco público, para isso há outros bancos, os privados. Como em tudo na vida, mais do que grandes desígnios, as instituições precisam de bom senso.

Tomé vai ter de gerir um banco que tem uma quota de mercado de 3,55%do crédito à economia e tem dificuldade em cumprir os seus rácios de capital. Vai ter de reduzir a relação entre créditos e depósitos, uma das mais desequilibradas do sistema, vai ter de vender a posição que tem no Brasil, um mercado demasiado grande para um banco que, nos dias de hoje, tem dificuldade em cumprir as exigências de capital para suportar a sua actividade no mercado português.

A dupla Amado/Tomé – como a dupla Monteiro/ Amado no Millennium bcp – tem as condições para ter sucesso nestes objectivos. No final de 2014, o Banif vai ter de ser um banco diferente do que é hoje, na sua estrutura accionista e na sua estratégia. Sozinho ou, no limite, incorporado por outro banco.

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Segunda-feira, 20 de Fevereiro de 2012

A ditadura das finanças falha com os gestores públicos?

As empresas públicas registaram um aumento dos prejuízos em 2011 e, pior do que isso, os custos operacionais, que deveriam ter caído 15%, evidenciaram também um agravamento face ao ano anterior. São sinais, são mais do que sinais, são factos que fazem antecipar o pior relativamente a este ano e deixam no ar uma dúvida: a ditadura do ministro das Finanças funciona, como se tem visto, com os contribuintes. E com os gestores das empresas públicas?

Os resultados e 2011 revelam uma derrapagem nos prejuízos (38,5%), atingindo os 1,5 mil milhões de euros, aos quais se somam outros 357,5 milhões de perdas dos hospitais públicos. E do lado dos custos, apesar de ter sido imposto um corte de 15%, as despesas operacionais aumentaram para mais de 3,7 mil milhões.

O agravamento dos prejuízos não é o indicador que mais impressiona. Afinal, a crise, quando chega, chega a todos e, por isso, é razoável esperar uma degradação da actividade e, logo, das receitas operacionais do universo de empresas que são controladas pelo Estado. O que suscita apreensão, até choque, é a incapacidade dos gestores das empresas públicas de levarem a cabo uma redução da despesa, nos termos em que foi definido pelo Governo num despacho de 21deAbril–ainda assinado por Teixeira dos Santos – assim como o cumprimento dos limites impostos ao aumento do endividamento.

Bem sei, houve, entretanto, uma mudança de Governo e não foi o actual ministro a fixar as balizas financeiras. Mas é certo que o que de novo se soube desde esse despacho só torna necessário uma redução ainda mais intensa dos custos operacionais. E, nesse mesmo documento, estava prevista a entrega mensal de relatórios sobre a execução financeira das companhias. Entregaram?

As contas reveladas na sexta-feira pela Direcção-Geral do Tesouro – e que não incluem a Estradas de Portugal e a própria Parpública, por motivos que se adivinham – são insuportáveis, moral e financeiramente.

Aí está um trabalho que se deveria exigir a cada um dos deputados: chamar cada uma das administrações e pedir explicações para os resultados que foram registados. Seria um trabalho de ‘accountabillity’ útil e que serviria, com toda a certeza, para todos percebermos quem é que falhou, e porquê. Muitas vezes se discutem as nomeações, por razões político-partidárias, mas este sim seria um motivo pelo menos tão relevante, e que nunca ou quase nunca se ouve: a competência, ou a falta dela, e os resultados, ou a falta deles.

Nas mãos de Vítor Gaspar, por isso, está um dos pontos mais frágeis do programa de austeridade, e que é garantir o equilíbrio operacional das empresas do universo empresarial do Estado. O insucesso tem consequências devastadoras no financiamento das empresas privadas. Porque as públicas continuam a consumir o capital que deveria ser canalizado para as privadas, e sem o qual não haverá crescimento, e emprego. Por mais comissões que sejam criadas.

