Sexta-feira, 28 de Fevereiro de 2014

A nova vida da Zon Optimus

 

A nova Zon Optimus apresenta hoje o que vai ser a sua nova vida, depois de quatro meses de um processo de reorganização interna decorrente da fusão de duas empresas com culturas empresariais diferentes, um eufemismo para a clarificação de poderes dentro da empresa que tornou claro o poder efectivo de Miguel Almeida, o homem que veio da Optimus, e para a definição do que vão ser as prioridades da empresa.

O mercado das telecomunicações continua a ser dos mais activos, dinâmicos e concorrências. E a nova Zon Optimus - a marca vai mudar nos próximos meses - apresenta-se como um concorrente efectivo de uma PT que está no meio de um complexo processo de fusão com a brasileira Oi. E esta é a primeira, e talvez mais importante, vantagem competitiva de Miguel Almeida, num negócio em que o tempo é dinheiro.

Quando a nova administração da Zon Optimus tomou posse, os accionistas Paulo Azevedo e Isabel dos Santos esforçaram-se por vender a ideia de que existiria um poder partilhado entre as duas correntes, entre os administradores Sonae e Zon. Não foi preciso esperar muito tempo para perceber quem, afinal, manda. A saída prematura de Luís Lopes (ex-Zon) da vice-presidência executiva foi a prova de que era necessária uma clarificação. Como em qualquer organização, é importante saber quem manda. O equilíbrio fino entre accionistas com personalidade forte vai continuar a ser protegido, mas o poder de gestão da Zon Optimus pende para a Sonae e é de Miguel Almeida.

A prioridade estratégica da empresa para os próximos cinco anos tem também a marca de água da Optimus. É verdade que na televisão por cabo a posição da companhia é mais defensiva, e vai ter sobretudo o objectivo de garantir a venda de serviços de convergência aos que já subscrevem a Zon. Já na área empresarial, a estratégia será claramente agressiva, porque é um mercado com potencial de crescimento, e também porque foi aí que Miguel Almeida mostrou as suas competências. Sobra a internacionalização, particularmente em África, e aí será a vez de Isabel dos Santos impor a sua força.

Uma coisa é certa, no meio desta guerra, que será também de preço, e na qual a PT/Oi e a Vodafone serão testadas, ganhará o consumidor.

 

PS: Mário Figueiredo é hoje um homem sitiado, tomou conta da Liga de Clubes como se fosse sua, não apresenta contas, recusa sair, mas acaba por ser uma triste imagem do que é hoje o futebol português. O País está a fazer um ajustamento, que continuará necessariamente no pós-'troika', a Liga já perdeu milhões em patrocínios, mas - com o apoio implícito do Benfica por razões puramente políticas - continua a apostar na ideia de que a centralização das transmissões televisivas e o jogo online serão a salvação dos clubes, melhor, da própria Liga. Já alguém fez contas ao número de espectadores por jogo entre o clube que tem mais espectadores e o que tem menos, em média durante esta época? O Benfica tem 33.502 espectadores, o Nacional tem, em média, 1.700 por jogo. E se excluirmos o Porto e o Sporting, todos os outros têm assistências abaixo dos dez mil espectadores por jogo. Se os adeptos não vão aos estádios, quem é que estará disposto a pagar para ver o jogo na televisão?

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Quinta-feira, 27 de Fevereiro de 2014

A verdade incómoda

 

Miguel Frasquilho juntou-se a António Pires de Lima e, cerca de três meses depois, confessou o que deveria ser claro para todos, isto é, o programa cautelar é a melhor das soluções para Portugal no pós-troika, isto se a Europa deixar e os interesses partidários internos não se sobrepuserem ao interesse do País.

