Terça-feira, 26 de Junho de 2012

O tabu da austeridade

 

Os portugueses gostam de tabus e Pedro Passos Coelho e Vítor Gaspar estão a fazer-lhes a vontade: a execução orçamental de 2012 vai ficar aquém dos objectivos acordados com a 'troika' e, agora, coloca-se, a possibilidade de surgirem novas medidas de austeridade. O Governo diz 'nim', a pior das respostas num ambiente que já tem incertezas que cheguem.

Vítor Gaspar já reconhece em público o que sabia e dizia em privado. As receitas fiscais vão ficar claramente abaixo dos valores inscritos no Orçamento do Estado para este ano, particularmente o IVA, o imposto que reflecte o andamento do consumo das famílias e da procura interna do País. E, apesar do cumprimento das despesas, particularmente da despesa com pessoal, a queda da cobrança de impostos deixa um buraco que só pode ter uma de três soluções: mais medidas de austeridade, mais medidas extraordinárias ou, simplesmente, uma derrapagem do défice público.

Os aumentos de impostos e as reduções de salários já foram brutais, e não deixaram (quase) ninguém de fora. Fernando Ulrich disse, a propósito, que ainda há sectores com margem para mais austeridade… infelizmente, não os identificou. Ainda assim, a austeridade é o preço necessário para Portugal voltar a ser um País independente, isto é, para regressar a um acesso aos mercados, que hoje lhe estão vedados. Não é, seguramente, o momento para suavizar as medidas, mas também é claro que o aumento da austeridade vai dar maus resultados. O risco de cairmos numa situação de austeridade recessiva está ao virar da esquina, nem sequer está afastado.

As medidas de carácter extraordinário - como foi a transferência dos fundos de pensões da banca em 2011 - poderia ser uma solução, mas terá sempre de ser negociado com a 'troika'. E, provavelmente, passaria sempre a ideia, aos credores, a quem queremos mostrar rigor e credibilidade, de que Portugal estaria a usar 'truques' para cumprir o objectivo de défice de 4,5%.

Sobra uma terceira via, que o ministro das Finanças recusa, e bem. O Governo não deve pedir à 'troika' uma flexibilização das metas acordadas no âmbito do programa de ajustamento, mas será provavelmente esta a saída. Porquê: a Grécia e a Espanha vão entrar em breve em negociação com as autoridades europeias e o FMI tendo em vista a definição de acordos de austeridade, mais ou menos graves; Portugal pode e deve esperar, e beneficiar com isso, desde que cumpra a execução orçamental da despesa, no fundo, o que está na esfera de decisão de Gaspar.

É neste quadro que o Governo tem de ter um discurso claro, contrário à ambiguidade das declarações que tem proferido. A mensagem, envergonhada, de que pode haver mais austeridade, se for necessário, mas que ainda é cedo para a antecipar, tem o peso e o efeito dos pré-avisos de greve na TAP: gera desconfiança e receio, mesmo antes de ser formalizada. E isso levará, necessariamente, as empresas e as famílias a suspenderem as suas decisões, particularmente de investimento. É a pior gestão das expectativas.

Portanto, das duas, uma: o ministro das Finanças prepara os portugueses para mais medidas de austeridade, e assume as consequências, ou põe essa solução de lado e põe fim à incerteza que está a gerar-se.

publicado por concorrenciaperfeita às 22:17
link do post | comentar | favorito

mais sobre mim

pesquisar

 

Março 2014

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
15

16

24
25
27
28
29

30
31


posts recentes

Salgado recupera a espera...

A política destrói valor

Porque é que Cravinho ass...

Em inglês não soa melhor

A palavra de Cavaco

Uma mão cheia de nada

Acordo para uma saída cre...

Carta aberta ao 71º subsc...

O plano P, de Parlamento

Um acto falhado

arquivos

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

blogs SAPO

subscrever feeds