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Quarta-feira, 15 de Fevereiro de 2012

Uma boa notícia, que não chega à economia

Portugal colocou ontem três mil milhões de euros de Bilhetes do Tesouro, de três a 12 meses, e fê-lo a taxas competitivas, tendo em conta a situação dos mercados financeiros. E, desde o início do ano, já emitiu mais de nove mil milhões de euros de dívida para o mercado. São boas notícias? São, e reflectem o trabalho do ministro das Finanças, Vítor Gaspar, mas estão ainda longe de ser a confirmação de um ponto de viragem, do afastamento da Grécia e da aproximação à Irlanda.

O sucesso na operação de ontem, no dia seguinte amais uma revisão embaixa do ‘rating’ da República por parte da Moody’s, pode até surpreender. Mas apenas os mais distraídos. É certo que a agência até sublinhou alguns aspectos positivos em Portugal, particularmente o cumprimento do plano acordado com a ‘troika’, mas o quadro global, que depende mais do contexto externo – e da Grécia e da indecisão dos líderes europeus -, está longe de estar terminado. Na zona euro como um todo e, especificamente, em Portugal. O acordo para um segundo resgate grego tarda em ser aprovado e, como já se percebeu, mesmo que o venha a ser, poucos acreditam no seu sucesso. Estão, neste caso, a ganhar tempo. E tempo que é útil também para Portugal porque, como a Moody’s deixa claro, Portugal não conseguirá voltar aos mercados em2013. Mesmo que faça tudo bem. E, até agora, está a fazer. Vai, por isso, precisar de mais tempo e/ou mais dinheiro.

A colocação de mais de nove mil milhões de euros de dívida pública de curto prazo, até um ano, é um bom negócio para o Estado e para os contribuintes, para os bancos, mas continua a não resolver o nó górdio sem o qual não sairemos do buraco: o financiamento da economia, particularmente das empresas.

O Estado vai conseguindo refinanciar-se, basicamente para pagar as emissões (leia-se os empréstimos) de há um ano a esta parte, sobretudo para financiar as empresas públicas que estão à beira da bancarrota. E a precisar de uma reforma urgente, o que parece que muitos ainda não entenderam. Os bancos, esses, compram a dívida pública portuguesa de curto prazo e que não está sujeita a qualquer ‘haircut’ – como os espanhóis compram a de Espanha e os gregos a da Grécia – com uma remuneração ‘simpática’ e usam estes títulos para pedir emprestado ao BCE, a 1%. É um bom negócio para os dois lados.

A estabilização do sistema financeiro é crítica, e as medidas de apoio à banca são, em certa medida, também o apoio à economia. Mas, no médio e longo prazo, não há banco que resista a uma economia morta. A forma como o BCE – e os líderes europeus – está a montar a rede de salvação do sistema cumpre a primeira premissa, mas não dá os incentivos correctos para garantir a segunda.

Provavelmente, não será em sede de BCE que o financiamento à economia tem de ser resolvido. A autoridade europeia já faz muito, e bem. Mas, tendo em conta que a ‘troika’ está em Portugal esta semana para mais uma avaliação – positiva, espera-se -, seria importante voltar a pôr o tema do financiamento na agenda. Seja através da liquidação das dívidas das empresas públicas à banca, seja através de novos instrumentos (ou incentivos) que assegurem que as pequenas e médias empresas economicamente viáveis não asfixiam por falta de capital.

 

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Segunda-feira, 13 de Fevereiro de 2012

Um golo na própria baliza?

Os clubes de futebol, como se suspeitava há anos, não cumpriram o acordo assinado com o Estado para o pagamento das suas dívidas fiscais, o conhecido Totonegócio. Por responsabilidade dos outros, claro, não dos clubes de futebol que foram, como se sabe, austeros, conservadores e rigorosos na gestão das suas contas, nas contratações e nos salários, nos projectos imobiliários que eram a resposta milagrosa para todos os problemas... Claro, no mundo da fantasia, não a futebolística, que é bem-vinda, mas financeira.