A discussão sobre a forma como Portugal poderá sair do programa de ajustamento tornou-se um tema-tabu, e por razões desde logo externas: a Irlanda, sim, a Irlanda, queria um cautelar, mas a chanceler Angela Merkel esteve indisponível para levar para a discussão política interna da Alemanha mais uma ajuda, ainda por cima a um país que não está propriamente na cauda da Europa em termos de riqueza por habitante. O governo irlandês virou o 'bico ao prego' e anunciou uma saída limpa, tornando ainda mais difícil a vida de Portugal. A mistificação de António José Seguro - que agarrou a ideia de um novo programa como uma tábua de salvação política - fez o resto. E o resto será a história dos incentivos políticos que nos conduzirão a uma 'saída limpa', mas precária e arriscada, porque o mercado dos eleitores é mais forte do que o mercado dos investidores. Ainda e se não houver percalços. Depois não acusem os mercados por não emprestarem a Portugal.

Portugal já está pré-financiado para os próximos doze meses, é certo, mas tendo em conta o nível actual dos juros das obrigações a dez anos, qualquer risco, e eles estão aí, poderá pôr tudo a perder. Se não houver  programa cautelar.

A discussão política interna está cheia de contradições, mas as palavras do deputado social-democrata Miguel Frasquilho são de elementar bom senso, apesar de ter corrigido o tiro, horas depois, como aliás já tinha feito o ministro da Economia em Londres. Porque foi obrigado a isso, porque o Governo e o PSD não podem ter opinião. Se as condições, exigidas pelos credores, forem aceitáveis, o programa cautelar é a melhor solução. Mesmo tendo em conta a necessidade de um novo acordo, que exigirá mais cortes. Mas alguém considera que está tudo feito e que, se não houver um contrato com a Europa, poderemos voltar a gastar o que não temos? Haverá sempre cortes, porque continuamos a depender de terceiros para financiar o défice, porque não temos saldos primários positivos, porque o crescimento económico só permitirá esses saldos a partir de 2016, se tudo correr como o previsto. Porque temos de começar a reduzir a dívida pública.

É por causa disto, e de outras contradições, que o Governo deveria deixar de falar na possibilidade de corte de impostos em 2015, ano eleitoral, não é sério, nem razoável, mais ainda se, como o PS advoga, não se verificar um novo corte de despesa pública, de forma definitiva, e estrutural. Pedro Passos Coelho já percebeu que não pode deixar o partido e Paulo Portas à solta, menos ainda António José Seguro. E isso só será possível com um programa cautelar.

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Quarta-feira, 26 de Fevereiro de 2014

Correr atrás do prejuízo

 

 

A história económica e financeira do País resulta também de casos como o da nova lei do comércio que proíbe as vendas com prejuízo. A nova lei esteve em discussão ao longo de meses, entrou em vigor ontem e hoje já ninguém se entende sobre o seu alcance e efeitos e até os que seriam os primeiros beneficiados pedem a sua suspensão.

É evidente que o desenvolvimento da grande distribuição, mérito seu que também contribuiu para o desenvolvimento do País, levou a um desequilíbrio na relação de forças com os produtores e fornecedores. Os principias grupos de distribuição em Portugal, como a Jerónimo Martins ou a Sonae, cresceram porque tiveram gestão, ganharam escala e internacionalizaram-se. Ganharam peso, transformaram-se até numa nova espécie de bancos, tal é o volume de facturação. E arrastaram, felizmente, centenas de produtores que aproveitaram a onda, que foram capazes de profissionalizar a gestão. Sobraram os outros, a maior parte, que sobreviveu com dificuldade, e que ficou nas mãos da grande distribuição.

Em algum momento, seria necessária a intervenção do Estado para reequilibrar essas forças, e foi para isso que surgiu a Lei das Práticas Individuais Restritivas do Comércio, leia-se, a lei das vendas com prejuízo. O objectivo é bondoso, mas o Governo terá ido tão longe que, agora, até os produtores e fornecedores temem ter caído numa armadilha.

