Quinta-feira, 27 de Setembro de 2012

Um ponto de não-retorno

A Europa do euro já está fragmentada do ponto de vista económico há pelo menos dois anos, mas os líderes europeus e particularmente a senhora Merkel desvalorizaram as suas consequências. Seguiu-se a fragmentação financeira e o acesso a financiamento, a fragmentação dos mercados de capitais e a fragmentação social que está a levar os europeus às ruas. E, agora, só falta mesmo a implosão de um sistema político que foi construído há mais de 50 anos para evitar o regresso da guerra, que vem já a seguir. O nosso problema, em Portugal, parece até pequeno se comparado com a dimensão das manifestações em Espanha e na Grécia. Não é, mas remete-nos para a necessidade de voltar a olhar, neste contexto tão difícil, para o que está a suceder na Europa. Na edição de ontem, o grande repórter do Diário Económico em Bruxelas, Luís Rego, escreveu um texto de opinião que vale a pena ler. E registar. A Europa, escreveu, está a viver o 'dejá vu', a repetição de modelos e de respostas que deram maus resultados. E o burro - leia-se, nós, os mal-comportados do Sul que precisam de aprender uma lição - continuam a levar com um pau sem verem uma cenoura à sua frente. Os governos como o de Pedro Passos Coelho vivem o dilema da austeridade. Pressionados pela necessidade de reequilibrarem as contas públicas e externas, a bem da saúde futura dos respectivos países, e da sua autonomia e independência financeira, estão confrontados com a resistência dos cidadãos. Isto é, da própria Democracia. Estão a pressionar os seus países a adoptarem planos de ajustamento, de empobrecimento, que deveriam ser organizados, mas já estão descontrolados. Hoje, sabemos, com o Orçamento que se prepara para o próximo ano, não é preciso ser adivinho, nem economista, para antecipar, outra vez, o falhanço de todos os objectivos de política económica. A recessão vai ser maior do que aquela que se antecipa, o desemprego vai continuar a aumentar, o objectivo de défice público é virtualmente impossível de atingir. Como é que este Governo sobreviverá a mais um ano? E o País? Em Espanha, aqui ao lado, o cenário é ainda mais negro. Passos Coelho foi capaz de governar cerca de um ano e meio sem contestação nas ruas, avançou com reformas estruturais relevantes e pressionou o ajustamento do sector privado. À força. Mas, como o sector público continua exactamente na mesma, vai agora pedir mais sacrifícios, mais impostos, além dos necessários se o Governo tivesse feito a sua parte do negócio no corte da despesa. E, agora, será difícil fazê-lo. Mariano Rajoy perdeu o pé ao fim de três meses de governação. Herdou um País endividado, mas foi, desde cedo, o rosto da crise. É também uma lição para a Direita europeia, a mais conservadora, a que prometeu mais rupturas com o passado. A Grécia fala por si. A senhora Merkel não pode ser responsabilizada pelo que os governos grego, português e espanhol fizeram na última década. Mas pode e deve ser responsabilizada pelo que não fez nos últimos dois anos. A chanceler alemã levou longe demais a política da punição e criou, ela própria, as condições para tornar impossível o ajustamento que exige aos governos e que se exige. A fragmentação da zona euro está em marcha há dois anos, mas está a chegar a um ponto de não-retorno, e já não é nos mercados, é nas ruas. Perigoso, porque, aí, nas ruas, não haverá um 'Super-Mário' que nos salve.

publicado por concorrenciaperfeita às 08:00
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