Sexta-feira, 28 de Junho de 2013

Podem marcar as greves que quiserem

O país regressa hoje à normalidade, a possível, depois de um dia de greve geral que, como se esperava, parou sectores do Estado e os transportes, os mais mediáticos, e afectou o sector privado. Os problemas, esses, continuam e, para quem aderiu à greve de ontem, tenho uma notícia em primeira mão: o que aí vem é mais exigente, com este Governo do PSD/CDS ou com o PS.

Esta greve realizou-se, por coincidência, a um ano do fim do acordo de ajustamento assinado com a ‘troika', o programa que, hoje, ninguém quer e, mais ainda, ninguém perfilha. E, por isso, vale a pena olhar para esta greve, esta iniciativa sindical que, como confessava Arménio Carlos, visou fragilizar o Governo, à luz do que nos espera. O objectivo das centrais sindicais pode até parecer bondoso, tendo em conta os erros de Passos Coelho e de Vítor Gaspar, o maior dos quais ter deixado para o fim a reforma do Estado, e a surdez da própria ‘troika'. Além da fadiga da austeridade, que já ninguém suporta.

É claro que o plano de ajustamento foi levado longe de mais, sobretudo porque assentou no brutal aumento de impostos com as consequências que se conhecem, e sofrem. Percebe-se, por isso, a indignação dos portugueses, dos que aderiram à greve, e dos outros, os que, mesmo trabalhando, têm óbvias razões de queixa da forma como o Governo conduziu, nestes dois anos, um necessário processo de ajustamento.

A greve serviu para alguma coisa? Serve sempre, nem que seja para demonstrar esse descontentamento. Mas valeria a pena, verdadeiramente, se pudesse produzir efeitos. E não pode. Pior, o que aí vem, depois de Junho de 2014, se lá chegarmos inteiros, vai ser mais exigente. Fica uma imagem, de Vítor Bento, suficientemente clara: Portugal está a andar de bicicleta com a ajuda de três rodinhas e, quando a ‘troika' for embora, teremos de andar apenas com uma rodinha. Alguém acha que vai ser mais fácil?

Portugal, leia-se os partidos do Governo e o PS, subscreveu o tratado orçamental, está comprometido com objectivos que só podem ser cumpridos com cortes de despesa, portanto, a discussão sobre a austeridade e o crescimento é tudo menos útil. Serve para unir os portugueses contra uma política, mas unir os portugueses a favor de um caminho é outra coisa, bem diferente.

Quando sair a ‘troika', fica a Comissão Europeia. E só o cumprimento de um novo acordo - conhecido como programa cautelar - garantirá uma rede de segurança do BCE. E a ideia de que as eleições alemãs tudo resolverá ou, melhor, tudo facilitará, é, no mínimo, ingénua.

As necessidades de financiamento do Estado vão continuar e só poderão diminuir se o Governo, este ou outro, fizer as reformas, não só a do Estado, mas as outras, as que ainda não foram levadas até ao fim, mas que já provocaram quatro greves gerais. Para tornar o Estado sustentável do ponto de vista financeiro e a economia competitiva. Com mais diálogo, com mais concertação, com mais comunicação, seguramente. Mas, sem essas reformas, os credores não se comoverão. Podem marcar as greves que quiserem

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Quarta-feira, 26 de Junho de 2013

Credores não querem saber das greves

 

Os portugueses estão mergulhados nas discussões das greves, são as dos professores em dia de exames, é a da Função Pública, sem direito a serviços mínimos nos transportes. Como se estivéssemos muito bem, com se o acesso a financiamento fosse garantido e já tivéssemos até concluído o programa de ajustamento. O problema é que os credores, os outros, não a 'troika', não parecem muito preocupados com as nossas greves.

Há, por aí, realidades paralelas, que não se tocam. O mundo, os mercados, os investidores que financiam os países, vivem um ambiente de tensão desde que o presidente da Fed, Ben Bernanke, revelou uma profissão de fé na recuperação da economia norte-americana e anunciou que, em breve, vão acabar-se os estímulos monetários. Quem está a pagar? A bolsa e a dívida pública nacional, pois claro, o regresso assegurado aos mercados que, afinal, não está assim tão seguro, nem para Portugal, nem para outros países do euro, não só para os periféricos. Mas, claro, para a realidade interna, a outra, nada disso interessa, o que interessa são as greves, as discussões sobre o fim da austeridade 'versus' o crescimento económico.