O nível de exigência que é colocado na relação de fornecedores e da grande distribuição está ao alcance de todos? As micro e pequenas empresas, não só do sector agro-alimentar, têm condições para cumprir a nova lei, que visa protege-los de força da Distribuição quando se decide por práticas de promoções agressivas? A lei já está em vigor, mas ninguém parece capaz de responder. E isto seria suficiente para avaliar as consequências de uma nova lei que parece ter sido desprezada até hoje.

 

 

PS: António José Seguro não quer fazer um acordo com o Governo em torno da reforma do Estado, e até se percebe tendo em conta a forma como foi tratado e as eleições europeias que estão à porta, mas dispensam-se os 'soundbytes' como forma de intervenção política, sobretudo num momento como este, a semanas de se saber qual será a saída de Portugal do programa de ajustamento. Seguro afirma não querer um Estado mínimo, mas deveria, dizer, antes, como é que financia um Estado viável, sobretudo depois de ter aprovado o Tratado Orçamental, que impõe o reequilíbrio das contas públicas, ainda longe de estar assegurado.

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Terça-feira, 25 de Fevereiro de 2014

Cautela nunca fez mal a ninguém

 

 

O congresso do PSD foi dominado pelo anúncio de Paulo Rangel como cabeça-de-lista da coligação PSD/CDS às europeias e pela descida de Jesus à terra, leia-se, o aparecimento de Marcelo Rebelo de Sousa, mas tinha um assunto-tabu que não saiu da sombra: Portugal vai sair de forma limpa do programa de ajustamento ou vai pedir o acesso a uma linha cautelar?

Pedro Passos Coelho não esclareceu o sentido da sua decisão, sublinhou apenas que Portugal já não corre o risco de cair no segundo resgate. Já não é pouco, ainda há meia dúzia de meses era um risco real, mas a escolha de um dos caminhos não é neutra. Vale a pena ler, nas linhas e nas entrelinhas, a entrevista exclusiva de Luís Reis Pires a Klaus Regling, o presidente do Mecanismo de Estabilidade Europeu (MEE), ou, por outras palavras, o anunciado fundo monetário europeu.

Já aqui o escrevi: Portugal deveria recorrer a uma linha cautelar, porque, como o nome indica, garantiria uma rede de segurança no processo de normalização do regresso do Estado aos mercados. Já foram dados passos importantes, mas ainda faltam testes relevantes, e não é só por causa da taxa de juro. Portugal tem ido a mercado com outra rede de segurança, a dos bancos que garantem a colocação das emissões. Portugal ainda não foi a mercado no regime de leilão, os sinais antecipam um resultado positivo, mas são ainda, e apenas, sinais.

O problema é que, internamente, também por causa da linguagem dos irlandeses, que queriam um cautelar mas não tiveram o apoio dos países europeus, decidiram passar a falar em 'saída limpa', por contraponto a uma saída suja, claro, o tema tornou-se um instrumento de combate político e partidário. A medida de sucesso da governação.

Klaus Regling é claro: "Os critérios são claros e se a escolha de Portugal for uma linha de crédito cautelar em vez de uma saída limpa, para já parece-me que a ECCL [linha de crédito com condições reforçadas] é a mais provável. Portugal ainda tem alguns progressos a fazer. O que quer isto dizer? O Governo português inclina-se para uma saída limpa, por todas as razões de política interna e porque, além disso, prepara-se para ter assegurado todo o financiamento do Estado para 2015. Como diz Regling, "se houver financiamento, o cautelar pode não ser necessário". Ou, por outras palavras, os países europeus também não gostariam de ter de abrir uma linha de crédito para Portugal, ainda por cima em plena campanha eleitoral das europeias.

Ao contrário do que se costuma dizer, já se sabe o que é um cautelar, as suas exigências e o grau de intervenção externa, só falta mesmo saber as medidas em concreto, o novo programa. Mesmo assim, seria mais seguro do que uma saída sem vigilância reforçada, porque isso pode pôr em causa todo o esforço dos últimos três anos. Pedro Passos Coelho diz que mesmo sem qualquer novo contrato com a Europa, os portugueses sabem o que têm de fazer a partir do dia 18 de Maio. Saberão mesmo?

