Terça-feira, 31 de Janeiro de 2012

A última oportunidade

Há 15 anos, a banca nacional tinha líderes como Jorge Jardim Gonçalves, Artur Santos Silva, Ricardo Salgado e o presidente da Caixa Geral de Depósitos, fosse ele quem fosse. Hoje, emerge o presidente do Banco Espírito Santo (BES), por mérito próprio e por fragilidades alheias. As mudanças no Millennium bcp, e a entrada de Nuno Amado, têm também esse objectivo, a de garantir, a prazo, o fim da monocultura financeira que é hoje prática no País.

É preciso reconhecê-lo, Ricardo Salgado construiu, passo a passo, o poder e a influência que tem hoje na sociedade portuguesa, financeira, económica e política. Nada se faz sem uma palavra do banqueiro, esse sim, o patrão dos banqueiros portugueses (e não a associação do sector, liderada por António de Sousa). E isso deve-se ao que foi decidido há 20 anos: o crescimento orgânico, e não por aquisição, a internacionalização - mais recente - via banco de investimento, a participação nos processos de privatização e as posições estratégicas nas maiores empresas portuguesas, como a PT ou a EDP. Além, claro, de uma estratégia operacional do banco focada e de uma relação privilegiada com o cliente Estado.

Tudo somado, Ricardo Salgado é hoje incontornável. O problema não é o poder de Salgado, construído a pulso e que beneficiou a economia e o País, mas as vulnerabilidades de outros banqueiros que os impedem de funcionar como contra-ponto ao peso institucional - e financeiro - do presidente do BES.

A politização crescente da Caixa Geral de Depósitos pôs em causa o poder e a influência dos sucessivos presidentes da Caixa, pelo menos desde João Salgueiro. Apesar de a Caixa continuar a ser o maior banco português. Essa fonte de poder transferiu-se, progressivamente, para o Terreiro do Paço e para o ministro das Finanças que, em cada momento, tutelava o banco público. Aliás, a nova gestão da Caixa, de Faria de Oliveira e de José de Matos, tem a oportunidade de recuperar um peso perdido, mas a gestão bicéfala é, em si mesmo, um obstáculo.

Artur Santos Silva tinha um peso próprio, e reforçou-o com o crescimento da, então, SPI para o BPI que conhecemos hoje. Valia mais do que o próprio banco, por origem e vocação. Fernando Ulrich é um gestor de topo, um banqueiro, mas o seu peso tem sido directamente proporcional à sua irreverência. Criou-se a ideia, verdadeira, que os banqueiros têm uma linguagem própria, leia-se, que não dizem tudo o que lhes vai na alma. Ulrich não. Diz a verdade, mesmo quando ela dói, a si ou aos outros. A dimensão do BPI hoje no mercado, a crise que também o afecta, e limita, reduzem-lhe o espaço de intervenção, e muito.

Sobre Jorge Jardim Gonçalves, a história ainda está a ser escrita, em vários capítulos. Não terminou à altura do que fez pela banca nacional, e pelo seu impacto no sistema financeiro e empresarial português. A guerra de poder no BCP e a intervenção do Governo de Sócrates geraram uma solução, a melhor à data, com Carlos Santos Ferreira, que tinha como objectivo 'apenas' estabilizar o maior banco privado português. Fê-lo, mas a crise, e as dificuldades dos accionistas de referência do Millennium (também) fizeram o resto.

É neste contexto que a entrada de Nuno Amado pode ser um ponto de viragem, um novo começo para o BCP. Santos Ferreira também percebeu isso, e foi o primeiro a subscrever a posição da Sonangol, o accionista de referência do banco, para "mudar a página", como afirmou ao Diário Económico.

A bem de Ricardo Salgado e do BES, do sistema financeiro e da economia como um todo, é crítico que o Millennium bcp recupere o peso institucional que já teve. Não será uma tarefa para um ano, eventualmente nem sequer para um mandato. Mas Amado tem a oportunidade, a última, de o fazer.

publicado por concorrenciaperfeita às 21:45
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