O problema, claro, é que os credores não se impressionam com os professores e com os funcionários públicos. Os juros da dívida pública nacional estão de regresso às subidas, logo, poderemos esperar novos efeitos negativos nos resultados dos bancos, que nos últimos trimestres beneficiaram de resultados financeiros... com a dívida pública. Quando todos querem mais financiamento e mais capitalização das empresas, estes últimos dias deveriam ser, no mínimo, um aviso laranja. Pelos vistos não é, é preferível que tudo continue na mesma, que o Estado se mantenha como está, não se sabendo como o vamos financiar. Nada disso importa.

Isto, ou seja, a crise financeira que se não estabilizar, não poderá dar lugar a uma recuperação da economia, não é um problema de partidos, já não é sequer um problema de governos. É, mesmo do mundo, como se percebe das consequências do discurso do presidente da autoridade monetária dos EUA. Nem a promessa de Mario Draghi - de que faria o que fosse necessário para segurar o euro - está a ser suficiente. Em três dias, a bolsa portuguesa perdeu quase 10%, uma fortuna destruída.

O Governo não ajuda, os casos multiplicam-se e a ideia de reuniões diárias entre Poiares Maduro e os jornalistas tem tudo para dar errado, mas convenhamos que é difícil governar neste quadro, como se Portugal fosse um país de fronteiras fechadas, imperturbável perante as decisões dos investidores e credores que, bem ou mal, são quem dita as regras. Porquê? Porque quisemos, todos, viver à custa do crédito, não só em Portugal

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Segunda-feira, 24 de Junho de 2013

O Inverno brasileiro

 

A Primavera árabe chegou tarde ao Brasil, e por outros motivos, mas chegou, e o Inverno brasileiro é não só uma resposta às expectativas criadas na última década, e que estão por cumprir, é também um barómetro que deve servir para os empresários e gestores portugueses que, talvez ingenuamente, acreditam que a (re)descoberta do Brasil seria a resposta para todos os problemas.

As manifestações no Brasil eclodiram por causa de um aumento de 20 centavos no bilhete de autocarro, mas só aparentemente. Foi um pretexto para protestar, para protestar contra tudo, sobretudo contra expectativas frustradas de uma geração que não se contenta com uma casa ou com móveis para a equipar, que tem uma consciência política, e quer participar. Contra a corrupção, contra os investimentos públicos desnecessários, ironicamente, contra a construção de estádios de futebol no país do futebol. Neste caso, com um sentido bem mais apurado do que os portugueses, que protestaram contra os estádios só depois do evento que os justificou, o euro2004, e quando tantos estão sem utilização possível e a postos para serem destruídos.

O Brasil, visto de Lisboa, é o país desenvolvido, de todas as oportunidades, com crescimento económico, com uma população que sobe na escada social e uma diminuição das assimetrias económicas e sociais. É uma parte, muito relevante, da verdade, mas não é a única, como seria de esperar num país de 200 milhões de habitantes e que parte de uma base muito baixa. Só isso, e a ignorância em Portugal da realidade do Brasil, pode explicar as comparações entre os dois países, as manifestações de indignação do lado de lá do Atlântico e a surpresa por não se multiplicarem também deste lado, mesmo com esta recessão e esta crise.

O Brasil, visto de São Paulo ou do Rio de Janeiro, é um país emergente, está a fazer um caminho para integrar o clube dos mais ricos e desenvolvidos, tem petróleo, e outros recursos naturais, e tem população, muita. É por isso mesmo que justifica tanta atenção de investidores de todo o mundo. Também dos portugueses. A língua comum é uma vantagem competitiva, mas apenas e se fizermos o trabalho de casa, falar português não chega, como perceberam, por exemplo, empresários como Belmiro de Azevedo e Soares dos Santos, que falharam no Brasil. E os protestos das últimas semanas revelam que as exigências, relativamente ao investimento estrangeiro, como é o português, vão aumentar. E bem. Só temos a ganhar.

