Quarta-feira, 23 de Maio de 2012

Os jornais, os jornalistas e os poderes

Ciclicamente, os jornais e os jornalistas são notícia, regra geral por más razões. Desta vez, não muito diferente de tantas outras vezes, um ministro pressionou um jornal e uma jornalista porque não gostou das perguntas que lhe foram enviadas. É a vida, dos jornalistas e dos governos, diga-se. Verdade seja dita, é até estranho que um Governo, um poder económico ou outro interesse não pressionem ou tentem influenciar um jornalista ou um jornal.

Vejamos, os objectivos dos jornalistas e dos governos são, necessariamente, contraditórios e haverá um momento no tempo em que essa tensão será transformada em pressão. Se isso não suceder, se calhar, não há jornalismo. Não foi o primeiro episódio, não será o último, de um ministro ou de um presidente de uma empresa, ou até de um director de comunicação.

Nos tempos que vivemos, o aumento das pressões sobre jornalistas é directamente proporcional ao agravamento da crise económica e social e da tensão política. Porque os grupos de comunicação social estão fragilizados do ponto de vista financeiro e não há independência editorial quando os jornais são dependentes de ajudas, sejam elas de Governos ou de empresas. Os leitores são, sempre, a melhor garantia de que os jornais e os jornalistas resistem às pressões. Porque são exigentes, atentos e os maiores críticos. Ainda bem.

Pressões, essas, só conheço as legítimas. A decisão de um ministro ou de um presidente de empresa de não falar a um jornal ou a outro órgão de comunicação social é legítima. Seja qual for a razão, as fontes oficiais ou oficiosas têm, sempre, o direito de não responder, de não revelar factos ou dados em primeira mão. Como é legítimo que uma empresa decida não investir num jornal porque não concordam com a linha editorial de um jornal ou com as suas opções. E, sejamos claros, às vezes, até têm razões de queixa. Os jornais, os jornalistas, são tão corporativos como os outros, como os médicos ou os advogados, protegem-se, raramente erram e têm quase sempre razão. Não têm, são tão bons como o País, como os governos, as empresas e as elites, no melhor e no pior.

 

Coisa bem diferente é a acusação, que é feita a Miguel Relvas por parte do Público e da sua direcção. É, por isso, importante que a ERC não se distraia do essencial, e o essencial não é seguramente o jornalismo interpretativo do Público, porque, esse, os leitores julgam todos os dias, mas os termos exactos das pressões de um ministro sobre um jornal e uma jornalista. A ideia de que um ministro, com a tutela da comunicação social, ameaçou divulgar dados da vida privada de um jornalista não é uma pressão, é crime. A confirmar-se, o ministro-adjunto só pode demitir-se. Se não se confirmar, a acusação tem de ter uma resposta em tribunal.

Por isso mesmo, Miguel Relvas deve ser o primeiro a querer esclarecer o que se passou. Para que não restem dúvidas. Porque, se não o fizer, pode até permanecer em funções, mas estará politicamente fragilizado por um caso que já ultrapassou as barreiras da relação entre jornalistas e os poderes instituídos. Portugal precisa de um Governo forte, um Governo fraco só interessa aos poderes que com ele têm de negociar e que (ainda) comem à mesa do orçamento. E Miguel Relvas é uma peça-chave que, seguramente, Pedro Passos Coelho não pode dispensar. Que seja por boas razões.

 

PS: A privatização dos meios de comunicação social do Estado, e não só a RTP, ainda não chegou a este debate. Mas seria uma óptima oportunidade para o fazer.

 

publicado por concorrenciaperfeita às 20:10
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