Segunda-feira, 28 de Maio de 2012

Escrever direito por linhas tortas

 A banca portuguesa tem, seguramente, responsabilidades na crise que vivemos, a supervisão comportamental tem de ser reforçada, mas a forma como o Estado (leia-se o Governo, os partidos com assento parlamentar, até o Banco de Portugal) quer interferir na gestão bancária, seguramente por motivos bondosos, arrisca-se a ser mais um problema para as famílias e empresas, porque o crédito vai ficar mais caro e menos acessível.

O que é que se passou nos últimos doze meses? Primeiro, foram os organismos financeiros internacionais e o Banco de Portugal a reverem em alta os rácios de capital exigidos à banca portuguesa, e que os bancos e os respectivos accionistas foram cumprindo, com algum dinheiro próprio e muitas vendas de activos. Teve, ainda assim, a virtude de obrigar os bancos a limparem os seus balanços, mas não chegou, como seria de esperar, para lhes permitir o regresso aos mercados. Depois, foi o Governo a definir que o Estado teria de ser accionista dos bancos a quem emprestasse fundos para cumprirem os rácios 'core tier one', assumindo o objectivo de uma nacionalização encapotada, cujos resultados veremos. A alternativa, cuja viabilidade depende do Estado, são empréstimos a 8%. Finalmente, porque não poderiam ficar de fora, todos os grupos parlamentares descobriram uma insuspeita competência e conhecimento de gestão bancária para defenderem os mais desprotegidos.

Os desempregados têm de ser apoiados? As famílias mais carenciadas têm de ter apoios para ultrapassar esta fase difícil da crise? Sim e sim, mas estamos a falar de políticas sociais e não de estratégias bancárias. Se o Estado quer, e deve, proteger os mais vulneráveis - e sabe-se como o peso do crédito à habitação é tão pesado nos agregados familiares - tem de assumir ele próprio os respectivos custos. O Governo de Sócrates fê-lo, mas a linha de crédito criada para o efeito não teve grande sucesso. A crise não era a que é.

A estratégia que está a ser seguida pelos partidos com assento parlamentar, incluindo os partidos que sustentam o Governo, o PSD e o PP, seguem um caminho populista, que vende. Em defesa dos cidadãos que estão a pagar a crise, querem ser uma espécie de Robin dos bosques que rouba aos bancos (os mais ricos) para dar aos beneficiários de crédito à habitação, em dificuldades (os mais pobres). Mas há um pequeno problema. Todas estas medidas, desenhadas como estão a ser desenhadas, vão ter uma consequência, o custo do crédito vai ficar mais caro para todos os outros.

Uma das medidas é, aliás, emblemática dos incentivos errados que o PSD está a dar neste capítulo. Quem entrar em incumprimento no crédito à habitação, deve estar ano e meio sem pagar o empréstimo ou até quatro anos sem pagar juros. A medida é bondosa, mas alguém vai ter de a pagar. E, desconfio, serão os empregados, as empresas que exportam e que precisam de acesso a financiamento.

Os bancos são os primeiros interessados em renegociar contratos de crédito à habitação, para não ficarem com mal-parado, inevitável neste contexto económico. Mas a fúria legislativa dos partidos dá-lhes a desculpa perfeita para darem com uma mão a uns e tirarem com a outra, a outros.

 

 

publicado por concorrenciaperfeita às 21:30
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