O novo presidente da Federação Portuguesa de Futebol, Fernando Gomes, diz, e acredita no que diz, que os clubes cumpriram o acordo e pagaram o que deviam. Mas há um ‘por maior’: o Estado reclama cerca de 33 milhões de euros de 88 clubes que estão em dívida. Portanto, os clubes pagaram o que devem, mas há uma dívida. Confusos?

Num aspecto, Fernando Gomes tem razão. O Totonégócio é, ele próprio, o pecado original, porque foi estruturado de tal forma que é possível hoje dizer, como no ditado popular, que ‘todos ralham e ninguém tem razão’.

Em 1999, quando os clubes de futebol assinaram um acordo com o Governo de António Guterres, uma espécie de acordo especial no quadro do então chamado Plano Mateus, comprometeram-se a pagar as suas dívidas acumuladas até então, de cerca de dez milhões de contos (50 milhões de euros) com base nas receitas futuras do totobola. Mas houve, claro, uma sobreavaliação destas receitas, como houve, sucessivamente, e com todos os governos, uma subavaliação das dívidas que, entretanto, se acumularam novamente.

O Totonegócio foi a expressão de uma relação promíscua entre o mundo do futebol e do poder político, que não abona em favor de nenhum dos dois. O futebol está longe de ser apenas um entretenimento para desanuviar da crise financeira, económica e social do País, é uma indústria relevante para a economia portuguesa. E que deve ser promovida como tal.

Mas, isso não pode nem deve corresponder a um tratamento de favor. Exige-se que os clubes de futebol façam, como os outros sectores de actividade, um ajustamento no seu nível de vida e que, mais do que isso, paguem o que devem a tempo e horas. Os clubes de futebol devem ser tratados como qualquer outra empresa e, nesse sentido, podem, se o entenderem, beneficiar dos programas que os governos, este ou outro, promovam em matéria de recuperação de empresas. Mas apenas isso.

O ministro do Desporto, Miguel Relvas, já disse publicamente que os clubes de futebol não terão um tratamento de favor. É o mínimo que se exige a um Governo que está a aplicar o maior e mais brutal programa de austeridade de que há memória. E, por isso, não é aceitável que o Estado volte a perdoar os clubes de uma exigência fiscal, com base no argumento de que não fez o que deveria fazer para promover o Totobola.

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Domingo, 12 de Fevereiro de 2012

A Caixa... de Pandora

A Caixa Geral de Depósitos revelou, na sexta-feira, um prejuízo recorde de quase 500 milhões de euros em 2011, o que deixa mais dúvidas que certezas sobre a forma como o poder político, primeiro, e as sucessivas administrações do banco público, depois, usaram os dinheiros públicos.

À primeira vista, os resultados da Caixa não são diferentes dos apresentados pelos outros grandes bancos portugueses, que também tiveram prejuízos históricos. Mas há uma grande diferença, é que se trata de um banco do Estado e que, supostamente, deveria ser diferente dos outros, deveria ter um posicionamento no mercado que justificasse a sua existência no universo público. E a primeira constatação é que a Caixa é igual aos outros, não se diferencia pelos melhores motivos, assemelha-se pelos piores. 

Como na mitologia grega, José de Matos, o novo presidente-executivo, abriu a caixa dos prejuízos deixados por Faria de Oliveira, anterior presidente--executivo, e todos os males da Caixa escaparam-se. Ou melhor, tornaram-se públicos.

Faria de Oliveira foi instrumental, ou deixou-se ser, por um poder político que utilizou a Caixa para servir-se e não para servir. Os presidentes da Caixa não são os principais responsáveis, terão sido, até, os últimos defensores, até ao limite do possível. Mas o poder político ganhou sempre, ou quase sempre, claro, com a desculpa que era necessário proteger os centros de decisão nacional. E alguns terão sido mesmo isso, mas misturados com muitos (negócios) que nada justificava, a não ser a proteção de grupos falidos e a perpetuação de empresários sem capital a controlar empresas de bandeira. De todos os sectores.

