Segunda-feira, 3 de Setembro de 2012

Um ensaio sobre a cegueira dos portugueses

 Pedro Passos Coelho e António José Seguro regressaram ontem de férias, fizeram bons discursos, mas deveriam ter esperado mais duas ou três semanas, e os resultados, e as negociações, com a 'troika', que está em Portugal, mas não está de férias.

Como no romance de José Saramago, a cegueira alastra e o que fica é a palavra. É mais ou menos assim que estão hoje os portugueses. Depois de um ano de ajustamentos, e de um plano da 'troika' que tem sido levado à letra, houve uma evolução relevante, e mais relevante do que todas as outras: saímos do estado de bancarrota iminente, e isso não é pouco. Mas são muitas as dúvidas que se colocam, porque a correcção dos desequilíbrios - que ainda existem - está a ser feita, mas tem consequências no curto prazo, e que se percebe, desde logo, no desemprego e na redução do défice público. Ora, há hoje uma pergunta que se sobrepõe a todas as outras, de curto prazo e não de longo prazo: que medidas adicionais o Governo vai adoptar para cumprir as metas acordadas com a 'troika'.

A esta pergunta, Pedro Passos Coelho não respondeu, porque não pode, e António José Seguro não respondeu, porque não sabe.

O primeiro-ministro garante que não vai mudar de rumo, e a razão está do seu lado quando diz que em programas deste tipo, a menor hesitação corresponde a um falhanço. A reestruturação da economia está a fazer-se, com dor, as reformas estão a avançar, e vão ter, espera-se, benefícios a prazo. Mas o problema é que o Governo já falhou num dos indicadores que considerava essenciais, a meta do défice. E, agora, mesmo mantendo a retórica, Passos Coelho vai aceitar, porque não tem alternativa, mais um ano para chegar aos 3%. E mais tempo poderá corresponder a mais dinheiro, se os mercados se convencerem que Portugal não tem condições para regressar aos mercados em Setembro do próximo ano.

Cavaco Silva, o mais assertivo nas intervenções de fim-de-semana, deu a mão ao Governo, ao dizer que o problema não são umas décimas a mais na meta do défice. Teria razão, se toda a credibilidade da política orçamental, e dos sacrifícios, não tivesse assentado em números bem definidos, e negociados. Agora, é preciso explicar o que já deveria ter sido explicado, mas vai tarde, e António José Seguro vai, e bem, capitalizar. Vivemos, pois, um ensaio sobre a cegueira, que só se dissipará quando forem divulgado os termos do acordo que o Governo fizer com a 'troika' nesta quinta avaliação.

O primeiro ano de Governo de Pedro Passos Coelho vai longo, e ainda não terminou. Ultrapassa os 12 meses do calendário e vai prolongar-se pelo menos até à apresentação do Orçamento do Estado para 2013 que, como se percebeu este fim-de-semana, também vai ser o primeiro exercício da coligação PSD/CDS sem o apoio do PS e de Seguro. Será, de alguma maneira o momento adequado para avaliar se Pedro Passos Coelho e Vítor Gaspar - e António Borges - estão mesmo a mudar o País, de forma estrutural, ou apenas a mudar, para que tudo fique na mesma.

publicado por concorrenciaperfeita às 08:00
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