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Segunda-feira, 24 de Fevereiro de 2014

O que ficou por dizer

 

Pedro Passos Coelho abriu o congresso do PSD melhor do que o fechou, soube 'vender' os números da economia, desvendou um segredo mal-guardado sobre a candidatura de Paulo Rangel ao Parlamento Europeu e saiu do Coliseu de Lisboa reforçado, até, pela maioria dos ex-líderes. Mas soube a pouco, para quem esperava mais sobre o que será o pós-troika.

O congresso que se anunciava sensaborão e sem histórias acabou por ser mais interessante e mais rico do que se esperava. Mérito de Pedro Passos Coelho, pelo 'timing' da realização deste congresso, interesse dos ex-líderes que não quiseram ficar na fotografia dos que criticam nas televisões mas não aparecem nos conclaves do partido e, em particular, da pré-corrida às presidenciais, que levou Marcelo Rebelo de Sousa a confirmar-se como o 'one man show' da política portuguesa.

Na sexta-feira, Passos Coelho conseguiu ser eficaz nas explicações sobre o processo de ajustamento, na evolução dos indicadores macroeconómicos (leia o 'fact checking' da jornalista Marta Moitinho Oliveira nesta edição), afirmou que o País está melhor, e está, mas reconheceu que muitos ficam para trás, que o desemprego continua a ser um problema. E é justo reconhecer que, nos três dias de congresso, conseguiu conter a euforia que latejava pelas cadeiras do Coliseu, como se o País estivesse a viver no oásis. Não está, e Santana Lopes, na pele de provedor da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, fez questão de trazer o partido, e os congressistas, à terra.

Esperava-se que o discurso de encerramento revelasse mais do que já se sabia, uma agenda clara, e concreta, do que será a segunda parte da legislatura. Até para responder a Paulo Portas, que pôs na agenda a descida do IRS e o salário mínimo já para 2015. Não só sobre a necessidade de consenso com o PS de António José Seguro, mas sobretudo sobre a acção do Governo, porque os pactos de regime vão ter de esperar por melhores dias, isto é, depois das eleições legislativas. Mas Passos adiantou muito pouco.

Nem se pode dizer que Pedro Passos Coelho tenha sido eleitoralista, fez até jus à tese de Marcelo de que gosta de dar más notícias, por contraponto com Paulo Portas, que prefere vender os milagres económicos. Disse, aos congressistas e ao País, que o que aí vem será igualmente difícil, e reconheceu que é necessário fazer mais do que foi feito - muito pouco, diga-se de passagem - na reforma do Estado. Ficou, então, a principal notícia de que as mudanças no Estado, presume-se no sistema de pensões e na Função Pública, tem de avançar mais rapidamente, ainda nesta legislatura. É pouco. Exige-se mais.

Face às novas exigências que se anunciam, e que Pedro Passos Coelho nunca escondeu, esforçou-se por não transformar o congresso num puro comício. Os congressos que deixaram de ser electivos passaram a ser, mais do que nunca, comícios, e este por maioria de razão, suportado em resultados económicos animadores. Depois de quase três anos a sofrer na defesa do Governo, os militantes do PSD tinham, finalmente, a possibilidade de sorrir, na sua zona de conforto, uma sala repleta de social-democratas. Mas, apesar disso, teremos de continuar à espera de 17 de Maio, do fim do programa, e do novo caderno de encargos que, necessariamente, vai ser adoptado. E, já agora, que seja pelo Governo, e não por imposição externa.

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Quinta-feira, 6 de Fevereiro de 2014

O que falta saber no BES

 

O Banco Espírito Santo (BES) ainda não divulgou as contas de 2013, mas não só, ainda não indicou sequer uma data para a sua divulgação, um tabu que, em vez de tranquilizar, suscita dúvidas sobre a situação financeira do grupo e, sobretudo, das 'holdings' superiores que controlam o banco. Depois da ruptura entre Ricardo Salgado e José Maria Ricciardi, a próxima conferência de imprensa de resultados será a mais importante dos últimos anos. E tem de ser esclarecedora.

