Sexta-feira, 14 de Setembro de 2012

Passos tem a chave da crise política

Pedro Passos Coelho abriu há exactamente uma semana uma porta que vai ter de fechar, sob pena de lançar o País numa crise política pouco mais de um ano depois de ganhar as eleições legislativas. E tem até ao próximo dia 15 de Outubro para o fazer.

O primeiro-ministro falou primeiro, o ministro das Finanças falou depois. Ao País e em entrevistas a órgãos de comunicação social, Passos e Gaspar tentaram explicar-se, mas os portugueses continuam sem perceber como chegamos até aqui, o que sucedeu nos últimos 12 meses para o Governo ter falhado na execução orçamental, um falhanço proporcional à violência do ataque fiscal que foi proposto para o Orçamento do próximo ano.

A verdade é que o Governo ainda não deu todos os números, os de 2012 e o que se exige para 2013. Porque as medidas de carácter fiscal ultrapassam em muito a redução do défice pré-anunciada, em torno dos 5,5% para 4,5%, o novo objectivo acordado com a 'troika'. Das duas, uma. O défice público é mais elevado do que sabemos ou o Governo quer ter almofadas orçamentais para o que aí vem. Qual delas a pior?

As propostas de Passos e Gaspar já conseguiram uma coisa: unir patrões e sindicatos, unir o eleitorado de esquerda e o eleitorado de direita. Mas conseguiram outra coisa: pôr em causa um valor crítico para o sucesso do acordo de ajustamento, o consenso político e social, desde logo interno ao Governo, como se percebe pelo silêncio de Paulo Portas. António José Seguro, afinal, não vai esperar pelo orçamento e já anunciou o voto contra e, até, uma moção de censura. E o regresso de uma luta de classes entre trabalhadores e empresas, defendendo um modelo de financiamento das empresas pelos trabalhadores, para que o emprego cresça 1% (!???) nos próximos dois anos.

O Governo não anunciou apenas o experimentalismo económico, ensaiou um experimentalismo político difícil de perceber. A autoridade política do Governo está em causa - a petição lançada pelo Diário Económico contra um novo aumento de impostos já tem mais de 43 mil assinaturas -, a coesão política da coligação está ameaçada, o apoio político do maior partido da Oposição perdeu-se, e os portugueses manifestam-se nas ruas contra a política do Governo.

Pedro Passos Coelho não tem outra alternativa senão a de corrigir as medidas já anunciadas. Mas há problemas. Por um lado, desta vez não foi um consultor a testar os portugueses para uma decisão. Depois, vai ser necessário convencer a 'troika' de que um programa revisto e aumentado que acabou de ser negociado tem de ser renegociado antes mesmo de entrar em vigor. Finalmente, ainda mais difícil, será necessário encontrar medidas alternativas. Do lado da despesa. Porque, convém deixar claro, a alternativa a aumento de impostos tem custos, a reforma do Estado e o corte da despesa pública são dolorosas. Mas libertam a economia do Estado. Os portugueses aceitaram as medidas de austeridade para 2012, perceberam que tinham de corrigir os seus comportamentos, aceitaram um empobrecimento. Mas exigem o que o Governo apresente resultados.

A alternativa a um recuo é pior, desde logo para o País. Perder-se-á um ano de sacrifícios e de esforço. E tudo recomeçará.

 

PS: Cavaco Silva não poderá prolongar o seu silêncio por muito mais tempo. A magistratura activa tem de ter uma tradução prática.

publicado por concorrenciaperfeita às 13:13
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