 

 PS: Aí está uma notícia surpreendente, o homem que morde o cão. A 'troika' dá sinais de fadiga de austeridade, as acusações mútuas do Fundo Monetário Internacional (FMI) e da Comissão Europeia fazem temer pela estabilidade dos programas de ajustamento - e do financiamento - dos países intervencionados. Quando se suspeitava que os governos não teriam força para levar estes memorandos até ao fim, nem com sucessivas renegociações de metas de défice, e nem é preciso citar o caso português como exemplo, a 'troika' desfaz-se e poderá até sucumbir à austeridade antes dos governos dos respectivos países. Agora, é preciso ajudar a 'troika' a acabar este trabalho com dignidade. Aí está uma oportunidade, única, para Pedro Passos Coelho e Vítor Gaspar.

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Sexta-feira, 14 de Junho de 2013

As linhas e as entrelinhas do relatório do FMI

 

Cavaco Silva afirmou que o Fundo Monetário Internacional (FMI) deveria ser substituído na 'troika' por um fundo monetário europeu, coisa, aliás, que o próprio FMI quer desesperadamente. E, à medida que esse dia se aproxima, os relatórios de Washington devem ser lidos com toda a atenção, nas linhas, mas sobretudo nas entrelinhas.

Em primeiro lugar, é preciso esclarecer, para a história, que o FMI é no nosso melhor amigo na 'troika'. As informações e relatórios públicos, e as reuniões privadas dos últimos dois anos, mostram que o fundo foi, crescentemente, sensível à dimensão económica do ajustamento financeiro, coisa que só se vê agora da Comissão Europeia. Sobretudo por conveniência, até para consumo político interno, e não por convicção.

Em segundo lugar, o FMI só foi chamado a esta história das crises soberanas porque a Europa não estava preparada para resolvê-las, nem do ponto de vista institucional, nem financeiro. Hoje, já tem o Mecanismo de Estabilidade Europeu - o que será o novo Fundo Monetário Europeu - e dotação financeira. Mas, há quatro anos não tinha, e foi preciso chamar o FMI.

O relatório do FMI sobre Portugal não surpreende nos números. Tem esta coisa, desagradável, de dar informação aos portugueses que deveria ter sido prestada pelo Governo, como a data de 15 de Julho para serem conhecidas com detalhe as medidas de reforma do Estado. Dito isto, não é o mais relevante do relatório sobre a sétima avaliação da 'troika'.

O que fica, e que será discutido até à exaustão, e que no fundo tem implícita a necessidade de um novo ciclo político - não necessariamente com eleições antecipadas - é que o ímpeto reformista está a abrandar. O FMI ainda não foi embora, ainda tem dinheiro a receber, percebe-se por isso o eufemismo. O ímpeto reformista acabou. A partir de agora, o Governo tem de conseguir os melhores resultados possíveis com o que fez e com o que não fez. Vítor Gaspar já assumiu que deveria ter começado a legislatura com a reforma do Estado. Pois deveria e, agora, estaria a beneficiar desses resultados, e não teria asfixiado a economia. Poupou-se a trabalhos no início do Governo para arranjar dois grandes problemas a meio do caminho.

O FMI tem elogios, mas tem, sobretudo, dúvidas. Sobre a consistência do ajustamento, sobre a fiabilidade do ajustamento, sobre a perenidade do ajustamento. O FMI tem as dúvidas que os portugueses têm.

 

PS: Pedro Reis, afinal, não vai para a administração da CGD, porque, aparentemente, os outros banqueiros mostraram-se incomodados com a nomeação do presidente da AICEP para não-executivo do banco público. Coisa que se soube já depois da indigitação de Pedro Reis e a aprovação do seu nome na comissão que avalia os candidatos a cargos públicos. Além da digna decisão de Pedro Reis, se isto não fosse trágico, seria cómico. Escrevi, neste espaço, no dia 3 de Junho, que alguém deveria assumir responsabilidades pela degradação da imagem da Caixa neste processo. "Deviam ter vergonha". Só não desconfiava que estava a pecar por defeito.

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Quarta-feira, 12 de Junho de 2013

O BCE é o melhor que nos pode suceder

Vítor Gaspar apresentou um Orçamento Rectificativo que tem apenas um objectivo, o de ganhar tempo, o necessário, para levar Portugal ao programa cautelar, uma espécie de novo memorando de entendimento, desta vez apenas com o BCE. É o melhor que nos pode suceder, agora, e no orçamento de 2014.

