Quarta-feira, 20 de Março de 2013

Quando os ministros das Finanças têm poder a mais

A decisão de tributar os depósitos em Chipre não é apenas uma decisão estúpida do ponto de vista económico e político, não é apenas uma decisão que põe em causa a existência do euro, é mais do que isso, e mais preocupante, é a confirmação de que o destino da Europa não pode continuar nas mãos dos ministros das Finanças e do Eurogrupo.

O poder do conselho Ecofin não é de hoje, a exclusão dos ministros dos Negócios Estrangeiros também não. Menos ainda o facto dos chefes de Estado e de Governo estarem reféns dos ministros das Finanças. Mas a forma como a Europa tem tratado a crise europeia desde o início, desde o primeiro resgate da Grécia, revela a inabilidade política, a insensibilidade social, a incapacidade de perceber a Democracia, essa coisa dos votos dos cidadãos europeus. Quando parecia que não poderíamos ser confrontados com piores decisões, eis que surge uma, directamente do Eurogrupo, isto é, dos ministros das Finanças do euro, do alemão Schäuble com o alto patrocínio de Angela Merkel, preocupados com as eleições alemãs, e do BCE e de Bruxelas.

Vítor Gaspar afirmou no Parlamento que a 'preferência do Eurogrupo' era a protecção dos depósitos abaixo dos 100 mil euros. Infelizmente, não 'preferiram' com grande entusiasmo, nem convicção, aceitaram o desespero do Governo do Chipre, e aceitaram pôr em causa a união bancária, a separação do risco entre Estados e bancos, a segurança dos depositantes em toda a Europa.

A 'preferência do Eurogrupo' deveria ter sido proteger a União Europeia e a moeda única. Não foi. E o maior dos cinismos políticos é mesmo, agora, responsabilizar os cipriotas pelo modelo de tributação dos depósitos que teria sempre de garantir mais de cinco mil milhões de euros de receitas. Os ministros do euro reuniram de urgência, para tentar apagar uma decisão de consequências imprevisíveis para o futuro da Europa, mas já vão tarde, mesmo com o chumbo do parlamento cipriota. Os danos estão feitos, veremos as consequências.

Os ministros das Finanças - por incompetência ou por incapacidade - mostraram não estar à altura das suas responsabilidades, do que se espera deles. E confirmaram que nem sempre são a melhor defesa dos interesses dos cidadãos contra o mau comportamento dos políticos. É claro, desta crise, uma lição, a de que a Europa tem de repensar os seus processos de decisão, a sua estrutura de organização, o seu modelo institucional, porque os ministros das Finanças não têm a inteligência política que se exige para gerirem processos de decisão que têm sempre uma dimensão política, tanto maior quanto maior é a crise económica e financeira dos países.

 

PS: Vítor Gaspar é o responsável pela execução do programa de ajustamento negociado com a 'troika' desde o primeiro dia em funções deste Governo, discutiu e acertou as sucessivas avaliações e, à sétima, descobriu o que todos já sabíamos, mas que o próprio nunca tinha enunciado: o programa está mal desenhado, a responsabilidade pelos resultados que, afinal, são maus, não é sua. Ainda vamos descobrir que Gaspar nem foi ministro das Finanças.

publicado por concorrenciaperfeita às 07:00
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