Segunda-feira, 7 de Maio de 2012

Venha cá!

Alexandre Soares dos Santos e a Jerónimo Martins puseram o País a discutir uma acção de marketing, tão genial como arriscada, o desconto de 50% sobre compras superiores a 100 euros nas lojas do Pingo Doce, pasme-se, no dia 1 de Maio, dia do Trabalhador. As críticas assumiram proporções tão populistas como contraditórias, e o Governo, sob pressão, não resistiu a apanhar a boleia da demagogia.

A decisão da Jerónimo Martins tem várias dimensões de análise possível, a primeira das quais política.

Uma iniciativa tão agressiva como a que foi realizada num feriado 'do trabalhador', no contexto económico e social em que o País vive, num clima de tensão e conflitualidade social latentes, dificilmente poderia ter tido outra resposta da esquerda mais radical e dos sindicatos, que encontraram um bode expiatório perfeito para as dificuldades evidentes em captar 'clientes' para as manifestações. Sem descontos. Às vezes, as explicações mais simples são as verdadeiras. Uma acção destas num feriado - fosse ele qual fosse - no início do mês tem um potencial de sucesso óbvio, ainda mais tendo em conta a crise e o desemprego a que chegámos.

E é aqui que a Esquerda entra em contradição, porque critica uma acção que, objectivamente, beneficia os consumidores. Entre as críticas a um grupo económico - e ao grande capital - e as decisões dos consumidores que, neste quadro económico, não quiseram perder uma oportunidade de poupar, a Esquerda radical revela estar mais preocupada com a política e menos com as pessoas.

A acção da Jerónimo Martins foi, por isso, arriscada e creio que, até, subavaliadas as consequências de imagem, depois do episódio da transferência da sede da holding do grupo para a Holanda. A Jerónimo Martins é um alvo fácil das críticas, desde logo porque Alexandre Soares dos Santos não se cansa de dar lições, algumas de moral, sobre o comportamento dos portugueses em geral, dos empresários, das elites, dos governos e, claro, dos sindicatos, em particular.

Do ponto de vista económico, haverá ainda muito a dizer, e se a ASAE e a Autoridade da Concorrência têm dúvidas, que investiguem. Mas o principal problema não é sequer a alegada concorrência desleal - ou a venda com prejuízo - porque, à luz da lei, dificilmente uma acção 'one-shot' pode ser considerada uma violação à lei. Desde logo porque há concorrência forte no sector. Aliás, a guerra de preços entre os dois principais grupos de distribuição - o Continente e a Jerónimo Martins - é óbvia e evidente e isso é que é a concorrência, que, em última análise, beneficia o consumidor.

Problemático, e que justifica uma análise cuidada, é a consequência desta acção, e de outras, já anunciadas, na relação com os produtores e fornecedores. Sabe-se, há um desequilíbrio de forças entre a produção e a distribuição e é necessário garantir, por via da fiscalização, que esta guerra de preços não mata a produção e, em última análise, prejudica os consumidores no médio e longo prazo.

A resposta do Governo, essa, foi a pior. Acossado por uma crise económica e por um desemprego galopante, decidiu pôr em acção um secretário de Estado para defender os consumidores e uma ministra para defender os produtores. Como? Com mais legislação, é claro. Para deixar o mercado funcionar? Não. Para impedir as promoções inesperadas.

 

publicado por concorrenciaperfeita às 10:16
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