Terça-feira, 22 de Maio de 2012

Mais Europa ou o fim da Europa

 

A crise da zona euro, nas suas várias dimensões, e as soluções que são apresentadas pelos líderes europeus, e não só, apontam no mesmo sentido, e, paradoxalmente, é ele próprio a razão de ser das desconfianças de quem hoje não vê uma saída: mais Europa, mais federalismo, menos soberania nacional.

No próximo dia 17 de Junho, a Grécia vai ter o referendo que o antigo primeiro-ministro grego Papandreus queria e que os líderes europeus travaram. As eleições, uma espécie de segunda volta, não serão apenas a escolha de um Governo, serão mais do que isso, serão uma decisão do povo grego sobre o seu futuro no quadro europeu.

A Democracia será, por isso, mais vivida do que nunca, porque os gregos estão confrontados com uma decisão que não tem meios caminhos, e já perceberam isso. Mesmo querendo maioritariamente o euro, se votarem em partidos que não querem cumprir os acordos europeus, e os respectivos planos de ajustamento económico, estarão a determinar a sua própria exclusão da moeda única e, consequentemente, uma austeridade impensável e com efeitos devastadoras na vida económica e social, seguramente na próxima década.

Aqui, a Europa, particularmente a do euro, tem também responsabilidades. Nos últimos dias, fez caminho a ideia de que é possível, e gerível, deixar cair a Grécia e os gregos, uma irresponsabilidade maior do que aquela que levou à falência do Lheman Brothers. Às sucessivas ameaças de responsáveis europeus, e até do FMI e de Lagarde, sucederam-se as promessas de fé sobre a vontade de manter a zona euro como existe hoje.

Claro, todos pedem crescimento económico, como se percebeu, por exemplo, das conclusões da reunião do G8, este fim-de-semana. Por contraponto à austeridade imposta por Merkel. Mas nem todos estão a falar do mesmo tipo de crescimento.

François Hollande, por exemplo, quer mais dinheiro, mais eurobonds e mais crédito para uma economia europeia que, valha a verdade, teve tudo isso em excesso na última década. Mas ninguém ouviu o novo presidente francês a aceitar discutir, por exemplo, a revisão da Política Agrícola Comum e os subsídios de que vive um sector tão relevante e tão sustentado artificialmente por fundos europeus. Ou, por exemplo, do aprofundamento do mercado interno, ainda por concluir, e precisamente por causa dos franceses.

Sejamos claros, instrumentos como as obrigações europeias - que na prática significam a partilha de risco entre um país como a Grécia e outro como a Alemanha - só serão possíveis com políticas nacionais não só coordenadas a nível europeu, mas decididas em Bruxelas. A banca, por exemplo, é um factor crítico de sucesso, ou de ruptura, da moeda única, como se percebe da corrida aos depósitos na Grécia ou dos buracos da banca espanhola. E só será possível garantir, em última análise, a estabilidade do sector através do BCE e das suas intervenções. Mas, para as tornar credíveis e sustentáveis, é necessário mais poder de decisão em Frankfurt, a sede do banco central europeu. Estamos, cidadãos europeus, dispostos a isto?

Os líderes europeus têm uma oportunidade única de fazer história, como o fizeram os pais fundadores deste projecto único. Já se percebeu, a construção europeia foi tão longe quanto o possível sem a consulta dos cidadãos europeus. O projecto político - de que o euro é a sua mais relevante decisão - foi construído aos solavancos, e os europeus foram sendo confrontados com decisões de facto, sem uma verdadeira participação. Este caminho, que teve méritos, esgotou-se, já não é possível ir mais longe, por isso, não são só os gregos que têm de ser confrontados com o seu destino. Somos todos nós.

publicado por concorrenciaperfeita às 16:19
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