Terça-feira, 29 de Maio de 2012

The smoking gun

 Diz a Wikipedia que a expressão inglesa "the smoking gun" aparece pela primeira vez em 1893 numa história de Sherlock Holmes e é uma referência a um facto que confirma a evidência de um crime. A decisão da CMVM de imputar à Camargo Corrêa os direitos de votos da Votorantin e da Caixa Geral de Depósitos na Ofeta Pública de Aquisição (OPA) sobre a Cimpor é a 'smoking gun' desta história. A OPA foi concertada e já o era antes de o ser.

A situação accionista da Cimpor, percebia-se há pelo menos dois anos, teria de ser resolvida mais cedo ou mais tarde. A convivência de dois concorrentes brasileiros - Camargo Corrêa e Votorantin - na estrutura de capital da Cimpor teria de ser revista. É preciso recordá-lo, os dois concorrentes entraram na Cimpor para evitar que um terceiro player brasileiro - a CSN - comprasse a empresa. Pelo meio, a Caixa Geral de Depósitos decidiu entrar no jogo da defesa dos centros de decisão nacional e, aproveitando a fragilidade financeiro de Manuel Fino, outro accionista da Cimpor, ficou com 10% do capital e fez um acordo com a Votorantin.

A Caixa não deveria ter entrado nesta guerra, como se percebe agora. A partir do momento em que travou a oferta da CSN, o que a Caixa conseguiu foi adiar a divisão da empresa, agora conhecida de acordo com os termos da proposta da Camargo. Umas fábricas ficam para mim, outras ficam para ti, poderia ser o lema. O contexto da crise económica e financeira do país e a necessidade de pôr termo às participações accionistas da CGD tornavam óbvia a necessidade de vender esta posição, mais cedo ou mais tarde.

O problema não é, por isso, este. O problema é outro, e bem mais grave. A administração da Caixa não teve qualquer papel ou decisão neste processo, limitou-se a aceitar, sem mais, as indicações de Vítor Gaspar e de António Borges, e embarcou num acordo com a Camargo a um preço de 5,5 euros por acção, menos o dividendo, que é considerado pela própria administração da Cimpor baixo e que não reflecte o valor da companhia.

Pior, como se pode constatar do prospecto da OPA ontem divulgado - e só possível porque a CMVM fez o seu trabalho de casa - o que José de Matos e Faria de Oliveira disseram no Parlamento não corresponde à verdade. O acordo com a Camargo estava feito antes de a OPA ser conhecida e, por isso mesmo, em 26 minutos, foi possível ver um comunicado da Caixa a anunciar que aceitava o preço oferecido, sem regatear. Ainda  por cima, tendo 10% das acções que viabilizavam ou inviabilizavam a OPA.

A clarificação da situação accionista da Cimpor era uma necessidade, e agora está feita. O facto de ser um accionista brasileiro é, até, positivo, porque corresponde à entrada de centenas de milhões de euros no País. Este processo é triste porque se percebe que esta OPA foi ganha na secretaria, antes de ser lançada, e com o apoio do Governo português, que decidiu em nome da Caixa. O banco público, esse, foi apenas uma marionete do ministro das Finanças e do 12º ministro do Governo.

publicado por concorrenciaperfeita às 21:14
link do post | comentar | favorito
Segunda-feira, 28 de Maio de 2012

Escrever direito por linhas tortas

 A banca portuguesa tem, seguramente, responsabilidades na crise que vivemos, a supervisão comportamental tem de ser reforçada, mas a forma como o Estado (leia-se o Governo, os partidos com assento parlamentar, até o Banco de Portugal) quer interferir na gestão bancária, seguramente por motivos bondosos, arrisca-se a ser mais um problema para as famílias e empresas, porque o crédito vai ficar mais caro e menos acessível.

O que é que se passou nos últimos doze meses? Primeiro, foram os organismos financeiros internacionais e o Banco de Portugal a reverem em alta os rácios de capital exigidos à banca portuguesa, e que os bancos e os respectivos accionistas foram cumprindo, com algum dinheiro próprio e muitas vendas de activos. Teve, ainda assim, a virtude de obrigar os bancos a limparem os seus balanços, mas não chegou, como seria de esperar, para lhes permitir o regresso aos mercados. Depois, foi o Governo a definir que o Estado teria de ser accionista dos bancos a quem emprestasse fundos para cumprirem os rácios 'core tier one', assumindo o objectivo de uma nacionalização encapotada, cujos resultados veremos. A alternativa, cuja viabilidade depende do Estado, são empréstimos a 8%. Finalmente, porque não poderiam ficar de fora, todos os grupos parlamentares descobriram uma insuspeita competência e conhecimento de gestão bancária para defenderem os mais desprotegidos.