O Governo, é justo reconhecê-lo, entrou em funções num contexto absolutamente crítico e ganhou, nos primeiros dois anos, a credibilidade internacional que nos permite ‘sonhar' com o fim do programa de ajustamento assinado, sob pressão, com a ‘troika'. E muito foi feito, mas com as prioridades erradas, como hoje reconhece o ministro das Finanças. A consolidação orçamental - leia-se o aumento de impostos - foi o mais importante instrumento de redução do défice público, mas isso esmagou a economia e, agora, a reforma do Estado é muito mais difícil. Sejamos sinceros, é mesmo impossível neste quadro político.

O Governo bateu numa parede, pelo menos neste ciclo político. E já não conseguirá fazer muito mais. O orçamento rectificativo - ‘apenas' o primeiro do ano de 2013 - e o que nos reserva o orçamento de 2014 serão pouco mais do que fórmulas para nos levarem a resistir, a sobreviver, até Junho de 2014, até à entrada em funcionamento do chamado OMT, o programa conduzido pelo BCE para financiar Estados em dificuldades.

Como disse, e bem, Cavaco Silva na entrevista à RTP, um segundo resgate será, simplesmente, o falhanço total do programa de ajustamento. Seria penoso. Para os portugueses, porque o que se seguiria seria muito pior, para Pedro Passos Coelho, que disse um dia que estava a lixar-se para as eleições, mas fez, inusitadamente, uma declaração a mostrar a sua disponibilidade para um segundo mandato. Se houver um segundo resgate, Passos Coelho sabe-o, conseguirá sair pior do que José Sócrates. Seria uma ironia cruel, mas ninguém disse que a vida é justa.

Claro, está tudo dependente da Alemanha ou, na lógica de Mira Amaral, seja o que a senhora Merkel quiser. O Tribunal Constitucional alemão decide hoje se a Alemanha pode aprovar o programa cautelar do BCE, e em que condições, uma intervenção judicial na independência da autoridade monetária europeia que tem graça por surgir do país que mais defende a independência do banco central hoje liderado pelo italiano Mario Draghi.

É só mais uma evidência que o Governo, agora, tem sobretudo de não fazer disparates, porque ninguém quer um segundo resgate, aliás, como ficou claro da vontade do FMI de deixar a Europa entregue a si própria e à Comissão Europeia. Cavaco Silva já disse ao que vai, portanto, a capacidade de Portugal chegar ao programa do BCE - se a Alemanha deixar - depende mais do que nunca de Passos Coelho e Paulo Portas

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Terça-feira, 11 de Junho de 2013

A fronteira de Cavaco

 

O Presidente da República decidiu 'acabar' com as comemorações do 10 de Junho e fez, por isso, tudo o que pôde para esvaziar o sentido político de um discurso que esteve completamente fora das preocupações dos portugueses. Preferiu a auto-justificação, não só da sua magistratura em Belém como da sua actuação como primeiro-ministro. Sobraram os avisos, a 'fronteira', para o ministro da Defesa.

Para quem esperava uma intervenção do 10 de Junho na linha da intervenção do 25 de Abril - bem ou mal, assumiu uma oposição clara, e apontou caminhos - Cavaco Silva desiludiu. O Presidente da República fez um discurso sectorial no dia de Camões e das Comunidades. Estranho? Nem por isso, se se tiver em conta que Cavaco está acantonado. Aproveitou para diminuir as tensões políticas em torno da sua acção, não aumentou as crispações dos partidos da Oposição, mas isso correspondeu, na prática, a tornar este dia irrelevante para a história política. Ou quase.

O Presidente preocupou-se, primeiro, em justificar as negociações que conduziu, durante anos, com a Comissão Europeia em torno da agricultura. E disse meias-verdades, sublinhou o que está a suceder na transformação de um sector, muito recente, diga-se de passagem, relevou estatísticas de produtividade, as que melhor compõem o quadro, mas esqueceu-se de fazer as contas às centenas de milhões que foram investidos no sector, à eficiência destes investimentos. Cavaco preocupou-se, depois, em justificar a sua acção política, e recusou ser um actor, que já é, mesmo que não o pretenda, entre o Governo e a Oposição. Mas, também aqui, esqueceu-se de acrescentar que nem sempre foi assim, que às vezes entendeu ser um actor, e participar. Como na queda do Governo de Sócrates. E é isto.