O Económico ensaiou, nesta edição, as 12 perguntas mais relevantes a que Ricardo Salgado tem de responder. Um trabalho de investigação do jornalista Filipe Alves que permite perceber o que têm sido os últimos meses na sede do banco na Avenida da Liberdade, os encontros com as autoridades reguladoras e os desencontros com o seu primo e presidente do banco de investimento, Ricciardi, oficialmente candidato à sucessão.

Do ponto de vista financeiro, os números que se conhecem indicam que o BES está a fazer o seu trabalho de casa, a vender activos para cobrir imparidades, a reforçar provisões e a aumentar os rácios de capital. A venda de parte do capital da ES Saúde é apenas um exemplo. E o banco vai aproveitar, claro, uma evolução da economia mais favorável para melhorar as contas em 2014. Os resultados de 2013 serão claramente negativos - tudo indica acima dos 500 milhões - mas o facto de ter uma maior exposição às empresas do que aos particulares poderá ser um ponto forte para melhorar a operação, a margem e o produto bancário.

Se há divisões públicas na família sobre a liderança - protagonizadas, é certo, num rosto apenas, o de Ricciardi - há uma união no objectivo de evitar a necessidade de recurso a fundos do Estado. E se os rácios se revelarem mais fortes, no banco e na Espírito Santo Financial Group (ESFG), será depois necessário esperar pela avaliação de activos e pelos testes de stress. Os 'Espíritos' juram que, mesmo assim, não vão precisar do Estado.

Já a situação financeira das 'holdings' parece mais complexa, está sob investigação do Banco de Portugal, que a vai confirmando implicitamente para mostrar que está a fazer o seu trabalho. Ricardo Salgado vai ter de explicar as operações de venda de papel comercial que serviram para financiar os aumentos de capital no banco, e tem de simplificar as estruturas de 'holdings' e reforçar os seus capitais, sem pôr em causa, no limite, o controlo da ESFG e o próprio BES. Ainda assim, com a informação disponível, é possível arriscar que, ao 'annus horribilis' de 2013 poderá suceder um 'annus mirabilis' de 2014.

Para o banco e não necessariamente para Ricardo Salgado. Das 12 questões, há uma que continua sem resposta: O processo de sucessão já arrancou formalmente? Oficialmente, é um não-tema, mas a profusão de notícias sobre o grupo nas últimas semanas deixa perceber que há uma paz de conveniência, e uma guerra surda.

Já não é a primeira vez que é decretado o fim de Ricardo Salgado no BES, mesmo quando foi chamado a depor em processos judiciais, mas, até agora, claramente prematuro. Salgado tem, ainda, nas suas mãos a última decisão, o poder de decidir, nos seus termos, como e quando deixará de ser presidente executivo e quem será o sucessor. E será tanto maior quanto maior for a sua capacidade de dar resposta às exigências do regulador e preparar o banco para o novo ciclo.

 

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Quarta-feira, 5 de Fevereiro de 2014

Um caso surrealista

 

A venda dos quadros de Miró, afinal, foi suspensa pela própria leiloeira, a Christie's, horas antes do leilão, num processo atabalhoado e que faz jus à corrente artística do escultor e pintor catalão, surrealista. E Jorge Barreto Xavier passa a ser, a partir de hoje, um secretário de Estado-sombra, condenado à irrelevância.

O leilão dos 85 quadros de Joan Miró não é de hoje, estava pré-anunciado há meses, quando a ministra de Estado e das Finanças afirmou na Assembleia da República que a Parvalorem - ex-BPN - venderia activos para pagar a dívida contraída junto da CGD. Mas o País acordou para o tema quando a ex-ministra socialista Gabriela Canavilhas defendeu a ideia de que não podemos viver sem os Miró. Num ápice, a discussão entrou numa vertigem sem sentido, de parte a parte, isto é, do Governo que insistiu na venda a todo o custo, e da Oposição e de uma certa intelectualidade, que entende que o Estado deve suportar o investimento de 36 milhões de euros em quadros de Miró.