Os desempregados têm de ser apoiados? As famílias mais carenciadas têm de ter apoios para ultrapassar esta fase difícil da crise? Sim e sim, mas estamos a falar de políticas sociais e não de estratégias bancárias. Se o Estado quer, e deve, proteger os mais vulneráveis - e sabe-se como o peso do crédito à habitação é tão pesado nos agregados familiares - tem de assumir ele próprio os respectivos custos. O Governo de Sócrates fê-lo, mas a linha de crédito criada para o efeito não teve grande sucesso. A crise não era a que é.

A estratégia que está a ser seguida pelos partidos com assento parlamentar, incluindo os partidos que sustentam o Governo, o PSD e o PP, seguem um caminho populista, que vende. Em defesa dos cidadãos que estão a pagar a crise, querem ser uma espécie de Robin dos bosques que rouba aos bancos (os mais ricos) para dar aos beneficiários de crédito à habitação, em dificuldades (os mais pobres). Mas há um pequeno problema. Todas estas medidas, desenhadas como estão a ser desenhadas, vão ter uma consequência, o custo do crédito vai ficar mais caro para todos os outros.

Uma das medidas é, aliás, emblemática dos incentivos errados que o PSD está a dar neste capítulo. Quem entrar em incumprimento no crédito à habitação, deve estar ano e meio sem pagar o empréstimo ou até quatro anos sem pagar juros. A medida é bondosa, mas alguém vai ter de a pagar. E, desconfio, serão os empregados, as empresas que exportam e que precisam de acesso a financiamento.

Os bancos são os primeiros interessados em renegociar contratos de crédito à habitação, para não ficarem com mal-parado, inevitável neste contexto económico. Mas a fúria legislativa dos partidos dá-lhes a desculpa perfeita para darem com uma mão a uns e tirarem com a outra, a outros.

 

 

publicado por concorrenciaperfeita às 21:30
link do post | comentar | favorito
Domingo, 27 de Maio de 2012

A mão que embala o berço

Enquanto a directora-geral do FMI, Christine Lagarde, se entretém a dizer disparates que pressionam ainda mais as eleições gregas, a resposta está, como é evidente, na Alemanha e na senhora Merkel. Não só da Grécia, como do futuro do euro, apesar da retórica do senhor Hollande e do novo poder político em França. A história da crise das dívidas soberanas na Europa e, particularmente, nos países do Sul, não começou em 2008, é preciso dizê-lo. Decorreu de um acordo tácito (ou terá sido mesmo escrito, declarado, formalizado?) entre os mais ricos e competitivos e os mais pobres e menos desenvolvidos. A Alemanha viabilizou a criação do euro por interesse próprio, económicos e políticos, e não apenas por razões de solidadariedade institucional. Porque os líderes alemães perceberam que tinham tudo a ganhar em entrar numa zona monetária que estava desequilibrada e que seria, como foi, um mercado para onde poderiam exportar todos os seus produtos. Mas, para isso, seria necessário financiar esses países, ajudá-los a pedir crédito para ter a capacidade de importar os carros alemães ou a tecnologia alemã. Foi uma espécie de 'mão que embala o berço', que nos adormeceu na nossa própria inconsciência e irresponsabilidade. Os países do Sul, como Portugal, queriam ser como os do Norte, como a Alemanha, e beneficiaram de crédito fácil para promover um desenvolvimento que teve tudo de insustentável. Sim, estamos melhor, muito melhor, do que há 25 anos, mas não soubemos parar. A culpa foi, por isso, também nossa, por isso não vale a pena, é aliás errado, atirar as responsabilidades para cima da senhora Merkel. Deixamo-nos embalar. Nesta fase, a Alemanha beneficia da crise, porque continuou a ser o que é, austera, frugal, competitiva, trabalhadora, mesmo com mercados preguiçosos ali ao lado, que incentivavam facilitismo e novo-riquismo. É por isso que a Alemanha é um porto de refúgio, é por isso que o dinheiro foge dos países do Sul, incluindo Espanha e Itália, para a Alemanha. É por isso que há investidores que estão dispostos a pagar à Alemanha para lhe emprestar dinheiro. Ao mesmo tempo que cobram juros insuportáveis aos países do Sul. Porquê? Porque desconfiam da sustentabilidade do euro, e os sinais que lhes são enviados assim o justificam. O endividamento dos países do Sul vai ter de ser reduzido, e reduzido à força, e isso não é (apenas) uma exigência da senhora Merkel. É (também) dos nossos credores. A austeridade está a ter consequências que, surpreendentemente, a 'troika' e o próprio Governo dizem ser... surpreendentes. Não são, particularmente o desemprego, mas a resposta está longe de ser apenas doméstica e com mais dinheiro. E não se resolverá tão cedo. A resposta tem de ser europeia, e as eurobonds (obrigações europeias), absolutamente necessárias, só podem ser o fim e não o início do processo. Será preciso mais mercado interno, menos subsídios, por exemplo, para a agricultura francesa, mais concorrência. A senhora Merkel sabe que, a prazo, a Alemanha tem tudo a perder com a implosão da zona euro. As empresas alemãs vão exportar para onde, se a Europa se transformar numa grande Albânia? 'A mão que embala o berço' vai continuar a ser a da Alemanha, que tem todo o interesse, económico e também político, em manter a zona euro. Seguramente a senhora Merkel não vai querer ficar para a história como a líder alemã que, pela terceira vez, e desta vez sem armas, destrói a Europa, a sua estabilidade e o seu modelo de desenvolvimento, que tem de mudar para que possa evitar a implosão.

