Quarta-feira, 7 de Julho de 2010

Resolver o presente e mudar o futuro

Exactamente oito dias depois de José Sócrates ter usado a ‘golden share’ para vetar a decisão da maioria dos accionistas da PT de venderem a Vivo à Telefónica, o tema já não é económico nem empresarial, já pouco tem a ver com o futuro da operadora portuguesa, é ‘apenas’ político.

O primeiro-ministro José Sócrates é, para já, o único vencedor. O primeiro-ministro é um animal político, percebeu, antes de todos, que tinha nas mãos uma oportunidade única, a de recuperar o País para o seu lado, a maior parte dele não sabe o que está em causa em concreto, mas sabe que depois de perdermos para Espanha no futebol, não poderíamos perder para Espanha nos negócios... mesmo que isso seja à custa dos donos da própria empresa.

A defesa dos interesses do País é um argumento válido, mas, para isso, o melhor seria não privatizar empresas e, até, recomprá-las para asegurar esse objectivo. Em coerência. O Estado vendeu as empresas, recebeu o preço definido por si próprio pelo negócio, mas quer continuar a mandar. E a verdade é que continua, como se vê. Que sirva de lição, também, aos privados, incluindo os accionistas da PT como o BES e a Ongoing (dona do Diário Económico).

O negócio, qualquer negócio que a PT venha a fazer, não se fará sem o acordo do primeiro-ministro. Isso já era claro e só os mais distraídos, ou ingénuos, poderiam admitir outro cenário. Mesmo que, legalmente, existam possibilidades para o fazer. Sócrates não vai largar este assunto, e a decisão do Tribunal Europeu, já amanhã, previsivelmente contra o Estado português e a ‘golden share’, é paradoxalmente, o melhor que lhe pode suceder. Será mais uma oportunidade para mostrar que não verga, nem contra Bruxelas, nem contra ninguém. E, nisso, verdade seja dita, não há ninguém como ele. Quem disse que estava politicamente morto, enganou-se redondamente. Não está, está mais forte.

Obviamente, Ricardo Salgado percebeu isso e proferiu, ontem, pela primeira vez, a mais importante das declarações: o Governo decidiu vetar um negócio, o Governo tem a palavra para ultrapassar este impasse. É, realmente, o que está agora em causa. O Governo vai ter de levar a sua intervenção até ao fim e assegurar uma solução que defenda a sua posição inicial e desbloqueie não apenas o negócio da Vivo, mas o próprio presente da PT.

Por isso, a PT é, obviamente, o principal perdedor. Os accionistas privados perderam, a Telefónica perdeu, mas, verdadeiramente, quem mais perdeu, até agora, foi a PT e a sua administração, tolhida por um futuro incerto e por uma quebra de confiança entre os accionistas de referência, privados e públicos. A PT vai mudar, não se sabe como nem para onde. Antes, é preciso resolver o seu presente.

 

PS: Qual é a maior evidência de que o racional económico e empresarial já foi esquecido? A primeira posição pública de Santana Lopes, é bom recordá-lo, antigo primeiro-ministro, diz tudo e mostra quão longe pode chegar a demagogia política: o Estado fez bem em usar a ‘golden share’, pasme-se, mesmo que o preço oferecido fosse dez vezes mais alto.

publicado por concorrenciaperfeita às 07:00
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