A única referência que fica deste 10 de Junho de 2013 - curiosamente um dia que mereceu a visita da Presidente brasileira, Dilma Rousseff - foi no discurso da manhã, sobre as Forças Armadas. Poderá não ter passado de um alerta, mas a verdade é que, à semelhança de Paulo Portas, que traçou uma fronteira na taxa social única dos pensionistas, Cavaco traçou outra fronteira: não deixará que o Governo toque nas Forças Armadas. Quando não se sabe o que aí vem na reforma do Estado neste sector, o Presidente, e comandante supremo das Forças Armadas, traçou uma fronteira, mais uma que Pedro Passos Coelho terá de ter em conta.

 

PS: Dilma Rousseff deu o sinal político público que ainda não tinha dado, visitou Portugal depois do trabalho de casa do ministro Paulo Portas, particularmente por causa do apoio à eleição de um brasileiro para director-geral da OMC. Mas a agenda verdadeira, a que não constou de nenhuma declaração oficial nem de nenhum documento, ganha peso, ironicamente, no Dia de Portugal. Dilma vai agora esperar pela disponibilidade do Governo português para vender alguma das empresas que vão ser privatizadas a grupos brasileiros. É o caso dos CTT ou da TAP, as empresas que se seguem. Seriam, em ambos os casos, boas soluções para dar dimensão e futuro, mas convém que as propostas que cheguem a Lisboa não se fundamentam, apenas, na ideia de nacionalidade. Ou, como dizia António José Seguro, que também se rendeu a Dilma, no princípio de que Portugal está disponível a vender empresas a um país "que não é bem estrangeiro".

 

 

 

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Quarta-feira, 5 de Junho de 2013

Oi!? Tou chegando

A PT e a Oi estão condenadas a entenderem-se sob pena de se tornarem domésticas e irrelevantes, por isso a transferência de Zeinal Bava para a presidência executiva da empresa brasileira é, além do reconhecimento da competência do gestor português, a confirmação de que o noivado estava muito longe de ser feliz. É um passo, que só peca por tardio, para forçar a construção de uma empresa luso-brasileira. Primeiro, pela operação, depois, pelos accionistas.

Quando os accionistas de referência da PT decidiram, e bem, vender a Vivo à Telefónica - um negócio astronómico e irreversível, só explicado porque do outro lado estava uma empresa espanhola, e isto não é um elogio - e entrar no capital da Oi, sendo a única alternativa possível, era também a mais difícil. Porquê? Porque o futuro da PT ficava dependente do sucesso e do insucesso da operadora brasileira. E, nestes últimos dois anos, foram sobretudo insucessos, apesar do envolvimento e do empenho da gestão da PT. É bom recordar que a Oi estava sem presidente executivo há meses.

Em primeiro lugar, uma nota sobre o método: o contrário do que o Governo e o ministro das Finanças seguiram na CGD. Sem fugas de informação, num conselho de administração, em horas, Zeinal Bava demite-se da PT, é nomeado CEO da Oi, Henrique Granadeiro acumula o cargo de chairman com a presidência executiva da PT e mantém a comissão executiva em funções. Tudo limpo, sem espinhas. Para aprenderem.

Portugal já era demasiado pequeno para as ambições e competências de Zeinal Bava, considerado por quatro vezes o melhor CEO da Europa de telecomunicações. A entrada da PT no capital da Oi criou as condições que o levam hoje a mudar-se para Rio de Janeiro, onde será testado ao limite, mas se esse negócio não tivesse existido, Bava já não seria presidente executivo da PT. Também por sua responsabilidade, porque não quis, ou não pôde, abrir novos mercados para a PT. Ficou Angola, que dá dinheiro, mas sem o mínimo de influência, e de onde acabará por sair a bem ou a mal, e o Brasil.

O mercado gostou das notícias, e percebe-se porquê. Pela qualidade de Zeinal, porque o novo líder da Oi será o responsável pelas sinergias entre as duas empresas, e a Oi tem muito a aprender com a PT, e porque este é o primeiro passo concreto da fusão. Finalmente, porque a Oi estava sem rumo, e não era de hoje, e sem líder.

