Sexta-feira, 18 de Maio de 2012

Portugal, o desemprego e o futuro

 Só os mais distraídos, e o ministro das Finanças Vítor Gaspar, podem estar surpreendidos com a evolução do desemprego em Portugal, que no primeiro trimestre quase tocou os 15%, o que, na verdade, revela uma taxa 'real' de quase 20%, mais de um milhão de desempregados. A Oposição responsabiliza o Governo pela evolução descontrolada do desemprego, e tem razão: em algum momento, algum Governo, alguma 'troika', tinham de pôr fim a um modelo económico que nos trouxe até aqui. Mas esta é apenas uma parte da 'verdade'.

É óbvio que o plano de austeridade e as medidas brutais de aumento de impostos e corte na despesa têm efeitos muito negativos no andamento da economia e, logo, no emprego. A estrutura económica construída ao longo de três décadas assentou em negócios, empresas e sectores suportados artificialmente por um consumo interno apoiado no endividamento. E quando o Governo e a Oposição afirmam que a economia portuguesa tem de mudar de vida, tem de mudar os incentivos, e destiná-los aos sectores virtuosos da economia, está também a dizer que uma parte significativa do mercado de trabalho vai ser destruída, e não vai regressar.

O segredo - a resposta de um milhão de euros - é descobrir como é que as empresas - e não o Estado ou o Governo, porque esses não criam empregos - vão absorver uma mão-de-obra sem as qualificações necessárias, mesmo num momento de crescimento económico. Dito de outra forma, como é que cair no desemprego pode ser uma oportunidade, a que todos gostaríamos, e não a que existe, que é quase nula. Há uma alternativa, ou oportunidade como gosta de dizer Pedro Passos Coelho: emigrar, já. Mas os outros, os que não têm sequer esta solução, o que fazem?

A análise é, por isso, substancialmente mais complexa do que parece, como, aliás, deixa perceber uma análise fina do Banco de Portugal, publicada no último boletim anual de 2011 (ler caixa 4.1: Os fluxos de emprego e de trabalhadores no mercado de trabalho em Portugal). O mercado de trabalho em Portugal é dinâmico, mais dinâmico do que se poderia supor até há pouco tempo com as metodologias que eram usadas, mas é como o regime chinês: um País, dois sistemas, o sistema dos contratos a termo revela dinamismo e uma correlação directa com a actividade económica, seja a criar, seja a destruir empregos; e o sistema dos contratos sem termo, rígido e resistente às alterações de mercado. Nesta análise, aliás, chega-se à conclusão de que temos um mercado de trabalho - de contratados a termo, um quinto de todos os contratos por conta de outrem, mais dinâmico do que o de muitos países do euro e, em simultâneo, sabemos também que a legislação laboral é suficientemente flexível quando se trata de processos de despedimento colectivo e rígida quando o que está em causa são os despedimentos individuais.

É neste quadro, nesta matriz de elevada incerteza, que a avaliação de um ajustamento tão rápido do mercado de trabalho é tão difícil. E nas respostas que são necessárias. Porque se é verdade que a economia privada está a ajustar, com desemprego, não é claro se este ajustamento está a ser feito apenas do lado certo da equação, isto é, nos sectores que terão de desaparecer e ser substituídos por outros.

Há, no entanto, um dado menos incerto: o aumento do desemprego, que deverá manter-se nos próximos doze meses - até porque estes dados do primeiro trimestre são o espelho do que aconteceu meses antes - é consistente com o plano de ajustamento que está a ser seguido, e que, mesmo com nuances, vai ter de continuar a sê-lo, sob pena de mudarmos tudo, para tudo continuar na mesma.

 

publicado por concorrenciaperfeita às 16:17
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