publicado por concorrenciaperfeita às 22:12
link do post | comentar | favorito
Quarta-feira, 23 de Maio de 2012

Os jornais, os jornalistas e os poderes

Ciclicamente, os jornais e os jornalistas são notícia, regra geral por más razões. Desta vez, não muito diferente de tantas outras vezes, um ministro pressionou um jornal e uma jornalista porque não gostou das perguntas que lhe foram enviadas. É a vida, dos jornalistas e dos governos, diga-se. Verdade seja dita, é até estranho que um Governo, um poder económico ou outro interesse não pressionem ou tentem influenciar um jornalista ou um jornal.

Vejamos, os objectivos dos jornalistas e dos governos são, necessariamente, contraditórios e haverá um momento no tempo em que essa tensão será transformada em pressão. Se isso não suceder, se calhar, não há jornalismo. Não foi o primeiro episódio, não será o último, de um ministro ou de um presidente de uma empresa, ou até de um director de comunicação.

Nos tempos que vivemos, o aumento das pressões sobre jornalistas é directamente proporcional ao agravamento da crise económica e social e da tensão política. Porque os grupos de comunicação social estão fragilizados do ponto de vista financeiro e não há independência editorial quando os jornais são dependentes de ajudas, sejam elas de Governos ou de empresas. Os leitores são, sempre, a melhor garantia de que os jornais e os jornalistas resistem às pressões. Porque são exigentes, atentos e os maiores críticos. Ainda bem.

Pressões, essas, só conheço as legítimas. A decisão de um ministro ou de um presidente de empresa de não falar a um jornal ou a outro órgão de comunicação social é legítima. Seja qual for a razão, as fontes oficiais ou oficiosas têm, sempre, o direito de não responder, de não revelar factos ou dados em primeira mão. Como é legítimo que uma empresa decida não investir num jornal porque não concordam com a linha editorial de um jornal ou com as suas opções. E, sejamos claros, às vezes, até têm razões de queixa. Os jornais, os jornalistas, são tão corporativos como os outros, como os médicos ou os advogados, protegem-se, raramente erram e têm quase sempre razão. Não têm, são tão bons como o País, como os governos, as empresas e as elites, no melhor e no pior.

 

Coisa bem diferente é a acusação, que é feita a Miguel Relvas por parte do Público e da sua direcção. É, por isso, importante que a ERC não se distraia do essencial, e o essencial não é seguramente o jornalismo interpretativo do Público, porque, esse, os leitores julgam todos os dias, mas os termos exactos das pressões de um ministro sobre um jornal e uma jornalista. A ideia de que um ministro, com a tutela da comunicação social, ameaçou divulgar dados da vida privada de um jornalista não é uma pressão, é crime. A confirmar-se, o ministro-adjunto só pode demitir-se. Se não se confirmar, a acusação tem de ter uma resposta em tribunal.

