Domingo, 15 de Janeiro de 2012

Catroga, Carlos Costa e os exemplos

Portugal está a viver um processo de empobrecimento organizado, necessário para criar as condições que permitam a criação de riqueza, o verdadeiro e mais difícil problema estrutural do País. Mas, para ser exequível, sem confusão nas ruas, é preciso moralidade e equidade na austeridade. Porque ou há moralidade, ou comem todos. E como não podem comer todos…Vamos a dois exemplos:

Eduardo Catroga foi indicado pelos principais accionistas privados da EDP para presidente do conselho geral da companhia, um cargo em full-time com uma remuneração da ordem dos 700 mil euros brutos por ano, um grande ordenado em qualquer parte do mundo.

A discussão em torno do nome de Eduardo Catroga é, na maior parte das vezes, populista e demagógica, porque tenta evidenciar uma mentira, a de que o economista, gestor há mais de 40 anos e ex-ministro é um 'boy'. Não é, sob qualquer prisma, como ficou demonstrado esta semana, na entrevista ao Expresso, quando confessa, ingenuamente (?), que não sabe como Celeste Cardona foi parar às listas da EDP. Sabe, como sabemos todos, que foi para preencher a quota do CDS. Os accionistas privados, não tenho dúvidas, fizeram a escolha, mas Cardona não seria candidata a vogal da EDP se não tivesse as ligações políticas que tem. E isto não releva as suas competências, que tem. Releva, claro, a necessidade que os privados têm em Portugal de estar bem com Deus e com o diabo, isto é, em exigirem menos Estado e em 'darem' mais Estado. E há mais exemplos nesta lista.

O problema de Catroga, a melhor escolha para a EDP, é outro: o gestor tem um ordenado elevado, que resulta, claro, da avaliação que os accionistas fazem da sua competência, do seu perfil e do mercado onde está, neste caso, o dos gestores de top. Tudo muito bem, mas Catroga tem também uma pensão, de cerca de nove mil euros por mês. O próprio acha normal acumular as duas remunerações, porque é legal aos olhos da lei. É verdade, mas não deveria ser, nem é moral aos olhos dos portugueses.

Catroga daria um excelente exemplo se, por iniciativa própria, abdicasse da pensão, e o Governo daria um excelente exemplo se impedisse que qualquer cidadão pudesse acumular uma pensão de reforma com um salário regular, fosse público, o que já existe, ou privado. Deveria haver a obrigação de escolher um dos rendimentos. Porque não é possível dizer aos portugueses que viveram acima das suas possibilidades e permitir estas acumulações de rendimento.

Carlos Costa abdicou dos subsídios de férias e de Natal, assim como toda a administração do Banco de Portugal, dando um exemplo que não estava obrigado a dar por força da lei e do estatuto da autoridade central portuguesa. Cedo se percebeu que os cortes de subsídios na Função Pública atingiriam não só a administração directa e indirecta do Estado como as empresas do sector público. Com uma excepção, insuportável para todos aqueles que verão reduzidos os seus rendimentos em 2012 e 2013, o Banco de Portugal.

 

Já se sabe que, por várias razões, o Banco de Portugal não é abrangido pelas disposições do Orçamento do Estado de 2012, como não foi em 2011. Porque tem autonomia administrativa e financeira, porque é independente e responde perante o BCE e não perante o Governo.

Tudo isto não é relevante, porque o que está em causa não é a lei, é a moralidade. E como o Banco de Portugal não pode cortar os subsídios, sem atropelar a lei, tomou a atitude mais decente: em causa própria, Carlos Costa deu o exemplo, sem precisar de lei nenhuma.

O governador do Banco de Portugal ganhou a legitimidade moral para pôr fim aos ataques, muitos também populistas e demagógicos, férteis em momentos como o que o País atravessa.

publicado por concorrenciaperfeita às 21:06
link do post | comentar | favorito

mais sobre mim

pesquisar

 

Março 2014

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
15

16

24
25
27
28
29

30
31


posts recentes

Salgado recupera a espera...

A política destrói valor

Porque é que Cravinho ass...

Em inglês não soa melhor

A palavra de Cavaco

Uma mão cheia de nada

Acordo para uma saída cre...

Carta aberta ao 71º subsc...

O plano P, de Parlamento

Um acto falhado

arquivos

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

blogs SAPO

subscrever feeds