Segunda-feira, 4 de Março de 2013

O que nos sucederia se nos lixássemos para a troika?

 

Uma avaliação politicamente correcta da manifestação de sábado só pode concluir, só tem autorização para dizer, que o Governo não pode ser imune à voz do povo que foi para as ruas, à mobilização de centenas de milhar de pessoas por todo o País, à insatisfação, legítima, dos que entoaram, vezes sem conta, o "Grândola Vila Morena". Mas hoje, segunda-feira, continuamos sem saber o que nos sucederia se nos lixássemos para a troika, se o Governo caísse. Melhor, entoaríamos, todos, que o povo é quem mais ordena, mas não tem como pagar esse poder reconquistado nas ruas.

O Governo não está isento de responsabilidades, pelo contrário, acumulou erros, políticos, de comunicação e os outros, os substantivos, os erros de decisão pelos quais a comunicação não tem culpa nenhuma. Mas, ironicamente, por omissão, pelo que não fez, e não pelos factos que são o principal motivo da contestação. Deveríamos todos ir para a rua exigir novas políticas, porque as respostas de Passos Coelho e Vítor Gaspar para a redução do défice foram medidas temporárias de corte de despesa e um aumento de impostos que está a matar a economia, a provocar recessão e desemprego. E não foi por falta de aviso que Gaspar pode dizer-se, hoje, surpreendido com os números do ultimo trimestre de 2012 e que serão piores neste início do ano.

O Governo teve a oportunidade, o dinheiro e o consenso político para iniciar a reforma do Estado quando entrou em funções. Em vez disso, executou o programa de ajustamento com a preocupação de cumprir objectivos nominais, sem cuidar de saber como lá chegaria. Apostou tudo na credibilidade externa - e essa foi ganha - sem cuidar da credibilidade interna - perdida no dia 15 de Setembro - que o Orçamento de 2013 levou para níveis inimagináveis. Os portugueses têm, hoje, motivos para estarem indignados, sim, para estarem frustrados e desiludidos, mais ainda, mas as respostas que se vêem e lêem nos cartazes das manifestações de sábado revelam que o País, uma parte dele, pelo menos a mais ruidosa, a que aparece nos telejornais, quer voltar a atrás, exactamente ao que nos trouxe ate aqui. Não quer corte da despesa, não quer estes impostos, não quer a Troika. A exigência de demissão do Governo acaba por ser, verdadeiramente, a menos importante.

Se a manifestação de sábado produzisse - se produzir - efeitos, o Governo caía e a Troika ia embora no dia seguinte. Quem pagaria o nosso défice? Ninguém. Teríamos de o reduzir de um ano para o outro, e portanto, não chegariam os quatro mil milhões anunciados de corte de despesa para 2013 e 2014.

Quer isto dizer que o Governo deve fazer ouvidos surdos a manifestação de sábado? Quer isto dizer que o Governo deve manter a política seguida até agora? Não, deve aproveitar o Grândola para mostrar à Troika que o programa que está em vigor está esgotado e tem de ser revisto e melhorado, enquanto a resistência à mudança se faz apenas com música. O corte de despesa pública tem de manter-se, sob pena de sermos obrigados, o sector privado, a ajustar o que o Estado não está a fazer, com mais recessão e desemprego. Mais um ano de ajustamento do défice servirá apenas para compensar o impacto da recessão no défice maior do que Gaspar esperava, mas não muda nada.

Agora, o Governo tem de ser capaz de criar um novo quadro de acção - por exemplo, que é feito dos fundos de pensões dos bancos que serviriam para reduzir a exposição da banca às empresas públicas? - e recuperar um consenso político mínimo com António José Seguro e o PS se quer evitar o desastre económico e social em 2013.

 

 

publicado por concorrenciaperfeita às 08:35
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