Segunda-feira, 9 de Julho de 2012

Gaspar deveria estudar o caso Teixeira dos Santos

 

Vítor Gaspar é, provavelmente, o ministro mais respeitado do Governo aos olhos da opinião pública, reconhecidamente competente e visto como o garante do cumprimento dos objectivos financeiros, dito de outra forma, a justificação para tantos sacrifícios. Mas o ministro das Finanças deveria estudar a história política recente e o que sucedeu a Teixeira dos Santos.

Fernando Teixeira dos Santos foi, até 2009, o seguro de credibilidade da política económica e financeira do Governo de José Sócrates, o ministro-estrela, escolhido até para cabeça-de-lista do PS às legislativas desse ano. Teixeira dos Santos não foi a primeira escolha de Sócrates mas, depois de substituir Luís Campos e Cunha, ao fim de quatro meses de mandato, a opinião foi unânime: deveria ter sido ministro desde o início e não só é competente do ponto de vista técnico como tem sentido político. E a verdade é que, nos anos orçamentais de 2006, 2007 e 2008, conseguiu manter um estatuto e uma imagem que, nos anos seguintes, se degradou rapidamente. De candidato a governador do Banco de Portugal - o céu - passou a figura mal-amada do PS, do Governo e do País - o inferno.

A incapacidade política para pôr ordem na casa, a incapacidade para dizer 'não' a um primeiro-ministro obstinado, levaram-no a falhar quando não podia falhar, na execução orçamental de 2010. E nos sucessivos PEC que não foram cumpridos. Acabámos nos braços da 'troika'.

Vítor Gaspar foi uma escolha surpreendente, era mais conhecido e reconhecido internacionalmente do que em Portugal, pelos portugueses. Ao poder que lhe foi concedido pelo primeiro-ministro, Gaspar juntou um estilo singular que agradou e, mais do que isso, que gerou confiança. E nem as medidas mais duras de austeridade de que há memória, como o imposto extraordinário de 2011 ou o corte de subsídios de 2012, foram suficientes para pôr em causa o prestígio do ministro. Até certo ponto, Passos está hoje nas mãos de Gaspar como Sócrates esteve nas mãos de Teixeira dos Santos.

O ministro das Finanças definiu o objectivo dos objectivos, a redução do défice, e disse isso mesmo em diversas ocasiões. Portugal assinou um acordo com a 'troika' com vários objectivos e metas, dos quais o mais relevante, e quantitativo, era a redução do défice público. O País está a discutir o que será necessário fazer em 2013, mas ainda não é claro como o Governo vai cumprir as metas deste ano e, se não houver uma 'ajuda' da 'troika', admitindo mais tempo ou medidas extraordinárias, Gaspar terá já nas próximas semanas um teste à sua credibilidade.

Se Vítor Gaspar falhar a redução do défice público e, particularmente, se falhar o controlo da despesa, todos os sacrifícios que foram pedidos terão sido em vão. Gaspar, claro, seráfico, anunciaria mais medidas de austeridade, mais impostos, mas seria dramático. Não só seriam insuficientes, porque matariam a economia de vez, como toda a narrativa do Governo ficaria em causa. A começar pelo papel e força de Gaspar, no Governo e perante o País.

 

publicado por concorrenciaperfeita às 21:19
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