Quinta-feira, 7 de Junho de 2012

Um conselho de um conselheiro sobre salários

 António Borges afirmou em entrevista ao Etv que a redução de salários não é uma política, é uma urgência, o que motivou críticas severas dos partidos da Oposição. Mas, a verdade, é que o '12º ministro' do Governo de Passos Coelho disse uma evidência, que não é repetida pelo Governo e pelo PS por mera táctica política.

A entrevista do conselheiro do Governo é de uma clareza cristalina. Sobre o passado, o presente e o futuro. "A diminuição de salários não é uma política, é uma urgência, uma emergência", mas as críticas, claro, revelam uma leitura selectiva e guiada do que foi dito. Borges também disse que a redução salarial "não pode ser de maneira nenhuma uma perspectiva de futuro".

Quem é que discorda da ideia de que os salários em Portugal cresceram mais do que a economia - e a produtividade - poderia pagar? A consequência é esta, a que estamos a viver, uma recessão e um aumento pronunciado do desemprego.

Em economia, não há milagres, e quem os vende está a enganar os portugueses. Borges disse a verdade. Portugal precisa urgentemente de aumentar a produtividade e competitividade relativamente aos seus concorrentes, e como a produtividade não se recupera de um dia para o outro, o aumento da competitividade só lá vai, no curto prazo, por factores como a redução salarial. Não, não estou a sugerir uma estratégia de baixos salários.

Qual é a vantagem? Tempo, tempo precioso para as empresas portuguesas. Antes do euro, a desvalorização cambial também resultava em cortes salariais, mas disfarçados e, por isso, menos dolorosos. Hoje, com o euro, não há outra alternativa. E evitá-lo, porque tem também custos sociais que o Estado tem de pagar, só tem uma consequência. Mais desemprego.

Borges tem, aliás, uma afirmação bem mais brutal, pelas consequências: o plano de ajustamento que está a ser aplicado não está a destruir a economia, está, antes, a limpá-la. A limpeza de uma economia corresponde, na prática, à destruição de sectores ineficientes e sustentados por um modelo de desenvolvimento que já não é possível manter, a crédito e suportado pelos favores do Estado, leia-se dos políticos. Sim, os sectores não-transaccionáveis estão em vias de extinção.

Um exemplo: a restauração. A falência de restaurantes e cafés - e temos um em cada esquina - é resultado directo da crise, da limpeza da economia, e não do aumento do IVA, porque, é fácil de perceber, este sector acabou por incorporar o agravamento de impostos. O eventual regresso do IVA à taxa anterior teria efeitos positivos no preço na restauração e faria regressar os clientes? Não e não.

A entrevista de António Borges, conduzida pela jornalista Tânia Madeira, é imperdível. Situa o País, o que nos trouxe até aqui, o que temos de sofrer, e é mesmo este o termo, para sairmos da crise. Claro, é mais fácil criticar Borges e centrar o discurso no crescimento, mesmo num país intervencionado e que tem poucos ou nenhuns instrumentos para o promover, que está descapitalizado, que tem empresários e empresas sem dinheiro e um Estado depauperado e que, no curto prazo, só teve engenho para aumentar impostos que pagam a sua gula.

 

publicado por concorrenciaperfeita às 20:35
link do post | comentar | favorito

mais sobre mim

pesquisar

 

Março 2014

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
15

16

24
25
27
28
29

30
31


posts recentes

Salgado recupera a espera...

A política destrói valor

Porque é que Cravinho ass...

Em inglês não soa melhor

A palavra de Cavaco

Uma mão cheia de nada

Acordo para uma saída cre...

Carta aberta ao 71º subsc...

O plano P, de Parlamento

Um acto falhado

arquivos

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

blogs SAPO

subscrever feeds