Por isso mesmo, Miguel Relvas deve ser o primeiro a querer esclarecer o que se passou. Para que não restem dúvidas. Porque, se não o fizer, pode até permanecer em funções, mas estará politicamente fragilizado por um caso que já ultrapassou as barreiras da relação entre jornalistas e os poderes instituídos. Portugal precisa de um Governo forte, um Governo fraco só interessa aos poderes que com ele têm de negociar e que (ainda) comem à mesa do orçamento. E Miguel Relvas é uma peça-chave que, seguramente, Pedro Passos Coelho não pode dispensar. Que seja por boas razões.

 

PS: A privatização dos meios de comunicação social do Estado, e não só a RTP, ainda não chegou a este debate. Mas seria uma óptima oportunidade para o fazer.

 

publicado por concorrenciaperfeita às 20:10
link do post | comentar | favorito
Terça-feira, 22 de Maio de 2012

Mais Europa ou o fim da Europa

 

A crise da zona euro, nas suas várias dimensões, e as soluções que são apresentadas pelos líderes europeus, e não só, apontam no mesmo sentido, e, paradoxalmente, é ele próprio a razão de ser das desconfianças de quem hoje não vê uma saída: mais Europa, mais federalismo, menos soberania nacional.

No próximo dia 17 de Junho, a Grécia vai ter o referendo que o antigo primeiro-ministro grego Papandreus queria e que os líderes europeus travaram. As eleições, uma espécie de segunda volta, não serão apenas a escolha de um Governo, serão mais do que isso, serão uma decisão do povo grego sobre o seu futuro no quadro europeu.

A Democracia será, por isso, mais vivida do que nunca, porque os gregos estão confrontados com uma decisão que não tem meios caminhos, e já perceberam isso. Mesmo querendo maioritariamente o euro, se votarem em partidos que não querem cumprir os acordos europeus, e os respectivos planos de ajustamento económico, estarão a determinar a sua própria exclusão da moeda única e, consequentemente, uma austeridade impensável e com efeitos devastadoras na vida económica e social, seguramente na próxima década.

Aqui, a Europa, particularmente a do euro, tem também responsabilidades. Nos últimos dias, fez caminho a ideia de que é possível, e gerível, deixar cair a Grécia e os gregos, uma irresponsabilidade maior do que aquela que levou à falência do Lheman Brothers. Às sucessivas ameaças de responsáveis europeus, e até do FMI e de Lagarde, sucederam-se as promessas de fé sobre a vontade de manter a zona euro como existe hoje.

Claro, todos pedem crescimento económico, como se percebeu, por exemplo, das conclusões da reunião do G8, este fim-de-semana. Por contraponto à austeridade imposta por Merkel. Mas nem todos estão a falar do mesmo tipo de crescimento.

François Hollande, por exemplo, quer mais dinheiro, mais eurobonds e mais crédito para uma economia europeia que, valha a verdade, teve tudo isso em excesso na última década. Mas ninguém ouviu o novo presidente francês a aceitar discutir, por exemplo, a revisão da Política Agrícola Comum e os subsídios de que vive um sector tão relevante e tão sustentado artificialmente por fundos europeus. Ou, por exemplo, do aprofundamento do mercado interno, ainda por concluir, e precisamente por causa dos franceses.

Sejamos claros, instrumentos como as obrigações europeias - que na prática significam a partilha de risco entre um país como a Grécia e outro como a Alemanha - só serão possíveis com políticas nacionais não só coordenadas a nível europeu, mas decididas em Bruxelas. A banca, por exemplo, é um factor crítico de sucesso, ou de ruptura, da moeda única, como se percebe da corrida aos depósitos na Grécia ou dos buracos da banca espanhola. E só será possível garantir, em última análise, a estabilidade do sector através do BCE e das suas intervenções. Mas, para as tornar credíveis e sustentáveis, é necessário mais poder de decisão em Frankfurt, a sede do banco central europeu. Estamos, cidadãos europeus, dispostos a isto?

