Terça-feira, 5 de Fevereiro de 2013

Quando os resultados não interessam

Ricardo Salgado apresenta hoje as contas do Banco Espírito Santo (BES) relativas a 2012, mas os resultados não são a principal notícia que se espera da conferência de imprensa. É, antes, a resposta às suspeitas que foram lançadas pelo Banco de Portugal sobre a idoneidade do presidente do banco por causa das correcções às declarações em sede de IRS. O governador do banco central, Carlos Costa, estava sob pressão por não ter ainda feito nenhuma diligência, que se conhecesse, em relação aos casos, diferentes, que foram divulgados nas últimas semanas e que envolveram a cúpula de poder do BES, três dos nomes mais relevantes na estrutura de decisão de um grupo financeiro que era, até agora, intocável. Deixou de o ser, e bem, e as acusações a José Maria Ricciardi e Morais Pires por causa das suspeitas de 'inside trading' relativo a dispersão de capital da EDP Renováveis em 2008, e a chamada de Salgado ao DCIAP, na qualidade de testemunha, por causa do caso Monte Branco, abriram, nos dois casos, uma porta que se pensava ter a segurança de um cofre-forte de um banco. O braço da justiça, afinal, é longo e chega a todo o lado. Até ao BES e a Ricardo Salgado, o homem mais poderoso, conhecido, com a reverência que o próprio recusa, por 'DDT, o Dono Disto Tudo'. Mas é preciso haver acusação e prova em tribunal, coisas que não estão feitas no primeiro caso e nem sequer estão em causa no segundo. O caso de Ricardo Salgado é mais grave. O Banco de Portugal não só chegou tarde à questão, pelo menos publicamente, como abriu uma caixa de pandora que pode voltar-se contra si. Ricardo Salgado já tem um despacho do procurador Rosário Teixeira que o iliba de qualquer suspeita de envolvimento no Monte Branco e sobra, assim, a questão de idoneidade por causa das declarações fiscais, o que o Banco de Portugal quis salvaguardar quando faz saber que chamou o presidente do BES para prestar esclarecimentos. O presidente do BES garante que não tirou capitais do País e o Regime Excepcional de Regularização Tributária (RERT) permite-lhe, a ele e a qualquer contribuinte, a repatriação de capitais sem consequências criminais. Salgado estava, ainda assim, obrigado a prestar esclarecimentos ao Banco de Portugal e deveria até ter prestado esclarecimentos públicos sobre as correcções às declarações de IRS por iniciativa própria, para que não subsistissem dúvidas. A entrevista de Ricardo Salgado ao Expresso em meados de Janeiro é, aliás, de certa maneira, a confissão de que percebeu o que estava em causa, a necessidade de sair da sua zona de conforto, de falar sobre temas que, regra geral não constam das suas intervenções, como a influência do grupo que lidera, a sucessão e a confiança no futuro do banco. É neste contexto que Carlos Costa não deve, não pode, manter o presidente do BES em lume brando. E isso é o que está em causa hoje. À semelhança do que fez com Jorge Tomé, o governador do Banco de Portugal não se poderá refugiar na lei para manter a discrição e o silêncio. Neste caso, o que está em causa tem um valor superior. Carlos Costa só poderia ter desencadeado aqueles contactos, mas já os deveria ter encerrado. Ao não o fazer, será chamado diariamente a pronunciar-se sobre o tema, até que o faça. E quanto mais tempo demorar a tomar uma decisão e a publicitá-la, que, em face do que se sabe, só poderá ser de idoneidade para o cargo, maior será a expectativa de que estará a preparar--se para mudar a cabeça do único dos principais bancos privados de base portuguesa que não pediu a ajuda do Estado. Haverá maior ironia?

publicado por concorrenciaperfeita às 08:12
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