Domingo, 11 de Março de 2012

O 12º ministro de Passos

António Borges tinha concedido uma entrevista ao Diário Económico, publicada no primeiro dia oficial das minhas funções como director, a 4 de Agosto de 2008: nessa entrevista de Verão, de vida, de longo alcance, antes da falência do Lehman Brothers e do quase colapso do mundo ocidental, o economista fez uma proposta que, à data, só os liberais (ou neoliberais) subscreveriam: “O Estado deveria privatizar a Caixa Geral de Depósitos.”

Claro, nesse dia, foram mais as críticas do que os elogios. Os ventos não corriam de feição para uma proposta como esta, a crise financeira adivinhava se, o ‘subprime’ já tinha rebentado e era necessário, diziam-nos, um banco público para garantir e salvaguardar o sistema nacional. Borges, de resto, era vice-presidente de um partido, o PSD, que rejeitava esta opção. Oficialmente, pela voz de Manuela Ferreira Leite, que, como se sabe, está mais próxima do PS do que do actual PSD. A vida, do mundo, de Portugal, e do próprio, deu muitas voltas, tantas que hoje Borges é o 12º ministro deste Governo, e nem sequer é um ministro-sombra, tal a influência junto de Pedro Passos Coelho e Vítor Gaspar. E os dossiês

que tem entre mãos.

Pedro Passos Coelho foi coerente na escolha, coerente com a sua própria visão, como já o tinha sido com a escolha de Vítor Gaspar. E coerente com as necessidades do Estado de reestruturar uns activos e vender outros. E Borges encontra, mais do que em qualquer outro momento histórico da democracia portuguesa, o terreno fértil para concretizar o que, em coerência, sempre defendeu. Porque os portugueses estão cansados de pagar, com impostos, uma presença do Estado na economia que serviu sobretudo para proteger interesses e grupos, e não a própria economia e a sua competitividade.

Ganha, com a sua equipa, ao que dizem, 25 mil euros por mês. É caro? O barato sai caro. Mas não teria ficado mal ao primeiro-ministro uma nomeação que não fosse às escondidas, envergonhada.

Deveria ter sido clara, nas funções, nos objectivos e nos custos. Deveria ter sido proporcional à sua importância. Pelas competências e qualidades de Borges, reconhecidas e provadas, pelas matérias como as privatizações, as parcerias público-privadas, a reestruturação do sector empresarial do Estado, a capitalização da banca, demasiado relevantes para o nosso futuro colectivo.

A condição de 12º ministro, bem vistas as coisas, deveria ser formalizada, de uma forma ou outra.

Ainda vai a tempo. Para salvaguardar a posição do Governo, a sua autoridade e do próprio António Borges. Antes de qualquer decisão. Um exemplo: Quase quatro anos depois dessa entrevista, e milhares de milhões gastos, a privatização da Caixa vai avançar, mais cedo do que tarde, por necessidade e por opção. O banco, público, acabou por não fazer jus à sua condição e, no essencial, assemelhou-se à banca privada no pior e não se distinguiu no melhor.

No Portugal de hoje, que tem capitalistas sem capital e empresários sem empresas, o que for feito nas privatizações ou na banca, por exemplo, vai condicionar e até mudar as regras do jogo, os personagens que estão hoje na primeira linha vão ser substituídos, não pela geração seguinte, mas por outros, os que tiverem força e, sobretudo, capital. Neste quadro, seria desejável que, à responsabilidade política de quem decide, de Passos e Gaspar, se juntasse a hipótese de ‘accountability’ de quem propõe, de António Borges.

 

publicado por concorrenciaperfeita às 21:00
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