Terça-feira, 13 de Novembro de 2012

De Berlim a Luanda

A política externa portuguesa está, definitivamente, no centro do debate político e, num País que balança entre ser mais europeu ou atlântico, não deixa de ser relevante que Berlim e Luanda sejam hoje, no mesmo dia, as capitais de que se fala. Por causa da visita de Angela Merkel e dos recados de José Eduardo dos Santos. Percebe-se porquê: não há dinheiro. O Governo português precisa de ouvir e falar com os dois.

A visita da chanceler alemã não poderia surgir em melhor momento. Ao contrário do que se vai ouvindo - mas que, felizmente, tem menos repercussão nas manifestações de rua do que alguns esperavam e desejavam - é absolutamente contraproducente hostilizar Merkel. Não por causa de uma subserviência provinciana, mas porque esta visita ocorre num momento crítico da aplicação do acordo de entendimento com a 'troika', que é necessário ajustar a uma nova realidade, externa e interna. E não só: porque a união bancária é fundamental para diminuir a fragmentação do financiamento das economias através do sistema bancário e porque as negociações para as perspectivas financeiras de 2014/2020 estão neste momento a decorrer nos corredores da diplomacia europeia e em Bruxelas.

Se queremos convencer a chanceler alemã da necessidade de corrigir um caminho que está esgotado e já produziu os melhores resultados que pode produzir, num ajustamento rápido que, a partir de agora, só pode voltar a levar-nos ao precipício, se esperamos que Merkel aceite os alertas que há semanas vão sendo feitos pelo FMI, este é o momento adequado. Se queremos convencer a Alemanha de que merecemos uma nova oportunidade nos fundos comunitários, depois de milhares de milhões recebidos e que acabaram numa intervenção externa, este é o momento.

Não foi a chanceler alemã - ou a BMW e a Siemens, como se depreende do vídeo de Marcelo Rebelo de Sousa que poderia ter sido subscrito por Francisco Louçã - que nos trouxe até aqui. A responsabilidade de Merkel é outra, é a de demorar a tirar a Europa e a zona euro da crise em que está mergulhada desde meados de 2008. A chanceler tem, apesar de tudo, cedido à realidade para segurar uma moeda única que é também um factor que explica o sucesso alemão.

Portugal precisa da Alemanha, como precisa de Angola, porque somos europeus e 'atlânticos', por justaposição e não por contraposição. Mas, num caso e noutro, sem perder uma soberania que já teve melhores dias, sem vender a dignidade por euros e kuanzas, sem hipotecar a história. Ora, a reacção do Jornal de Angola a uma notícia do Expresso sobre a abertura de inquérito por parte da Procuradoria-Geral da República a três altas figuras angolanas, nomeadamente ao vice-presidente Manuel Vicente, é, no mínimo, um alerta. No máximo, uma ameaça intolerável.

Este processo está, ainda mal explicado. A nova PGR, Joana Marques Vidal, tem de explicar porque é que decidiu abrir um inquérito com base numa denúncia contra um vice-presidente de outro Estado soberano. Porque, caso contrário, tudo é permitido. Cavaco Silva, que terá chamado a PGR a Belém, não pode nem deve envolver-se no processo, por todas as razões institucionais e de separação de poderes e porque se sabe da sua simpatia por Angola. Finalmente, a resposta do Jornal de Angola é, não nos enganemos, uma resposta do Estado angolano que tem um destinatário directo, o Estado português. E muitos destinatários indirectos. É, também, uma mistura do que é a justiça, os negócios privados e os interesses públicos que já deveria ter sido ultrapassada.

As relações entre Portugal e Angola tardam em normalizar-se, em atingir um estádio de maturidade. Haverá, seguramente, muitos portugueses que Hoje, Portugal precisa mais de Angola do que o contrário, mas este é apenas mais um ciclo. Haverá muitos portugueses que convivem mal com a necessidade de recorrerem a um País que foi, outrora, uma colónia. Não são a maioria. Haverá muitos angolanos que, ainda hoje, procuram um ajuste de contas histórico. Vão perder os dois.

publicado por concorrenciaperfeita às 08:08
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