Os líderes europeus têm uma oportunidade única de fazer história, como o fizeram os pais fundadores deste projecto único. Já se percebeu, a construção europeia foi tão longe quanto o possível sem a consulta dos cidadãos europeus. O projecto político - de que o euro é a sua mais relevante decisão - foi construído aos solavancos, e os europeus foram sendo confrontados com decisões de facto, sem uma verdadeira participação. Este caminho, que teve méritos, esgotou-se, já não é possível ir mais longe, por isso, não são só os gregos que têm de ser confrontados com o seu destino. Somos todos nós.

publicado por concorrenciaperfeita às 16:19
link do post | comentar | favorito
Domingo, 20 de Maio de 2012

As rendas excessivas do ministro 'iluminado'

 

Álvaro Santos Pereira revelou-se 'iluminado'. No dia em que anunciou cortes de 1.800 milhões de euros até 2020 nas rendas excessivas pagas às produtoras de electricidade, sentenciou, ao jeito de Manuel Pinho, que "o apagão durou décadas. Agora é que se fez luz".

O dossiê das rendas excessivas era (e é) explosivo, por razões políticas e económicas. É bom recordar que a primeira baixa no Governo de Pedro Passos Coelho foi precisamente por causa dos apoios e subsídios diversos de que beneficiam as eléctricas, e não só a EDP, como nos quis fazer crer Henrique Gomes. Paradoxalmente, a sua demissão contribuiu mais para a mediatização do tema do que a sua acção política, dominada por um objectivo (leia-se talvez obsessão), a de pôr António Mexia na ordem, o que quer que isto signifique. Não o conseguiu, mas deixou um legado ao Governo, e ao seu sucessor, Artur Trindade. E, implicitamente, duas perguntas, que são uma espécie de exame ao acordo ontem relevado.

A factura de electricidade vai baixar a partir de 2013? O ministro dá uma meia-resposta, a que pode tendo em conta a informação que tem à data de hoje. O aumento das tarifas seria exponencial se nada fosse feito, 5% ao ano até 2020, e o défice tarifário que é hoje de três mil milhões de euros, atingiria os cinco mil milhões.

No entanto, Álvaro Santos Pereira omite uma informação relevante para analisar o pacote de medidas ontem anunciadas, suspeito porque fazia parte da narrativa do Governo, incluindo do próprio primeiro-ministro. A partir de 2013, quem ditará a evolução das tarifas será o mercado, isto é, desde logo a evolução dos preços do petróleo, como sucede hoje na factura que pagamos de gasolina. A que se somarão os sobrecustos das chamadas rendas excessivas.

Segundo Passos Coelho, os aumentos das tarifas por causa das rendas excessivas estariam limitados a 2% ao ano e o défice tarifário ficaria a zeros em 2020. A nenhuma o ministro respondeu.

O Governo conseguiu 'dobrar' a EDP, António Mexia e os novos accionistas chineses? A companhia foi obrigada a comunicar ao mercado e aos seus accionistas os efeitos deste plano nas suas contas. E, do que foi anunciado, as medidas com impacto no balanço da EDP limitam-se a 1% do EBITDA e a 2,5% dos lucros por acção por ano. Sabe a pouco. Talvez por isso mesmo, a China Three Gorges, que já tinha prometido esperar pelo pacote energético antes de pagar a totalidade dos 21,35% do capital da EDP, assinou o cheque na passada sexta-feira.

Ainda assim, os valores revelados pela própria EDP ao mercado revelam que Álvaro Santos Pereira conseguiu o equilíbrio possível, tendo em conta que no caso dos CMEC, que regulam o acordo com a empresa de Mexia, existe um contrato que teria necessariamente de ser negociado. E foi, à meia-luz.

Tudo somado, o Governo fez o que nenhum outro tinha feito. Cortar 1.800 milhões de euros de apoios às produtoras eléctricas até 2020 corresponde a poupar às famílias e às empresas o pagamento de 1.800 milhões de euros na factura de electricidade. Revela a participação das empresas neste esforço. E tem também a virtude de tornar previsível, para os consumidores e para as empresas, o quadro regulatório e tarifário nos próximos oito anos. Todos ganhamos.

publicado por concorrenciaperfeita às 21:18
link do post | comentar | favorito
Sexta-feira, 18 de Maio de 2012

Portugal, o desemprego e o futuro

 Só os mais distraídos, e o ministro das Finanças Vítor Gaspar, podem estar surpreendidos com a evolução do desemprego em Portugal, que no primeiro trimestre quase tocou os 15%, o que, na verdade, revela uma taxa 'real' de quase 20%, mais de um milhão de desempregados. A Oposição responsabiliza o Governo pela evolução descontrolada do desemprego, e tem razão: em algum momento, algum Governo, alguma 'troika', tinham de pôr fim a um modelo económico que nos trouxe até aqui. Mas esta é apenas uma parte da 'verdade'.

