Domingo, 27 de Maio de 2012

A mão que embala o berço

Enquanto a directora-geral do FMI, Christine Lagarde, se entretém a dizer disparates que pressionam ainda mais as eleições gregas, a resposta está, como é evidente, na Alemanha e na senhora Merkel. Não só da Grécia, como do futuro do euro, apesar da retórica do senhor Hollande e do novo poder político em França. A história da crise das dívidas soberanas na Europa e, particularmente, nos países do Sul, não começou em 2008, é preciso dizê-lo. Decorreu de um acordo tácito (ou terá sido mesmo escrito, declarado, formalizado?) entre os mais ricos e competitivos e os mais pobres e menos desenvolvidos. A Alemanha viabilizou a criação do euro por interesse próprio, económicos e políticos, e não apenas por razões de solidadariedade institucional. Porque os líderes alemães perceberam que tinham tudo a ganhar em entrar numa zona monetária que estava desequilibrada e que seria, como foi, um mercado para onde poderiam exportar todos os seus produtos. Mas, para isso, seria necessário financiar esses países, ajudá-los a pedir crédito para ter a capacidade de importar os carros alemães ou a tecnologia alemã. Foi uma espécie de 'mão que embala o berço', que nos adormeceu na nossa própria inconsciência e irresponsabilidade. Os países do Sul, como Portugal, queriam ser como os do Norte, como a Alemanha, e beneficiaram de crédito fácil para promover um desenvolvimento que teve tudo de insustentável. Sim, estamos melhor, muito melhor, do que há 25 anos, mas não soubemos parar. A culpa foi, por isso, também nossa, por isso não vale a pena, é aliás errado, atirar as responsabilidades para cima da senhora Merkel. Deixamo-nos embalar. Nesta fase, a Alemanha beneficia da crise, porque continuou a ser o que é, austera, frugal, competitiva, trabalhadora, mesmo com mercados preguiçosos ali ao lado, que incentivavam facilitismo e novo-riquismo. É por isso que a Alemanha é um porto de refúgio, é por isso que o dinheiro foge dos países do Sul, incluindo Espanha e Itália, para a Alemanha. É por isso que há investidores que estão dispostos a pagar à Alemanha para lhe emprestar dinheiro. Ao mesmo tempo que cobram juros insuportáveis aos países do Sul. Porquê? Porque desconfiam da sustentabilidade do euro, e os sinais que lhes são enviados assim o justificam. O endividamento dos países do Sul vai ter de ser reduzido, e reduzido à força, e isso não é (apenas) uma exigência da senhora Merkel. É (também) dos nossos credores. A austeridade está a ter consequências que, surpreendentemente, a 'troika' e o próprio Governo dizem ser... surpreendentes. Não são, particularmente o desemprego, mas a resposta está longe de ser apenas doméstica e com mais dinheiro. E não se resolverá tão cedo. A resposta tem de ser europeia, e as eurobonds (obrigações europeias), absolutamente necessárias, só podem ser o fim e não o início do processo. Será preciso mais mercado interno, menos subsídios, por exemplo, para a agricultura francesa, mais concorrência. A senhora Merkel sabe que, a prazo, a Alemanha tem tudo a perder com a implosão da zona euro. As empresas alemãs vão exportar para onde, se a Europa se transformar numa grande Albânia? 'A mão que embala o berço' vai continuar a ser a da Alemanha, que tem todo o interesse, económico e também político, em manter a zona euro. Seguramente a senhora Merkel não vai querer ficar para a história como a líder alemã que, pela terceira vez, e desta vez sem armas, destrói a Europa, a sua estabilidade e o seu modelo de desenvolvimento, que tem de mudar para que possa evitar a implosão.

publicado por concorrenciaperfeita às 22:12
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