A fusão accionista entre a PT e a Oi tem pelo menos um ano de atraso, os investidores já estavam também convencidos disso, os accionistas também, mas isso não foi suficiente para chegarem a um acordo. Pior, à medida que o tempo passava, as contas degradavam-se, os rácios também e a inevitabilidade de uma fusão era evidente, e que só divergências de números, o que conta no final do dia, entre quem manda no capital estão a atrasar.

Zeinal será decisivo, vai tornar evidente que os accionistas só podem mesmo entender-se. Vai casar a operação, antes de os accionistas se casarem. E Henrique Granadeiro, que vai voltar a um lugar onde já foi feliz - um risco - também. Granadeiro vai ter de fazer o resto, vai ter de trabalhar, como chairman e presidente executivo da PT, para a fusão, a saída que torna tudo isto lógico. Se os accionistas não o fizerem, vão acabar pior do que estão hoje.

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Terça-feira, 4 de Junho de 2013

O que não sabemos dos 'swap'

José Silva Rodrigues era presidente da Carris, foi promovido já por este Governo a presidente da nova empresa de transportes Metro/Carris, recebeu um louvor do accionista em Março de 2013 e, no espaço de meses, acaba despedido por falta de confiança da tutela. É um retrato, um exemplo apenas, do que ainda não sabemos sobre o caso dos 'swap'.

Em primeiro lugar, o Governo tem todo o direito e legitimidade de escolher os gestores que entende serem os mais adequados ao cumprimento dos objectivos definidos para cada empresa pública. Não é, portanto, isso que está em causa. O que se exige saber é como chegamos até aqui, até à decisão de demitir um gestor que tinha merecido a confiança da dupla tutela (leia-se Finanças e Transportes) e que acaba com o nome na lama, como outros, por causa de um processo sobre o qual nada ou quase nada ainda se sabe.

O caso dos 'swap' já era conhecido desde o primeiro dia em que o Governo tomou posse, desde que a 'troika' chegou a Portugal. Já se sabia o seu impacto nas contas. E ganhou peso político quase dois anos depois quando Pedro Passos Coelho demitiu dois secretários de Estado que, em tempo anterior, tinham assinado contratos considerados tóxicos na sociedade Metro do Porto.

Desde então, o Governo tem gerido a informação a conta-gotas, e ainda não foi revelado o relatório do IGCP, assessorado pela Storm Harbour, que sustentou a identificação dos 57 contratos de um total de quase duas centenas que ultrapassou os limites do razoável, isto é, a pura e simples cobertura de risco de variação de taxa de juro.

O Governo terá as suas razões, mas não as conhecemos. Nem sequer os acordos de resolução de alguns dos contratos tóxicos, nem os diferendos que separam o Governo do Banco Santander e do J.P. Morgan. E menos ainda os efeitos destes contratos - os ditos tóxicos e, já agora, os outros - nas contas públicas, isto é, nos impostos que temos de suportar, hoje e no futuro.

O que não sabemos faz toda a diferença, mas as decisões já estão tomadas e não esperaram por uma Comissão Parlamentar de Inquérito que, é certo, tem outro alcance, mas decidiu ouvir toda a gente, a melhor forma de não ouvir ninguém.

 

 

 

Miguel Poiares Maduro e Sérgio Monteiro enfrentaram, ontem, manifestações e protestos em conferências públicas que os limitaram ou impediram mesmo de tomar a palavra. Afinal, se o primeiro-ministro pensava que a demissão de Miguel Relvas seria suficiente para travar estas iniciativas - umas absolutamente pueris, outras simplesmente intoleráveis - enganou-se. O caminho que se está a percorrer é perigoso, e um dos principais responsáveis, ironicamente, é um dos pais da democracia, Mário Soares. O líder espiritual do PS - de quem, António José Seguro, inteligentemente, se afasta sempre que pode - resistiu e enfrentou o povo na Marinha Grande, mas incita, agora, à sublevação, e só falta mesmo aproximar-se de Otelo e pedir uma revolução, armada, claro. Assim, acaba-se de vez o problema da legitimidade política de um Governo que foi eleito nas urnas.