É óbvio que o plano de austeridade e as medidas brutais de aumento de impostos e corte na despesa têm efeitos muito negativos no andamento da economia e, logo, no emprego. A estrutura económica construída ao longo de três décadas assentou em negócios, empresas e sectores suportados artificialmente por um consumo interno apoiado no endividamento. E quando o Governo e a Oposição afirmam que a economia portuguesa tem de mudar de vida, tem de mudar os incentivos, e destiná-los aos sectores virtuosos da economia, está também a dizer que uma parte significativa do mercado de trabalho vai ser destruída, e não vai regressar.

O segredo - a resposta de um milhão de euros - é descobrir como é que as empresas - e não o Estado ou o Governo, porque esses não criam empregos - vão absorver uma mão-de-obra sem as qualificações necessárias, mesmo num momento de crescimento económico. Dito de outra forma, como é que cair no desemprego pode ser uma oportunidade, a que todos gostaríamos, e não a que existe, que é quase nula. Há uma alternativa, ou oportunidade como gosta de dizer Pedro Passos Coelho: emigrar, já. Mas os outros, os que não têm sequer esta solução, o que fazem?

A análise é, por isso, substancialmente mais complexa do que parece, como, aliás, deixa perceber uma análise fina do Banco de Portugal, publicada no último boletim anual de 2011 (ler caixa 4.1: Os fluxos de emprego e de trabalhadores no mercado de trabalho em Portugal). O mercado de trabalho em Portugal é dinâmico, mais dinâmico do que se poderia supor até há pouco tempo com as metodologias que eram usadas, mas é como o regime chinês: um País, dois sistemas, o sistema dos contratos a termo revela dinamismo e uma correlação directa com a actividade económica, seja a criar, seja a destruir empregos; e o sistema dos contratos sem termo, rígido e resistente às alterações de mercado. Nesta análise, aliás, chega-se à conclusão de que temos um mercado de trabalho - de contratados a termo, um quinto de todos os contratos por conta de outrem, mais dinâmico do que o de muitos países do euro e, em simultâneo, sabemos também que a legislação laboral é suficientemente flexível quando se trata de processos de despedimento colectivo e rígida quando o que está em causa são os despedimentos individuais.

É neste quadro, nesta matriz de elevada incerteza, que a avaliação de um ajustamento tão rápido do mercado de trabalho é tão difícil. E nas respostas que são necessárias. Porque se é verdade que a economia privada está a ajustar, com desemprego, não é claro se este ajustamento está a ser feito apenas do lado certo da equação, isto é, nos sectores que terão de desaparecer e ser substituídos por outros.

Há, no entanto, um dado menos incerto: o aumento do desemprego, que deverá manter-se nos próximos doze meses - até porque estes dados do primeiro trimestre são o espelho do que aconteceu meses antes - é consistente com o plano de ajustamento que está a ser seguido, e que, mesmo com nuances, vai ter de continuar a sê-lo, sob pena de mudarmos tudo, para tudo continuar na mesma.

 

publicado por concorrenciaperfeita às 16:17
link do post | comentar | favorito
Quarta-feira, 16 de Maio de 2012

Um manual da crise portuguesa...