Este é mesmo um caso surreal, que tem duas dimensões: em primeiro lugar, o processo de venda e os passos legais e burocráticos necessários para realizar o leilão e um segundo, que diz respeito à decisão de venda propriamente dita.

Já era óbvio que o Governo - e, segundo Barreto Xavier, o Ministério das Finanças - tinha atropelado a lei na venda dos Miró, tinha 'esquecido' as necessárias autorizações administrativas da Direcção Geral do Património para as obras saírem do País e pareceres fundamentados do interesse da venda. Do que se sabe, o Governo não cumpriu nenhum dos dois, e o secretário de Estado vem dizer, na prática, que tentou legalizar o que estava ilegal, com um despacho que um tribunal diz ser ilegal. Confuso? Ainda é pior, o governante não quer saber desta avaliação judicial - que só não produziu efeitos porque a providência cautelar estava mal direccionada - e é a própria Christhie's a decidir-se pela suspensão do leilão. Para evitar o que deveria ter sido o secretário de Estado a garantir, a litigância com todos os riscos daí decorrentes.

Outra coisa bem diferente é esta obsessão que, de repente, tomou conta do País na defesa da colecção do pintor catalão. Sim, mesmo em tempo de crise, o Estado deve manter o investimento na cultura, mas deve ser em quadros de Miró, um escultor e pintor sem qualquer ligação a Portugal ou à nossa história? É no mínimo questionável, para não dizer outra coisa.

Além disso, não menos importante, a manutenção da colecção de Joan Miró em Portugal tem custos, os 85 quadros - seguramente uma colecção valiosa do ponto de vista cultural - já foram pagos, mas não foi com dinheiro do monopólio, foi com os nossos impostos, portanto, quem defende esta opção está, na prática, a dizer que o Estado deve investir 36 milhões de euros numa colecção de arte. Já agora, deve também esclarecer o que o País deve fazer com esta colecção e que retorno poderá ter. Mais ainda quando há tantas críticas às centenas de milhões que a Caixa ainda tem de receber das sociedades que resultaram do ex-BPN e cujo esforço poderá ser diminuído com esta e outras vendas.

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Terça-feira, 4 de Fevereiro de 2014

Bem-Amado, bem-Amado. Bem-Amado?

 

Nuno Amado apresentou prejuízos de 740 milhões de euros em 2013, um número no vermelho que só surpreende os mais desatentos e que está em linha com o plano de reestruturação do Millennium bcp, mas, a um ano do fim do mandato, o estado de graça do presidente do banco esgotou-se e 2014 tem de acabar com outra cor.

A administração do BCP continua a fazer o trabalho de casa necessário, Amado fechou o acordo com a Direcção-Geral da Concorrência europeia depois de beneficiar de uma ajuda pública de três mil milhões de euros que custaram, só em 2013, cerca de 269 milhões, vendeu a operação na Grécia e fechou um acordo com os sindicatos. Já era um plano de difícil execução, ao qual é preciso acrescentar a situação económica do País, a falta de negócio, que explica, por exemplo, que o produto bancário tenha caído mais de 15% no ano passado. O BCP, como os outros, tem dinheiro para emprestar, não tem é uma carteira suficiente de boas empresas e bons projectos, por isso, o crédito caiu mais de 5%. Se pudesse, Amado não venderia a operação na Polónia, que dá lucros, passaria, antes, a sede do BCP para Varsóvia.

Sim, o BCP está melhor hoje do que estava há dois anos, tem rácios de capital mais sólidos, cumpre as exigências do Banco de Portugal e da EBA, mas está mais ou menos como o País: o processo de ajustamento tem custos, o quadro geral piora antes de melhorar. Ora, 2014 é, neste aspecto, decisivo.