Não deixa de ser curioso que a justificação - mais ruidosa - para os prejuízos de 488 milhões de euros terão sido as imparidades resultantes das participações na PT, BCP e Zon. Não é verdade, e basta analisar as imparidades de crédito - mais de 800 milhões - para perceber que a Caixa andou a financiar quem não devia, e o que não devia. Além disso, fica claro que não cabe ao banco público alinhar em estratégias supostamente nacionais para entrar em empresas como a PT, BCP e Zon. Concentre-se, antes, na actividade bancária, em captar recursos e em emprestar, sobretudo às pequenas e médias empresas. 

Como na mitologia, todos os males escaparam da Caixa, mas ficou um, o da esperança: o candidato a primeiro-ministro Pedro Passos Coelho anunciou a intenção de privatizar parte do capital do banco público, contra o qual se manifestaram logo os do costume e o primeiro-ministro Pedro Passos Coelho deixou cair essa proposta. Seguramente, a crise também tem virtudes, e uma delas é a de revelar que a CGD, assim, com esta estratégia, ou melhor, táctica, não justifica o estatuto de pública e deveria ser privatizada.

 

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Terça-feira, 7 de Fevereiro de 2012

E, agora, uma coisa realmente importante!

Portugal está metido numa crise sem precedentes, mas as discussões políticas continuam a ser niveladas por baixo, entre a 'pieguice' e o Carnaval, temas sem a mínima importância e que consome tempo e atenção que deveriam estar centrados no que é realmente importante: Portugal dificilmente conseguirá regressar aos mercados em 2013, mesmo que faça tudo bem. E, então, o que sucederá?

As palavras de Pedro Passos Coelho não foram a forma mais feliz de espelhar uma realidade que é dura. Em primeiro lugar, porque 'piegas' não é propriamente a melhor forma de caracterizar os portugueses, especialmente nestes tempos que correm. Os portugueses são outras coisas, são talvez, sofridos, são facilitistas, são melancólicos, são pouco exigentes, consigo e com os outros.

Mas o primeiro-ministro não se limitou a pedir o fim da 'pieguice'. Disse mais, e mais importante. Disse, no contexto de uma conferência sobre educação, que não podemos ter pena dos alunos "que sofrem tanto para aprender". Serve isto também para os portugueses, que estão a sofrer para aprender que não há tempo, nem dinheiro, para complacências, paternalismos e facilitismo. Não nos podemos dar, colectivamente, a esse luxo, porque em breve teremos de pedir dinheiro emprestado aos mercados, outra vez, e a sua avaliação vai ser exigente.

É, também por isso, que a discussão em torno da tolerância de ponto do Carnaval é desproporcionada face à sua real importância. É absurda. O Governo pensou bem, mas executou mal. As câmaras municipais concedem tolerância de ponto, as empresas têm nos seus acordos colectivos a paragem no dia de Carnaval, Alberto João Jardim vai disfarçar-se, talvez de 'rico', e vai desfilar, como sempre. Tudo somado, tanto barulho, e impacto social, com resultados limitados, ou nulos.

Mais relevante hoje, e esse deveria ser o assunto a concentrar a discussão política, é perceber como vamos voltar a financiar a nossa economia, e o nosso Estado, quando acabar o cheque da 'troika'. Vale a pena olhar para a Grécia e perceber que o nosso tempo esgota-se e que não estaremos imunes a um 'default' grego. A reestruturação da dívida da Grécia, leia-se um perdão de dívida de pelo menos 65% do total, a aplicação de novas medidas de austeridade e um novo empréstimo não serão provavelmente suficientes para manter o País no euro. Porque não há crescimento.

