Domingo, 4 de Setembro de 2011

Onde é que já ouvimos isto?

Pedro Passos Coelho desafiou ontem os que têm criticado a estratégia de redução do défice e da dívida pública e os sucessivos aumentos de impostos a apresentarem soluções alternativas, do género “quem acha que faz melhor, que se chegue à frente”. Ora, este era precisamente o argumento que o presidente do PSD usava quando liderava a oposição e quando José Sócrates o desafiava a dizer como seria possível equilibrar as contas públicas sem recorrer aos impostos.

O Governo de Passos Coelho não pode ser acusado, seguramente, do estado de emergência financeira a que o País chegou, nem sequer pelo facto de ter deitado o Governo abaixo. É importante não seguir uma estratégia revisionista da história perante o descalabro da dívida pública e externa portuguesa nos últimos 15 anos, como sublinha Eduardo Catroga numa excelente, e clara, entrevista a Maria João Avillez, nesta edição. A que se somou uma crise do euro que evidenciou uma realidade: estamos há anos pendurados por arames e os nossos credores disseram, finalmente, que os iam soltar. Foi necessário recorrer ao FMI.

Mas, dito isto, ao contrário do que diz Catroga também nesta entrevista, já não é demasiado cedo para criticar o Governo, apesar de ainda não terem passado 100 dias. E não é aceitável que Passos Coelho, depois de criticado por não aparecer ao lado do ministro das Finanças no anúncio de medidas difíceis e contraditórias com o que anunciou em campanha eleitoral, esteja já na defensiva. Foi isso que fez quando interpelou os críticos a apresentarem alternativas, provavelmente a pensar mais em Manuela Ferreira Leite do que no PS e na oposição, digo eu.

Os portugueses ainda não perceberam quais serão os cortes de despesa a realizar nos próximos anos no Estado e na sua estrutura, mas já perceberam que vão pagar mais impostos e receber menos prestações. Já perceberam que o IRS vai chegar a 49% para os agregados com rendimentos acima de 150 mil euros brutos (será para ‘apanhar’ os multimilionários como o ‘trabalhador’ Américo Amorim?) e que vão acabar as deduções de educação, saúde e habitação para os agregados ‘ricos’ que ganham mais de 70 mil euros brutos por ano. São demasiados aumentos para tão poucos cortes de despesa ‘percebida’.

A meta de redução do peso da despesa total de cerca de 50% da riqueza criada em cada ano em Portugal para um valor em torno dos 43% até 2015, a ser cumprido, revela um corte histórico e nunca visto nos gastos públicos. Agora, o que queremos perceber – incluindo a base de apoio do Governo, que já dá sinais evidentes de mal-estar perante as medidas que vão sendo conhecidas – é o que Pedro Passos Coelho e Vítor Gaspar vão fazer para transformar o estado do Estado. E não estou a falar apenas da despesa social, nem dos anúncios ‘soltos’ de extinções de empresas públicas que, afinal, até ameaçam mais o défice do que simplesmente mantê-las.

Ninguém disse que seria fácil, e seria hipócrita fazê-lo aqui e agora. O estado de graça acabou-se, o benefício da dúvida não. Ainda.

publicado por concorrenciaperfeita às 22:40
link do post | comentar | favorito

mais sobre mim

pesquisar

 

Março 2014

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
15

16

24
25
27
28
29

30
31


posts recentes

Salgado recupera a espera...

A política destrói valor

Porque é que Cravinho ass...

Em inglês não soa melhor

A palavra de Cavaco

Uma mão cheia de nada

Acordo para uma saída cre...

Carta aberta ao 71º subsc...

O plano P, de Parlamento

Um acto falhado

arquivos

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

blogs SAPO

subscrever feeds