Quarta-feira, 5 de Setembro de 2012

o outro lado da moeda

A crise do euro já não é a que era, escrevi ontem neste espaço, o que está a motivar novos modelos de intervenção do Banco Central Europeu (BCE) como ‘lender of last resort’ do sistema financeiro e dos Estados, particularmente da Europa do Sul. Mas não chegam, porque a fragmentação da zona euro está em curso, medido pelo aumento da divergência dos custos de financiamento das empresas entre os vários países da moeda única. O Financial Times alerta para esta realidade, na edição de ontem, mas não era necessário ler em inglês. Bastaria ter lido o que escreveu Vítor Bento no Diário Económico no passado dia 6 de Janeiro. Intitulado "Uma perigosa falácia", o conselheiro de Estado põe em causa o que tem sido a explicação dos banqueiros para a diminuição na concessão de crédito: falta procura de crédito ou o preço da oferta é que é insuportável? Ao dilema, Bento responde de forma inequívoca. Este volume de crédito, menor, a este preço, maior, só pode resultar na redução da procura. Porque é que isto é um problema? Pela mesma razão que Vítor Gaspar decidiu convocar os banqueiros para uma reunião para discutir o financiamento da economia. Como se já não bastassem as restrições orçamentais e a necessidade de reduzir o défice público, a economia está a pagar a incapacidade de aceder a crédito a um preço suportável, leia-se, que financie negócios que podem gerar a rentabilidade necessária para, no mínimo, pagar esses empréstimos. A discussão, em Portugal, voltou a estar centrada no binómio mais tempo/mais dinheiro. É perverso, porque induz uma ideia de que isso resolverá os problemas e desequilíbrios que o País tem. Errado. Se o financiamento não der uma volta, mais tempo será apenas o prolongamento da austeridade, que nos vai cansar, mas não vai mudar nada. Porque se o Estado, as empresas e as famílias estão a ajustar a sua prática financeira, a economia está na mesma, tem os mesmos problemas e dificuldades. Os banqueiros garantem que não há procura de crédito para investimento, mas é evidente que esta procura é uma consequência do volume de crédito disponível e do seu preço, e não o contrário. Está aqui a falácia. Os banqueiros estão, hoje, na defensiva, tem os seus próprios problemas e não arriscam. Percebe-se, mas alguma coisa tem de ser feita. O negócio do risco tem de regressar à prática da banca. A proposta de utilização de seis mil milhões do fundo de recapitalização para criar um fundo de capital em conjunto com os próprios bancos que seja utilizado para comprar activos de áreas problemáticas que estão nos seus balanços é uma alternativa. Mas exige-se que esses activos - particularmente na área do imobiliário turístico e construção - sejam passados, mesmo, a preço de mercado, corrigidos da crise. Ao mesmo tempo, o Governo tem de fixar objectivos de crescimento da concessão de crédito, que, caso não sejam cumpridos, têm de ter consequências no custo do apoio à recapitalização. Esta ou outra proposta, alguma delas tem de passar à prática, rapidamente, sob pena de Portugal ficar bloqueado por uma política de austeridade que não tem o outro lado da moeda.

publicado por concorrenciaperfeita às 08:00
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