Quarta-feira, 14 de Novembro de 2012

A realidade nunca é doentia

O governador do Banco de Portugal demorou apenas 24 horas para mostrar que, afinal, o debate sobre os riscos e incertezas em torno das previsões económicas do Governo para 2013 é tudo menos doentio, como é classificado por Pedro Passos Coelho. A recessão económica no próximo ano será de 1,6% e, face aos dados que já existem hoje, podem até considerar-se optimistas. Porque os riscos são ainda maiores, os internos e os externos.

As previsões de Carlos Costa - as primeiras independentes depois da apresentação da proposta de Orçamento do Estado para 2013 - não surpreendem pela negativa. O aumento brutal de impostos só poderia ter um impacto significativo no consumo das famílias, variável subestimada nas previsões de Vítor Gaspar. Carlos Costa antecipa uma quebra de 3,6%, ainda assim inferior à estimativa de uma redução de 5,8% este ano. Pior mesmo é a previsão de queda do investimento, que só se pode explicar pela incapacidade da banca de financiar as empresas a um preço viável. Em três anos, o investimento privado cai 35%!

O Banco de Portugal conta com um comportamento positivo das exportações líquidas para amortecer o afundanço da procura interna, mas este é outro factor de risco, como se percebeu já pelo andamento das exportações em Setembro. As empresas exportadoras estão a ganhar quota de mercado, e a viver para além da austeridade, mas 2013 é um ano de virtual estagnação da zona euro, que continua a consumir cerca de 70% das nossas vendas. E não há mercados emergentes que cheguem para compensar.

Claro, no meio disto, o ajustamento está a fazer-se e, como sublinha Carlos Costa, é necessário para normalizar as condições de financiamento da economia portuguesa. Mas a que custo? Dito de outra forma, como é que a economia portuguesa vai estar quando e se a situação de acesso a financiamento regressar à normalidade? O governador deixa saber o que pensa.

O ministro Vítor Gaspar está a jogar tudo, toda a sua credibilidade e do próprio Governo, na execução do orçamento de 2013, e aposta tudo no aumento de impostos. Que, este ano, registou resultados desoladores e que ainda não são totalmente conhecidos do ponto de vista orçamental. O défice real de 2012 será no mínimo de 6,2%. Será mesmo só isto?

A redução do défice público é essencial e, por isso, não há alternativa à austeridade. Mas há alternativa a esta austeridade. Vale a pena citar o próprio relatório do Banco de Portugal: "A opção pelo aumento das receitas como modo de atingir as metas orçamentais reduz o volume de recursos disponíveis no sector privado, com consequências adversas sobre as decisões de investimento e o crescimento económico futuro". Não é necessário dizer mais nada.

O Governo chega tarde, e a más horas, à discussão sobre a refundação do memorando, à reforma do Estado, à redução da despesa. Chega por impossibilidade de fazer de outra forma, por obrigação de cumprir um memorando de entendimento. E isso vai tornar-se ainda mais evidente quando a execução orçamental do próximo ano se revelar impossível. E só ultrapassável com um novo quadro europeu. Mais vale tarde do que nunca. Porque a realidade nunca é doentia.

publicado por concorrenciaperfeita às 08:18
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