 

 

 

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Segunda-feira, 3 de Junho de 2013

Deviam ter vergonha

O ministro das Finanças diz-se um defensor das instituições, as políticas e as económicas, mas o que sucedeu na passada sexta-feira com a Caixa Geral de Depósitos (CGD) é absolutamente surreal e deveria deixá-lo coberto de vergonha. Era difícil imaginar um processo conduzido por Vítor Gaspar que pudesse contribuir mais para a descredibilização do banco público e que pusesse em causa o que as Finanças dizem defender, isto é, o papel central da Caixa na economia portuguesa.

Para quem não se apercebeu da gravidade extrema do que se passou até à assembleia geral da CGD, fica um resumo que só pecará por defeito: o Governo estava, há muito, descontente com a forma como a CGD estava a actuar, sucediam-se, pela boca de Pedro Passos Coelho e António Borges em particular, as críticas privadas e algumas públicas, à equipa de gestão e ao modelo de governação. Os casos serviam de exemplo, como o da recusa de um financiamento à Fundação Champalimaud - de que Borges é administrador, diga-se de passagem - e a pressão sobre Vítor Gaspar para mudar a administração, incluindo o presidente executivo, José de Matos, aumentava. Gaspar resiste, faz ouvidos moucos aos pedidos de Passos e segura um nome que foi uma escolha pessoal, directamente do Banco de Portugal. Mas acaba por ceder e abre a porta a mudanças, não todas, algumas. Promete uma solução e outra actuação do banco público. Assume responsabilidades e uma assembleia geral que estava marcada para 9 de Maio é adiada para 31 de Maio. Pelo meio, Álvaro Santos Pereira anuncia uma carta de missão da CGD e mais crédito às pequenas e médias empresas.

O que sucedeu, então? Na quarta-feira, Faria de Oliveira demite-se do cargo de 'chairman', depois de ser conhecida a demissão formal de Pedro Rebelo de Sousa, e é 'anunciado' um novo presidente, Álvaro de Nascimento. Rodolfo Lavrador e Norberto Rosa, executivos, são, literalmente, 'postos na rua' pelos jornais e são indicados mais dois nomes, Ana Cristina Leal e Maria João Carioca para a equipa executiva. O país assiste a uma mudança de administração na praça pública, sem uma palavra da tutela, durante uma semana. Mas, sexta-feira de manhã, dia da assembleia geral, Vítor Gaspar ainda faz contactos, para preencher a equipa. Decide, por fim, à última hora, adiar a mudança da administração. Pode ser pior? Pode, e foi. Na ausência de uma nova equipa, Gaspar decide divulgar uma carta de missão que não é só um conjunto de generalidades, é um arrevesado de banalidades que, escrito por um aluno de 1º ano do professor Gaspar teria nota negativa na certa. Uma pobreza de ideias, uns lugares comuns que não dizem nada, ou melhor, dizem tudo sobre o que se passou, sobre a forma como Vítor Gaspar tratou a CGD.

A Caixa continua a ser o 'playground' dos ministros das Finanças que gostam de brincar aos banqueiros, que sonham ser 'ricardos salgados', por um dia que seja. Mas já ninguém se espanta. É tudo normal, como é normal que Gaspar autorize que o Banco de Portugal lance uma espécie de oferta pública amigável sobre a CGD, o supervisor e o banco público já se confundem, mais valia aproveitar a reforma do Estado e fazer uma fusão, sempre se poupavam uns milhões.

A conivência de Pedro Passos Coelho - derrotado em toda a linha neste processo - torna-o também responsável por estes lamentáveis episódios que os trabalhadores da Caixa Geral de Depósitos não mereciam. O primeiro-ministro não tem legitimidade para exigir o que quer que seja da CGD, menos ainda que seja líder do que quer que seja, quando ele próprio permite que Vítor Gaspar paralise o banco público e o mantenha em 'stand by'.

Quem assume, agora, as responsabilidades pelo que sucedeu, senhor primeiro-ministro? Pela degradação da imagem e da actividade da CGD? Pela fragilização de uma administração que já teria, sem esta 'ajuda', um trabalho hercúleo? É mais fácil demitir gestores públicos de transporte, responsabilizá-los, mas isso não chega para apagar a irresponsabilidade política de quem conduziu a CGD a este estado comatoso. Deviam ter vergonha.

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