Domingo, 29 de Janeiro de 2012

Como se cria uma diversão

Cavaco Silva está a tentar recuperar a credibilidade e autoridade perdidas com o episódio das pensões que não chegam para a sua despesa familiar da pior forma, alinhando ao lado dos mais críticos do Governo, capitalizando descontentamentos e até fragilidades sociais. É feio.

Em dois dias seguidos, primeiro no Expresso e depois no Público, Belém deixa saber que está contra as políticas de Pedro Passos Coelho e a sua visão do Estado e que o ministro das Finanças Vítor Gaspar é um perigoso neoliberal. As notícias não citam fontes oficiais, mas não precisavam, porque a impressão digital de Cavaco Silva é visível sem a ajuda de qualquer CSI. O Presidente da República ainda não digeriu um erro que ele próprio cometeu, indesculpável, ouviu de Passos que os sacrifícios são para todos e, agora, procura fazer saber que é o ponto de referência de quem é afectado pelas mudanças que estão a ser feitas, na saúde, na educação, até no arrendamento, que, segundo Cavaco, está bem como está. É feio, porque aproveita as vulnerabilidades de outros em proveito próprio, não em proveito do País. O Expresso escreve que "não é tanto a dimensão do corte, como a tipologia do corte que o [Cavaco Silva] incomoda". Importa-se de repetir?

Sabe-se, o problema do Portugal, que vive com os rendimentos dos outros, não começou com Sócrates. O anterior primeiro-ministro levou-o a um nível insustentável, mas a verdade é que o que o separa de Cavaco Silva é bem menos do que aquilo que separa o Presidente do actual primeiro-ministro.

Claro, fazer reformas sob pressão, debaixo de uma situação de emergência económica, financeira e social, é difícil e tem custos. O Estado que temos, o monstro, nasceu no segundo mandato de Cavaco Silva, cresceu com António Guterres e engordou com Sócrates, ao ponto de padecer de obesidade mórbida. Agora, Passos e Gaspar têm de tirar o Estado da Economia, transformar o que foi uma intervenção pública sem controlo numa regulação pública 'regulada'. E Cavaco, pelos vistos, não gosta. Preferia outro Estado, que continuasse a ser o principal gestor da economia, das empresas, enfim, da sociedade. Precisamente o que nos trouxe até aqui.

Os ataques a Passos e, particularmente, ao ministro Vítor Gaspar são um mau serviço ao País. Portugal não está no ponto de viragem, como assegura o Governo, continua muito perto do precipício, e pode cair. Quando Cavaco usa o poder da palavra para minar a autoridade e a força política do ministro das Finanças, quando Belém faz saber que quer a 'cabeça' de Gaspar, põe em causa o trabalho feito nos últimos seis meses, interna e, sobretudo, internacionalmente. Perante os mercados, que Cavaco conhece bem.

Portugal não gera a riqueza necessária para manter o Estado que tem, para assegurar um Estado social que diminua as assimetrias económicas e sociais, por isso, o Estado tem de ser reduzido, ao mesmo tempo que a economia tem de crescer. As decisões do Governo - as já tomadas e as que estão anunciadas - precisam de fazer o seu caminho, ainda não produziram resultados, são um caminho. São, pelo menos, um caminho diferente daquele que nos conduziu até aqui e de que Cavaco Silva é também, no mínimo, co-responsável.

A rota de colisão entre Cavaco e Gaspar não acelerou nos últimos tempos. O que sucedeu, nos últimos dias, foi a revelação de um Presidente que está preocupado com as suas pensões e que, perante o deslize, quer provocar uma guerra política que substitua, na agenda mediática, aquela discussão. É feio, porque mostra que, para Belém, o País não está primeiro. 

publicado por concorrenciaperfeita às 22:05
link do post | comentar | favorito

mais sobre mim

pesquisar

 

Março 2014

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
15

16

24
25
27
28
29

30
31


posts recentes

Salgado recupera a espera...

A política destrói valor

Porque é que Cravinho ass...

Em inglês não soa melhor

A palavra de Cavaco

Uma mão cheia de nada

Acordo para uma saída cre...

Carta aberta ao 71º subsc...

O plano P, de Parlamento

Um acto falhado

arquivos

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

blogs SAPO

subscrever feeds