Quarta-feira, 6 de Fevereiro de 2013

Os portugueses aguentam. A que preço?

 

A maior parte dos trabalhadores terá recusado receber em duodécimos os subsídios de férias e de Natal, uma solução expedita para iludir o efeito do brutal aumento de impostos no rendimento mensal disponível. Afinal, os portugueses ainda aguentam, como dizia Fernando Ulrich?

Haverá várias justificações para uma decisão da maioria dos trabalhadores que é, no mínimo, surpreendente. Em primeiro lugar, perante a possibilidade de escolherem, os trabalhadores escolheram, activamente, uma opção. Por inércia, seria provavelmente mais fácil aceitarem por defeito a imposição de duodécimos, que, nos casos de salários até 2.700 euros brutos por mês, teriam um impacto positivo no salário mensal líquido.

À priori, o valor médio do salário mensal no sector privado em torno dos 800 euros dir-nos-ia que os trabalhadores portugueses não poderiam dispensar os duodécimos. O impacto do aumento de impostos seria necessariamente limitado tendo em conta o valor da remuneração, mas, por isso mesmo, por causa de um salário baixo, qualquer euro faria falta. Não faz, afinal?

Faz, claro. A maioria dos trabalhadores portugueses, afinal, escolheu não escolher, optou por não ter a liberdade de gerir o seu orçamento mensal. A decisão da maioria dos trabalhadores tem, por isso, mais de comportamental e de cultural do que de outra coisa. A verdade é que os trabalhadores portugueses estão habituados a receber 14 meses de salário e não estão preparados ou dispostos a abdicarem desse regime. Mesmo quando ainda ficariam a beneficiar de 50% dos respectivos subsídios.

Os trabalhadores, a maioria, não querem arriscar a ilusão de um aumento salarial falso como judas, e preferem aguentar, leia-se apertar ainda mais o cinto, na sua gestão mensal para assegurarem a capacidade de pagar o seguro do carro ou a inscrição dos filhos na escola. Preferem aguentar.

Os trabalhadores estão, também, a tentar travar o que é inevitável, e que estaria também no espírito de quem 'inventou' a solução milagrosa dos duodécimos: mais cedo ou mais tarde, e será mais cedo do que tarde, caminharemos para um regime salarial de 12 salários por ano, ou 13 no máximo, o que vai contribuir, também, para a desvalorização interna necessária à correcção das necessidades do País, particularmente as necessidades externas. É o choque de competitividade salarial. E os gestores e empresários que não se queixem.

O caminho vai continuar a fazer-se, e os portugueses vão continuar a aguentar, claro. A que preço, para os próprios, e para o País?

 

PS: Escrevi ontem neste espaço que o governador do Banco de Portugal tinha actuado tarde, pelo menos publicamente, no caso relacionado com a avaliação de idoneidade de Ricardo Salgado, de Morais Pires e de José Maria Ricciardi. E, pior, tinha deixado a suspeita no ar, e a cúpula do BES em lume brando. Carlos Costa corrigiu o tiro, e bem, encerrando o caso. A tempo.

 

 

 

publicado por concorrenciaperfeita às 08:18
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