Miguel Cadilhe foi ontem à Comissão de Inquérito ao BPN e brindou-nos com uma lição sobre o estado a que chegámos, um verdadeiro manual da crise portuguesa. O ex-ministro das Finanças, reconhecidamente competente e seguramente um dos melhores que passou pela Praça do Comércio, ainda não digeriu a nacionalização do BPN, de que era presidente. Cadilhe tinha um projecto alternativo à nacionalização do banco de Oliveira e Costa. É legítimo, como foi legítima - e adequada perante a informação existente à data - a decisão de nacionalizar um banco que, como se sabe hoje, era um buraco (quase) sem fundo e que vamos todos pagar, com mais impostos. O antigo presidente do BPN tem razão num ponto: a reprivatização foi feita tarde e a más horas, com as consequências que se sabe, e por responsabilidade directa de Teixeira dos Santos e Carlos Costa Pina. A secretária de Estado Maria Luís Albuquerque, aliás, disse-o de forma singela. Não apareceu ninguém a oferecer mais do que 40 milhões de euros e a liquidação custaria ainda mais aos contribuintes. No entanto, Cadilhe propõe a pior das soluções, a menos transparente e que não pouparia um euro ao erário público. A integração do BPN na CGD seria acrescentar um problema ao problema que é hoje a Caixa, pior, seria esconder um problema debaixo do tapete, o que nos habituamos a fazer desde que somos uma Democracia. No Estado, nas empresas públicas, nas autarquias, nos bancos, enfim, no País. E que nos conduziu a três intervenções externas,a última das quais a mais brutal e mais difícil de suportar. …e um novo modelo económico A economia portuguesa revelou uma resiliência inesperada no primeiro trimestre do ano. Em plena execução do plano de ajustamento, um eufemismo para o empobrecimento, primeiro, e a mudança da estrutura económica do País, depois, os dados do INE são animadores. A economia nacional caiu 0,1% no primeiro trimestre em relação aos últimos três meses do ano e 2,2% face ao período homólogo do ano passado. É uma recessão, que vai prolongar-se ao longo deste ano, mas que evidencia duas realidades: as empresas portuguesas continuam a revelar capacidade para exportar e o consumo das famílias terá sido menos negativo do que o antecipado. Dito isto, o desemprego vai continuar a aumentar. E, provavelmente, já hoje, com os dados do Eurostat. Contraditório? Nem por isso. Ao contrário do que sucedeu nas duas intervenções do FMI, nas décadas de 70 e 80, o programa de ajustamento vai responder ao que todos, incluindo o PS, defendem. É necessário apostar nos sectores transaccionáveis e pôr um fim aos apoios e incentivos aos sectores protegidos. Mas esta estratégia só pode ter uma consequência no curto prazo: o desemprego. Porque muitos dos sectores e das empresas que foram sustentadas artificialmente não regressarão, pelo menos com o mesmo nível de emprego. Mesmo que a economia cresça. Claro, a tempestade internacional - que se arrisca a ser 'perfeita' com as novas eleições na Grécia e o caos em Espanha - poderá encarregar-se de tornar a austeridade ainda mais difícil. Porque nem mesmo a senhora Merkel e a economia alemã serão suficientes para mudar e segurar uma economia periférica que está a fazer o que tem de fazer.

publicado por concorrenciaperfeita às 23:16
link do post | comentar | favorito
Domingo, 13 de Maio de 2012

De 'filha do presidente' a 'empresária angolana'

 Isabel dos Santos tornou-se, definitivamente, o rosto do investimento angolano em Portugal, depois de ter investido, em apenas duas semanas, cerca de 90 milhões de euros no reforço da sua posição accionista em duas empresas, o BPI e a Zon, curiosamente através de negócios com espanhóis. Na mesma semana em que o Governo angolano anuncia que Portugal deixou de ser uma prioridade. Coincidência? Nem tanto.

O caminho de Isabel dos Santos nos negócios em Portugal tem sido construído passo a passo, sem pressas ou precipitações, com tanto cuidado na forma como na substância, isto é, tanto na gestão de comunicação e na gestão política como nos negócios propriamente ditos. A primeira incursão, que se saiba, foi logo num peso-pesado, a Galp, companhia de que é accionista de referência desde há anos, através de uma sociedade em que também participa a Sonangol, claro, e Américo Amorim.

Isabel dos Santos beneficia, politicamente, de uma vantagem relativamente a outros investidores angolanos, excepção feita à Sonangol, que tem funcionado de alguma maneira como o fundo soberano de Angola em Portugal. Sabe-se quem é, não se escondeu por detrás de sociedades off-shore sem dono identificado. Além do próprio perfil de investimento, tem também sido este um dos motivos para a sua credibilização crescente em Portugal. À velocidade do investimento que já fez em Portugal ao longo dos últimos anos, passou de 'a filha do presidente Eduardo dos Santos' para 'a empresária angolana'. Já vale por si.

Isabel dos Santos ainda não concedeu uma entrevista em Portugal, apesar do peso que já tem em três companhias de referência. Sabe-se pouco do que pensa. Mas, apesar de tudo, tendo em conta a perfil do investimento que já realizou, particularmente no BPI e na Zon, é possível vislumbrar a estratégia definida há anos, o que a move. Isabel dos Santos esperou, pacientemente, pela melhor oportunidade, e melhor preço, para se tornar accionista de referência em empresas que, em Portugal, não têm por onde crescer. Mais ainda agora. E que dependem, e muito, de uma internacionalização que começou no país que conhece bem. Isabel dos Santos tem o controlo das operações, quer do BPI, quer da Zon, em Angola.

