Quinta-feira, 8 de Novembro de 2012

Quem são os bodes expiatórios?

 

O problema da economia está nos bancos ou nas empresas? A resposta a esta questão - central, em particular desde que Portugal assinou um memorando de entendimento com a 'troika' - tenta encontrar responsáveis para um País estagnado e com um nível de investimento historicamente baixo. O problema é que estão, ambos, a tomar as decisões correctas.

Os bancos não emprestam e as empresas não pedem emprestado. São duas verdades que só na aparência sugerem uma contradição. Para os bons projectos há sempre financiamento, dizem os banqueiros, e ainda ontem, no X Forum da Banca do Diário Económico, Fernando Ulrich levava esta verdade ao limite. "Eu quero dar crédito, eu imploro por projectos". O problema é que os bancos não podem conceder crédito a um preço inferior ao do seu próprio financiamento. Mas, a este preço, não há projecto que resista, não há rentabilidade que pague spreads de 5% ou mais em cima da euribor e, por isso, os gestores e empresários dizem que não têm acesso a capital.

Como é que se pode desatar este 'nó górdio'? Não será, seguramente, com um novo banco de fomento ou de desenvolvimento, ou de ambos. A ideia é bondosa, tem até alguns bons exemplos internacionais, no Brasil ou na Alemanha para citar dois casos. Mas nascerem em contextos económicos e financeiros bem diferentes daquele que existe hoje em Portugal e na zona euro. Primeira dúvida? Como se financia esse banco, e a que preço? Os bancos portugueses têm hoje duas fontes de captação de recursos, os depósitos e o BCE, e um lastro de crédito a baixo preço e mal-parado que explicam os juros que são cobrados no crédito concedido a empresas e particulares. Ora, se o novo banco se financiar da mesma forma, não terá condições para cobrar outro preço, mais baixo.

A alternativa, dizem os defensores deste projecto, passa pelos fundos comunitários. Mas, se é essa a fonte de financiamento - e partindo do pressuposto que não será uma instituição para financiar projectos inviáveis porque, desses, já tivemos a nossa dose - porque é que não é usada a rede bancária que existe hoje. O BPI, por sinal, até tem experiência de banco de fomento, porque comprou um, o antigo BFE.

A gestão de risco da banca hoje é emprestar sem risco, mas quem pode criticar as administrações dos bancos por protegerem os seus balanços e o dinheiro investido pelos seus accionistas? A verdade é que não há uma solução milagrosa, há decisões políticas que podem facilitar: Ricardo Salgado apontou o caminho das privatizações, a melhor, talvez mesmo a única forma, de garantir a entrada de capital estrangeiro hoje em Portugal no curto prazo. É a venda de anéis que hoje, na esfera pública, valem muito pouco.

 

E há, sobretudo, condições estruturais. Quais? É preciso voltar aos mercados tão depressa quanto possível, é preciso normalizar as condições de financiamento da economia portuguesa, hoje muito diferentes das de outros países, para muito pior. A fragmentação do sistema financeiro do euro, de que fala Vítor Bento.

Sim, com mais 'troika' ou menos 'troika', é preciso convencer os nossos credores de que somos pessoas de bem, que queremos pagar as nossas dívidas e, mais do que isso, que temos condições para fazê-lo nos prazos acordados. Esta condição, estrutural e essencial, exige uma ideia de País, que o Governo tenha e que os portugueses percebam, e um quadro económico e social de médio prazo que permita a recuperação da confiança dos empresários para investirem e dos bancos para emprestarem. Porque não haverá crescimento económico sem investimento, de empresas portuguesas, mas sobretudo de investimento estrangeiro.

publicado por concorrenciaperfeita às 22:10
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