Domingo, 16 de Dezembro de 2012

A colonização dos media

A Newshold, empresa que controla o jornal ‘Sol’, anunciou formalmente a disponibilidade para concorrer à privatização da RTP, mas dificilmente poderia tê-lo feito de pior forma. Vitimizou-se e acusou, com argumentos primários e a tentar capitalizar um ambiente tenso entre Angola e Portugal. Mas nada esclareceu.

O comunicado de 16 páginas que foi divulgado na quinta-feira à noite e publicado na íntegra no ‘Sol’ e no jornal ‘i’ – aparentemente também controlado pela empresa angolana  é, aliás, um tratado. É, em primeiro lugar, um tratado de desinformação, desde logo sobre a sua estrutura accionista. A Newshold e a sua gestão – Sílvio Madaleno e um ex-jornalista Mário Ramires sabem que não é a nacionalidade que está em causa. O que releva é a transparência, sejam os capitais angolanos ou portugueses, brasileiros ou espanhóis. Sabem-no melhor do que ninguém porque nunca estiveram disponíveis para conceder uma entrevista sobre a origem do capital e o seu projecto. O que não deixa de ser irónico, tendo em conta que são um grupo de comunicação social.

Portugal, a maioria dos portugueses, já ultrapassou, e ainda bem, os tiques colonialistas que se podem ler neste comunicado, que cheira a 1975, nem sempre pelas melhores razões, às vezes por necessidade. Mas está ultrapassado, como se constata, por exemplo, do negócio que, por coincidência, nessa mesma sexta-feira foi anunciado entre a Sonae de Paulo Azevedo e Isabel dos Santos, que controla a Zon, e que vai permitir criar uma empresa com dimensão e músculo. E tantos outros negócios, de empresas portuguesas em Angola e de empresas angolanas em Portugal. E, por isso, não colhem a vitimização e as acusações, os fantasmas que não existem, caminhos que servem apenas para distrair do essencial. A Newshold chega a relacionar as notícias sobre processos judiciais de um dos accionistas – presumivelmente Álvaro Sobrinho, presidente do BESA e irmão de Sílvio Madaleno – à tentativa de liquidação do grupo, como se o próprio ‘Sol’ não fizesse notícias sobre processos judiciais. Faz processos de intenção e mistura comunicação social, justiça e outros sectores não identificados. Mas não esclarece o essencial: quem é, quem são os accionistas da Newshold? Os últimos beneficiários das holdings, pelo menos uma no Panamá, que controlam a empresa em Portugal que quer concorrer à RTP?

Quando se fala de comunicação social e, particularmente, de uma televisão, a identificação do último beneficiário deveria ser obrigatória, por lei, e aqui, o PSD e o CDS não ficam bem na fotografia. Por acto ou omissão, contribuíram para este ambiente pantanoso em torno da privatização da RTP ao chumbarem a proposta de António José Seguro. Como se não bastasse o que se sabe. A privatização da RTP é necessária, também, para a regeneração do sector, com portugueses ou angolanos, mas tem de estar blindada, em primeiro lugar, a quaisquer suspeitas de falta de transparência.

A CMVM fez o que tinha a fazer: ‘obrigou’ a Newshold a revelar a sua estrutura accionista. Ficaremos todos à espera da transparência de que falam os administradores da Newshold em Portugal, para que não surjam dúvidas, legítimas, sobre os verdadeiros ‘donos do capital’, para garantir uma colonização saudável, sem atender a nacionalidades, dos media em Portugal.

 

PS: O jornal ‘i’ fez uma leitura guiada do comunicado da Newshold e identificou o Económico e o seu director como responsáveis dessa iniciativa. O Económico, para que conste, não se deixará influenciar por tentativas de pressão, públicas ou privadas. Com a legitimidade de ter, há anos, uma parceria com o semanário angolano ‘Expansão’, que ajudou a lançar, e que tem a sua redacção em Lisboa no Económico. Enquanto o Etv está na operadora ZAP e passa em Angola.

publicado por concorrenciaperfeita às 23:27
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