Quinta-feira, 26 de Janeiro de 2012

E o BCP mudou de vida

Carlos Santos Ferreira foi o homem certo na função certa. Até ontem. O presidente executivo do Millennium bcp vai ser substituído ao fim de doze meses do seu segundo mandato, sacrificado à necessidade do maior banco privado português de virar uma página e encerrar um ciclo, difícil, que o trouxe até ao dia de hoje. Em sofrimento.

A presidência de quatro anos de Santos Ferreira no BCP pode dividir-se em dois, com objectivos e resultados diferentes: quando entrou, oriundo directamente da Caixa Geral de Depósitos, foi-lhe confiada uma missão, uma meta maior do que todas as outras. Santos Ferreira teria de pacificar um banco, destruído internamente por uma guerra entre o seu fundador, Jardim Gonçalves, e o seu sucessor, Paulo Teixeira Pinto. O seu perfil, consensual, sereno, diplomata, era o necessário para unir accionistas desavindos e fazer regressar a paz a uma instituição crítica para o sistema financeiro português.

Nos primeiros dois anos de mandato, em 2008 e 2009, Santos Ferreira fez exactamente o que lhe era exigido, e mais: criou as condições internas e externas para o reforço da posição do que é hoje o accionista de referência do banco, a Sonangol. Mas o último ano do primeiro mandato já teve outra tonalidade, muito por força da crise financeira, que impediu Santos Ferreira de dar o passo seguinte.

Era claro, já em 2009, que Santos Ferreira teria de responder a um desafio: definir uma nova orientação estratégica para um banco que, no passado, tinha decidido investir em países como a Polónia e a Grécia, e garantir o reforço da estabilidade accionista, e de capital, claro, para suportar essa estratégia, ou seja, um novo accionista estrangeiro.

A verdade é que Carlos Santos Ferreira não conseguiu concretizar nenhum dos dois objectivos em 2010 e 2010. A mudança estratégica ficou a meio, com a entrada em Angola e Brasil e a manutenção das posições, que estavam à venda, na Europa; E os contactos com os novos accionistas, que o próprio conduziu e desenvolveu, ainda não passaram à prática.

Cedo teve de se dedicar a garantir o reforço dos capitais do banco e a ultrapassar os sucessivos testes de stress que, diga-se, fez com sucesso. Paradoxalmente, o banco está hoje mais sólido do ponto de vista dos capitais próprios, isto é, os depositantes podem estar hoje mais descansados do que estavam há quatro anos, mas mais fragilizado em relação ao futuro.

O mesmo accionista que Santos Ferreira privilegiou - a Sonangol - percebeu a necessidade de mudar de ciclo e, neste sentido, de presidente executivo e do próprio modelo de governação. A mudança de presidente executivo quando ainda só passou um terço do mandato revela que Santos Ferreira sai antes de concluir o que tinha a fazer, particularmente, a entrada de um novo accionista. Mas acaba por ser no momento certo. Adiar a decisão, para Santos Ferreira e para o BCP, seria sempre pior. O BCP, os accionistas, os clientes e os colaboradores ficam a dever-lhe o papel ingrato que teve de desempenhar e cujos resultados não fazem jus à sua competência, qualidade e saber.

Nuno Amado tem tudo para ser o homem certo na função certa, a partir da próxima assembleia-geral. O actual presidente do Santander Totta tem a competência técnica e o perfil baixo adequados aos tempos que o BCP precisa de viver a partir de agora. E ao accionista de referência que manda hoje no banco.

A opinião publicada nunca fez justiça às competências de Nuno Amado, por causa da comparação directa, e inevitável, com António Horta Osório e, particularmente, com a sua capacidade de comunicação.

Amado é muito mais do que isso, como mostram os resultados do Santander, mas vai sair agora da sua zona de conforto. O Santander é uma máquina oleada, que (quase) funciona sozinha, mas o BCP está longe de o ser. Vai ser o desafio da sua vida.

publicado por concorrenciaperfeita às 21:03
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