Portugal está mais próximo da Irlanda na execução do plano de austeridade, mas está mais próximo da Grécia na estrutura da sua economia. E, sem crescimento, o Governo tem uma de duas soluções: mais dinheiro em 2014 ou a reestruturação da dívida pública já em 2012.

Pedro Passos Coelho vai manter a primeira opção como a única opção, enquanto o ministro das Finanças, Vítor Gaspar, vai ouvir os mercados, em segredo, sobre a segunda. Das duas, a melhor solução é a terceira, é também a mais difícil, é criar condições para a economia crescer e tornar a nossa dívida solvente.

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Quarta-feira, 1 de Fevereiro de 2012

Um novo acordo que já o era antes de o ser

O ministro das Finanças garante que Portugal não quer, nem vai pedir, uma renegociação do programa de ajustamento negociado com a ‘troika’, não quer mais tempo ou dinheiro. Vítor Gaspar sabe, melhor do que ninguém, que a questão central do programa de austeridade, o que nos pode tirar da tempestade que vivemos, já foi renegociada: há hoje novas condições de financiamento à economia, leia-se, um novo acordo que já o era antes de o ser.

Claro, o ministro das Finanças não tem condições para pedir publicamente, agora e nestas circunstâncias, mais dinheiro à ‘troika’, o dinheiro que faltava – cerca de 20 a 30 mil milhões de euros – desde logo para garantir que a banca tema cesso a liquidez para financiar o investimento das empresas. Mas negociou, como apoio do Banco de Portugal, novas condições de acesso da banca a esse financiamento, e beneficiou, também, de medidas no contexto da zona euro, como as que têm sido tomadas pelo Banco Central Europeu (BCE).

A renegociação – a palavra é minha – já está feita e, por portas travessas, Portugal desbloqueou a entrada dos referidos 20 a 30 mil milhões de euros. Através dos fundos de pensões, de uma nova linha de crédito do BEI, de acesso a empréstimos do BCE a três anos. É a nota positiva, crítica mesmo, de um programa de ajustamento que vai sendo, também, reajustado nas consequências. O desemprego, que é a expressão da austeridade, vai chegar aos 14,5% em média durante o ano de 2012, por isso, poderemos esperar, no primeiro trimestre de 2013 uma taxa oficial superior a 16%.

As consequências da austeridade estão aí, mas não há boa austeridade, como não há uma boa maneira de dar más notícias. Um programa de empobrecimento organizado que é, eufemísticamente, apelidado de ‘plano de ajustamento’ só poderia ser recessivo. Porque é preciso ajustar o nível de vida dos portugueses ao seu nível de criação de riqueza. E, de forma mais estrutural, preparar o País para uma nova realidade, para um novo Estado social, que não vai proteger tudo e todos, mas apenas os mais necessitados e fragilizados. E para um novo Estado económico, mais competitivo e que promova o crescimento.

 

‘Krugmania’ de efeito-rápido

Paul Krugman é, certamente, dos mais brilhantes economistas do mundo, prémio Nobel e incontornável, para quem o idolatra, para quem o odeia. Mas o que se passou por estes dias, em Portugal, esta ‘Krugmania’ de efeito-rápido, deve ter surpreendido o próprio. Doutorado ‘honoris causa’ por três universidades de uma só vez, transformado em estrela, Krugman não disse nada de novo relativamente ao que já lemos nos seus artigos de opinião, mas foi recebido como um D. Sebastião, que nos ensinaria a sair da crise, já amanhã e em contracorrente como caminho que está a ser seguido.