Ao contrário do BPI, que já iniciou de forma acelerada, até demais para o gosto do Banco de Portugal, o reembolso do empréstimo público de 1,5 mil milhões, o BCP promete começar este ano a pagar 400 milhões dos três mil milhões que recebeu, ainda assim, menos 100 milhões do que tinha prometido.

Em 2014, Nuno Amado tem de apresentar resultados positivos, pelos accionistas de referência, particularmente os angolanos que já investiram milhões, mas sobretudo pelos outros. O processo de ajustamento - leia-se o reconhecimento de imparidades e provisões - vai continuar, e o calendário para o pagamento dos três mil milhões aperta, por isso, Amado vai ter de fazer, em 2014, o que já foi tentado, sem sucesso, pelo seu antecessor, Carlos Santos Ferreira. O BCP precisa de voltar a ser uma referência no mercado de capitais, o BCP precisa de novos accionistas, para juntar à Sonangol, que permitam manter a dimensão internacional do banco.

Nuno Amado cumpriu (quase) à risca o plano negociado com as autoridades nacionais e internacionais, mas precisa de surpreender em 2014, precisa de arriscar.  O presidente do BCP foi bem-amado nos primeiros dois anos, mas precisa de lucros para chegar ao terceiro.

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Segunda-feira, 3 de Fevereiro de 2014

O fim de um tabu

 

 

Quando a China Three Gorges (CTG) entrou no capital da EDP, em Dezembro de 2011, António Mexia estava, dizia-se, com um pé fora da companhia, agora, quando o fim do actual mandato ainda vem longe, o presidente do grupo chinês diz, sem ambiguidades, que quer manter a actual equipa de gestão a partir de 2015 e põe fim a um tabu, a uma discussão que poderia pôr em causa a estabilidade da empresa.

A discussão sobre a continuidade de António Mexia na EDP parece extemporânea, mas só para quem não acompanhou os últimos meses dos corredores do poder em Lisboa. Mexia não era, provavelmente não é, o gestor preferido de Pedro Passos Coelho, mas a sua saída por ocasião da decisão do Governo de vender 21,35% de capital da empresa aos chineses teria sido um erro crasso, não só pelos resultados que apresentou, mas pelo barulho que geraria tal decisão. A CTG decidiu, e bem, manter o líder e 'contratar' alguns gestores de confiança. Mas o ruído, na verdade, nunca desapareceu.

Os resultados da EDP, esses, continuaram a aparecer, e esse só pode ser o critério para quem paga 2,7 mil milhões de euros por pouco mais de 21% do capital de uma empresa. António Mexia foi capaz de aproveitar o que de melhor os chineses traziam à empresa, a capacidade financeira para diminuir os riscos financeiros associados a uma estratégia de crescimento e expansão que obrigou a um endividamento elevado e que se tornou de risco com a situação explosiva dos mercados desde 2009. Pelo meio, a discussão sobre a sucessão no Grupo Espírito Santo a Ricardo Salgado acabou por pôr António Mexia, que já passou pelo banco de investimento do grupo, na lista de potenciais candidatos.

Perante estas notícias, a CTG teria uma de duas soluções. Se não dissesse nada, estaria a caucionar a ideia de que se preparava para avançar com mudanças na equipa de gestão no próximo mandato, com todos os riscos que isso comportaria, ainda mais a esta distância. O silêncio seria ensurdecedor, por isso, o presidente da empresa, Cao Guangjing, seguiu outro caminho, fez uma declaração de amor, a equipa é muito boa, e não há razões para a substituir. António Mexia tem, a partir de hoje, uma legitimidade reforçada.

Na semana em que o presidente da CTG está em Lisboa para conversar com o Governo - particularmente sobre a taxa extraordinária sobre a energia -, o presidente da EDP ganha um novo fôlego, já tem luz verde para reforçar no Brasil, manter nos EUA e até investir em Moçambique, e obriga os adversários, internos, alguns, e externos, muitos, a esperarem por melhores dias.

 

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