Em simultâneo, o anúncio do ministro de Estado, Manuel Vicente, de que Portugal deixou de ser uma prioridade, é sobretudo táctico, para diminuir a pressão mediática que se sente desde há meses em relação ao investimento angolano. E ainda bem, porque Portugal não deve ter preconceitos, ou desconfianças, relativamente ao investimento estrangeiro, desde que cumpra regras, desde logo de transparência. Seja na banca, no turismo ou até na comunicação social.

 

publicado por concorrenciaperfeita às 22:12
link do post | comentar | favorito
Segunda-feira, 7 de Maio de 2012

Venha cá!

Alexandre Soares dos Santos e a Jerónimo Martins puseram o País a discutir uma acção de marketing, tão genial como arriscada, o desconto de 50% sobre compras superiores a 100 euros nas lojas do Pingo Doce, pasme-se, no dia 1 de Maio, dia do Trabalhador. As críticas assumiram proporções tão populistas como contraditórias, e o Governo, sob pressão, não resistiu a apanhar a boleia da demagogia.

A decisão da Jerónimo Martins tem várias dimensões de análise possível, a primeira das quais política.

Uma iniciativa tão agressiva como a que foi realizada num feriado 'do trabalhador', no contexto económico e social em que o País vive, num clima de tensão e conflitualidade social latentes, dificilmente poderia ter tido outra resposta da esquerda mais radical e dos sindicatos, que encontraram um bode expiatório perfeito para as dificuldades evidentes em captar 'clientes' para as manifestações. Sem descontos. Às vezes, as explicações mais simples são as verdadeiras. Uma acção destas num feriado - fosse ele qual fosse - no início do mês tem um potencial de sucesso óbvio, ainda mais tendo em conta a crise e o desemprego a que chegámos.

E é aqui que a Esquerda entra em contradição, porque critica uma acção que, objectivamente, beneficia os consumidores. Entre as críticas a um grupo económico - e ao grande capital - e as decisões dos consumidores que, neste quadro económico, não quiseram perder uma oportunidade de poupar, a Esquerda radical revela estar mais preocupada com a política e menos com as pessoas.

A acção da Jerónimo Martins foi, por isso, arriscada e creio que, até, subavaliadas as consequências de imagem, depois do episódio da transferência da sede da holding do grupo para a Holanda. A Jerónimo Martins é um alvo fácil das críticas, desde logo porque Alexandre Soares dos Santos não se cansa de dar lições, algumas de moral, sobre o comportamento dos portugueses em geral, dos empresários, das elites, dos governos e, claro, dos sindicatos, em particular.

Do ponto de vista económico, haverá ainda muito a dizer, e se a ASAE e a Autoridade da Concorrência têm dúvidas, que investiguem. Mas o principal problema não é sequer a alegada concorrência desleal - ou a venda com prejuízo - porque, à luz da lei, dificilmente uma acção 'one-shot' pode ser considerada uma violação à lei. Desde logo porque há concorrência forte no sector. Aliás, a guerra de preços entre os dois principais grupos de distribuição - o Continente e a Jerónimo Martins - é óbvia e evidente e isso é que é a concorrência, que, em última análise, beneficia o consumidor.

Problemático, e que justifica uma análise cuidada, é a consequência desta acção, e de outras, já anunciadas, na relação com os produtores e fornecedores. Sabe-se, há um desequilíbrio de forças entre a produção e a distribuição e é necessário garantir, por via da fiscalização, que esta guerra de preços não mata a produção e, em última análise, prejudica os consumidores no médio e longo prazo.

A resposta do Governo, essa, foi a pior. Acossado por uma crise económica e por um desemprego galopante, decidiu pôr em acção um secretário de Estado para defender os consumidores e uma ministra para defender os produtores. Como? Com mais legislação, é claro. Para deixar o mercado funcionar? Não. Para impedir as promoções inesperadas.

 

publicado por concorrenciaperfeita às 10:16
link do post | comentar | favorito

mais sobre mim

pesquisar

 

Março 2014

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
15

16

24
25
27
28
29

30
31


posts recentes

Salgado recupera a espera...

A política destrói valor

Porque é que Cravinho ass...

Em inglês não soa melhor

A palavra de Cavaco

Uma mão cheia de nada

Acordo para uma saída cre...

Carta aberta ao 71º subsc...

O plano P, de Parlamento

Um acto falhado

arquivos

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

blogs SAPO

subscrever feeds