Krugman, o próprio, encarregou-se de desfazer equívocos, e mostrar porque é uma referência: “Não há muita margem de manobra”, “não posso aconselhar a esquecerem a austeridade”, “no mínimo, os salários têm de crescer mais lentamente que os salários do resto da Europa”, “gostaria de ver um ajustamento pela parte da produtividade em vez de pelos salários”, “não há receitas mágicas, a não ser abandonar o euro (…) não se faz, a não ser que não haja alternativa. E Portugal não está nesse ponto”. Quantos economistas já nos disseram isto? Portugueses e que sabem, e muito, da realidade da economia portuguesa? E quantos, no Governo de Passos Coelho, não subscrevem exactamente estas opiniões?

publicado por concorrenciaperfeita às 23:57
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Um novo acordo que já o era antes de o ser

O ministro das Finanças garante que Portugal não quer, nem vai pedir, uma renegociação do programa de ajustamento negociado com a ‘troika’, não quer mais tempo ou dinheiro. Vítor Gaspar sabe, melhor do que ninguém, que a questão central do programa de austeridade, o que nos pode tirar da tempestade que vivemos, já foi renegociada: há hoje novas condições de financiamento à economia, leia-se, um novo acordo que já o era antes de o ser.

Claro, o ministro das Finanças não tem condições para pedir publicamente, agora e nestas circunstâncias, mais dinheiro à ‘troika’, o dinheiro que faltava – cerca de 20 a 30 mil milhões de euros – desde logo para garantir que a banca tema cesso a liquidez para financiar o investimento das empresas. Mas negociou, como apoio do Banco de Portugal, novas condições de acesso da banca a esse financiamento, e beneficiou, também, de medidas no contexto da zona euro, como as que têm sido tomadas pelo Banco Central Europeu (BCE).

A renegociação – a palavra é minha – já está feita e, por portas travessas, Portugal desbloqueou a entrada dos referidos 20 a 30 mil milhões de euros. Através dos fundos de pensões, de uma nova linha de crédito do BEI, de acesso a empréstimos do BCE a três anos. É a nota positiva, crítica mesmo, de um programa de ajustamento que vai sendo, também, reajustado nas consequências. O desemprego, que é a expressão da austeridade, vai chegar aos 14,5% em média durante o ano de 2012, por isso, poderemos esperar, no primeiro trimestre de 2013 uma taxa oficial superior a 16%.

As consequências da austeridade estão aí, mas não há boa austeridade, como não há uma boa maneira de dar más notícias. Um programa de empobrecimento organizado que é, eufemísticamente, apelidado de ‘plano de ajustamento’ só poderia ser recessivo. Porque é preciso ajustar o nível de vida dos portugueses ao seu nível de criação de riqueza. E, de forma mais estrutural, preparar o País para uma nova realidade, para um novo Estado social, que não vai proteger tudo e todos, mas apenas os mais necessitados e fragilizados. E para um novo Estado económico, mais competitivo e que promova o crescimento.

 

‘Krugmania’ de efeito-rápido

Paul Krugman é, certamente, dos mais brilhantes economistas do mundo, prémio Nobel e incontornável, para quem o idolatra, para quem o odeia. Mas o que se passou por estes dias, em Portugal, esta ‘Krugmania’ de efeito-rápido, deve ter surpreendido o próprio. Doutorado ‘honoris causa’ por três universidades de uma só vez, transformado em estrela, Krugman não disse nada de novo relativamente ao que já lemos nos seus artigos de opinião, mas foi recebido como um D. Sebastião, que nos ensinaria a sair da crise, já amanhã e em contracorrente como caminho que está a ser seguido.

Krugman, o próprio, encarregou-se de desfazer equívocos, e mostrar porque é uma referência: “Não há muita margem de manobra”, “não posso aconselhar a esquecerem a austeridade”, “no mínimo, os salários têm de crescer mais lentamente que os salários do resto da Europa”, “gostaria de ver um ajustamento pela parte da produtividade em vez de pelos salários”, “não há receitas mágicas, a não ser abandonar o euro (…) não se faz, a não ser que não haja alternativa. E Portugal não está nesse ponto”. Quantos economistas já nos disseram isto? Portugueses e que sabem, e muito, da realidade da economia portuguesa? E quantos, no Governo de Passos Coelho, não subscrevem exactamente estas opiniões?

 

 

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