Quarta-feira, 1 de Fevereiro de 2012

Um novo acordo que já o era antes de o ser

O ministro das Finanças garante que Portugal não quer, nem vai pedir, uma renegociação do programa de ajustamento negociado com a ‘troika’, não quer mais tempo ou dinheiro. Vítor Gaspar sabe, melhor do que ninguém, que a questão central do programa de austeridade, o que nos pode tirar da tempestade que vivemos, já foi renegociada: há hoje novas condições de financiamento à economia, leia-se, um novo acordo que já o era antes de o ser.

Claro, o ministro das Finanças não tem condições para pedir publicamente, agora e nestas circunstâncias, mais dinheiro à ‘troika’, o dinheiro que faltava – cerca de 20 a 30 mil milhões de euros – desde logo para garantir que a banca tema cesso a liquidez para financiar o investimento das empresas. Mas negociou, como apoio do Banco de Portugal, novas condições de acesso da banca a esse financiamento, e beneficiou, também, de medidas no contexto da zona euro, como as que têm sido tomadas pelo Banco Central Europeu (BCE).

A renegociação – a palavra é minha – já está feita e, por portas travessas, Portugal desbloqueou a entrada dos referidos 20 a 30 mil milhões de euros. Através dos fundos de pensões, de uma nova linha de crédito do BEI, de acesso a empréstimos do BCE a três anos. É a nota positiva, crítica mesmo, de um programa de ajustamento que vai sendo, também, reajustado nas consequências. O desemprego, que é a expressão da austeridade, vai chegar aos 14,5% em média durante o ano de 2012, por isso, poderemos esperar, no primeiro trimestre de 2013 uma taxa oficial superior a 16%.

As consequências da austeridade estão aí, mas não há boa austeridade, como não há uma boa maneira de dar más notícias. Um programa de empobrecimento organizado que é, eufemísticamente, apelidado de ‘plano de ajustamento’ só poderia ser recessivo. Porque é preciso ajustar o nível de vida dos portugueses ao seu nível de criação de riqueza. E, de forma mais estrutural, preparar o País para uma nova realidade, para um novo Estado social, que não vai proteger tudo e todos, mas apenas os mais necessitados e fragilizados. E para um novo Estado económico, mais competitivo e que promova o crescimento.

 

‘Krugmania’ de efeito-rápido

Paul Krugman é, certamente, dos mais brilhantes economistas do mundo, prémio Nobel e incontornável, para quem o idolatra, para quem o odeia. Mas o que se passou por estes dias, em Portugal, esta ‘Krugmania’ de efeito-rápido, deve ter surpreendido o próprio. Doutorado ‘honoris causa’ por três universidades de uma só vez, transformado em estrela, Krugman não disse nada de novo relativamente ao que já lemos nos seus artigos de opinião, mas foi recebido como um D. Sebastião, que nos ensinaria a sair da crise, já amanhã e em contracorrente como caminho que está a ser seguido.

Krugman, o próprio, encarregou-se de desfazer equívocos, e mostrar porque é uma referência: “Não há muita margem de manobra”, “não posso aconselhar a esquecerem a austeridade”, “no mínimo, os salários têm de crescer mais lentamente que os salários do resto da Europa”, “gostaria de ver um ajustamento pela parte da produtividade em vez de pelos salários”, “não há receitas mágicas, a não ser abandonar o euro (…) não se faz, a não ser que não haja alternativa. E Portugal não está nesse ponto”. Quantos economistas já nos disseram isto? Portugueses e que sabem, e muito, da realidade da economia portuguesa? E quantos, no Governo de Passos Coelho, não subscrevem exactamente estas opiniões?

 

 

publicado por concorrenciaperfeita às 22:35
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