Sexta-feira, 13 de Janeiro de 2012

É preciso ser diferente, nas palavras e nos actos

Pedro Passos Coelho explicou-se. Tarde, sob pressão pública e política, mas não fugiu às questões (leia-se às nomeações) mais polémicas para o sector empresarial do Estado, provavelmente o ponto mais baixo desde que tomou posse, porque põe em causa a legitimidade moral e a autoridade do Governo para pôr em prática um plano de austeridade sem precedentes. E que só agora começou.

As explicações do primeiro-ministro são, quase todas, boas explicações, razoáveis, transparentes, sem ambiguidades, e a fazer jus às promessas que fez na campanha eleitoral. Quase todas, menos as relativas à Águas de Portugal, e, neste caso, foi traído pela sua própria honestidade intelectual. "Não acertaremos todas as escolhas, ninguém na vida poderá dizer que nunca se enganou", afirmou o primeiro-ministro, numa espécie de rebate de consciência. As nomeações para a empresa Águas de Portugal, de um autarca do PSD e de outro do CDS, são o exemplo do que não deve ser feito, na forma e na substância. E, às vezes, na vida, basta um exemplo para pôr em causa uma prática.

Sobra uma garantia, traduzida nas explicações que deu sobre o facto de o principal problema da companhia pública ser a dívida das autarquias… que não são responsabilidade das autarquias, de quem deve, mas de quem prestou um serviço, a Águas de Portugal. Como? Ou quando afirmou que não queria discutir os nomes de Manuel Frexes e de Manuel Castelo-Branco, ao contrário do que fez para justificar as nomeações, justificadas, de Nogueira Leite, Fernandes Thomaz e de Eduardo Catroga.

Passos sabe que errou ao validar as nomeações 'de amigos' na Águas de Portugal, mas deixou, implicitamente, a garantia de que não voltará a fazê-lo. Merece, no mínimo, o benefício da dúvida.

O caso Águas de Portugal não tem paralelo, nem com as nomeações para a administração directa do Estado, nem para o sector empresarial. Pelos números de novas nomeações, no primeiro caso, pelas pessoas nomeadas no segundo. Mas isso não basta.

As nomeações do Governo para as direcções gerais, institutos, reguladores e empresas públicas serão mais escrutinadas do que nunca e isso, provavelmente, impedirá quadros superiores da Administração Pública e gestores de serem nomeados. Mesmo sendo os mais competentes, mas apenas porque tiveram ou têm ligações directas ou indirectas ao PSD ou ao CDS. Não faz sentido, mas é este o preço a pagar. Ter sido ministro do PSD ou do CDS, militante ou apoiante não pode nem deve ser cadastro. A competência e o mérito devem ser os únicos critérios de escolha, mas também de exclusão de candidatos.

Pedro Passos Coelho cometeu um percalço, mas tem uma oportunidade para pôr fim à discussão, até porque, nos próximos meses, muitas nomeações para as empresas públicas: o Governo tem, rapidamente, de pôr em prática a nova legislação sobre os concursos públicos para acesso à administração directa do Estado. E deve criar uma comissão independente, com um mandato de cinco a sete anos, inamovível, para ratificar as propostas de nomeação para as empresas públicas. E tem de fazê-lo o quanto antes.

O discurso de superioridade moral de Passos Coelho - e que foi um dos pontos centrais na campanha eleitoral - obriga-o a ser, de facto, muito diferente, e moralmente superior, do seu antecessor. Nos actos e não apenas nas palavras.

publicado por concorrenciaperfeita às 22:05
link do post | comentar | favorito

mais sobre mim

pesquisar

 

Março 2014

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
15

16

24
25
27
28
29

30
31


posts recentes

Salgado recupera a espera...

A política destrói valor

Porque é que Cravinho ass...

Em inglês não soa melhor

A palavra de Cavaco

Uma mão cheia de nada

Acordo para uma saída cre...

Carta aberta ao 71º subsc...

O plano P, de Parlamento

Um acto falhado

arquivos

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

blogs SAPO

subscrever feeds