Segunda-feira, 5 de Novembro de 2012

Queremos continuar no euro?

Sucessivamente, os governantes colocam a si mesmo e aos portugueses as perguntas erradas que, como é evidente, só poderão resultar em respostas erradas e em decisões políticas erradas. No estado a que chegamos, no estado a que chegou a zona euro, a questão central não é se queremos ou não refundar o memorando - o que é isso? -, é se queremos continuar no euro. Passada mais de uma década sobre a criação da moeda única, é fácil voltar atrás e dizer que não deveríamos ter embarcado no que hoje alguns - entre os quais está João Ferreira do Amaral - classificam de aventura económica que foi o euro. É fácil, mas é errado, porque o problema não é o euro, o problema foi o que os países, particularmente os do Sul, fizeram com ele. Houve, é certo, uma profissão de fé sobre a capacidade e força de um Pacto de Estabilidade que começou por ser violado pela Alemanha e pela França. Faltam mecanismos e instrumentos de controlo mútuo, que os países nunca quiseram, porque isso era o início do que se discute hoje, a partilha de mais soberania, a transferência de decisões dos parlamentos nacionais para a esfera comunitária. De uma maneira ou de outra, vamos lá parar, ou, pelo menos, aqueles que quiserem continuar a beneficiar de uma moeda e de um espaço monetário únicos, com situações de partida muito diferentes. A liberdade de um Estado acaba quando põe em causa a liberdade dos outros. A zona euro está à procura desse equilíbrio. Portugal não soube viver no euro, não soube aproveitar as vantagens de um projecto político solidário entre os países mais ricos e os mais pobres, que transferiu milhares de milhões de euros de fundos comunitários. Não soube aproveitar uma zona monetária única que significou uma redução brutal dos juros, para o Estado, para as empresas e para as famílias. Gastámos essa almofada e as outras, as que resultaram de empréstimos dos credores que acreditavam que nenhum dos Estados do euro poderia entrar em ‘default', mesmo que tivesse as suas contas públicas e externas completamente desequilibradas. Esta crise acabou com esse mito. E nem sequer vale muito a pena insistir na tese de que a crise financeira começou nos EUA, no ‘subprime'. Isso servirá para a história. Apenas. Agora, neste momento político e social do País, há uma pergunta-chave, que o Governo deveria ter colocado no primeiro dia em funções ou, até, antes, quando se propôs a eleições: queremos continuar no euro? É esta a questão que está subjacente à refundação do memorando de entendimento. A resposta a esta pergunta vai dizer-nos qual é a dimensão da reforma do Estado e qual é o regime económico que queremos aceitar e estamos dispostos a fazer. Para nos mantermos no euro, temos de mudar de vida, rapidamente. Simplesmente, não será possível financiar um défice externo e um défice público sem credores que não acreditem na solvência do País, mas também não será possível reduzir esses desequilíbrios com um desemprego a crescer e uma situação social de pré-ruptura. Para reequilibrar as contas externas e públicas, é preciso outro País, outra Constituição, outro regime económico, outro contrato social. Claro, se estivermos dispostos a sair do euro, os desequilíbrios vão ter de ser corrigidos na mesma, com outras consequências, com outras receitas, e num outro tempo. Consequências, receitas e tempo piores, muito piores. Porquê? Porque agora há uma ‘troika' que nos impõe um ritmo mas garante um financiamento que paga os nossos défices, fora do euro nem isso teremos, estaremos entregues a nós próprios. O Governo e os partidos da coligação, por um lado, e o PS, por outro, bem podem entreter-se a discutirem responsabilidades. Quem vai ficar mal na fotografia? Todos. A emergência é tão urgente que a realidade vai ultrapassá-los, e os portugueses não lhes perdoarão a incapacidade de se entenderem para reformar um Estado que não pode ser mínimo, mas tem de ser sustentável, que não pode ser um actor activo nos negócios, mas um promotor e regulador da criação de riqueza.

publicado por concorrenciaperfeita às 11:40
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