Quinta-feira, 28 de Março de 2013

A AEP é um triste exemplo do estado do País

 

A Associação Empresarial de Portugal (AEP) vai regressar às origens, de onde nunca deveria ter saído, vai deixar de ser um promotor imobiliário e voltar a ser uma associação de empresas. A AEP perdeu 20 anos, e é de alguma maneira um triste exemplo do País que temos hoje.

No início da década de 90, em pleno período do cavaquistão, a antiga Associação Industrial Portuense (AIP) era liderada por um homem-forte da indústria, Ludgero Marques, uma voz incontornável, conhecido porque a sua empresa - a Cifial - tinha vendido torneiras à Casa Branca. Ludgero era ouvido no Norte e temido no País, tinha livre acesso aos gabinetes ministeriais e um poder crescente que resultava dos milhões que iam sendo canalizados para a associação.

O Governo comprava a AIP, que alinhava com o Governo. O dinheiro fácil, primeiro dos fundos comunitários e depois do crédito com o aval do próprio Estado tudo permitia, até a construção de monumentos como o Europarque, com a assinatura (leia-se aval) de Cavaco Silva e de Eduardo Catroga, à data ministro das Finanças. Perdia-se o sentido primeiro de uma associação centenária, que esteve sempre focada no apoio às empresas e aos empresários, para ser um centro de poder, político e económico, uma grande holding com vários negócios, um grande promotor imobiliário. A AIP não cresceu, inchou. E, em simultâneo, Ludgero Marques perdeu-lhe o controlo.

Os anos seguintes à saída de Ludgero, a partir de certa altura um líder forte que passou a líder ausente, responsável por omissão, deixavam adivinhar o que se sucederia a esta 'bebedeira', que, aliás, foi também pressentida pelos próprios empresários e empresas que começaram a afastar-se da associação. A crise económica e financeira dos últimos cinco anos encarregou-se de fazer o resto.

José António Barros foi 'enganado'. Quando assumiu as funções de presidente da nova AEP, apenas o nome tinha mudado, os problemas que nasceram com a AIP estavam todos lá, prestes a rebentar. Como o País.

A reestruturação financeira da associação, a limpeza de uma dívida que já superava os 90 milhões de euros, é uma espécie de programa de ajustamento, que já obrigou a rescisões e vendas de activos, e ainda não acabou. Mas tem um mérito, desde logo, o de recentrar a actividade da associação no apoio às empresas. E outro, a recuperação da independência política face aos governos que estão em funções, porque não há independência política sem independência financeira. As empresas, particularmente as do Norte e que têm um perfil de especialização industrial que está muito longe dos corredores de poder em Lisboa, vão passar a ser, outra vez, sócias de uma associação e não accionistas de uma empresa.

A AEP está, como o País, a tentar recuperar da ressaca financeira, do crédito fácil, é a imagem de uma economia que perdeu o pé, que não pode viver acima das suas possibilidades. Mas, em simultâneo com a austeridade, o plano de ajustamento da AEP também pensa no dia seguinte. É o que falta hoje a Portugal.

 

PS: Cavaco Silva afirmava ontem que se a comunicação social revelasse mais casos de sucesso empresarial, o País não estaria como está hoje. Seguramente, o País não está como está por causa da comunicação social, nem das suas omissões. Mas hoje o Económico faz a vontade ao Presidente da República e tem uma edição especial, oferecida nas bancas, para mostrar precisamente o que Portugal faz bem.

 

publicado por concorrenciaperfeita às 07:01
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