Domingo, 31 de Março de 2013

Portugal regressa a Março de 2011

 

Não foi apenas José Sócrates que regressou à actividade política, o País, a realidade, parece também ter regressado, ironicamente (ou não?), a Março de 2011, a uma crise política iminente, a um pântano ao qual falta apenas a demissão do Governo e a consequência, o segundo resgate. A história repete-se?

Já muito se escreveu sobre Sócrates, sobre a narrativa que o ex-primeiro-ministro reescreveu na entrevista à RTP1, sobre o défice e a dívida, sobre o PEC IV e sobre o ajuste de contas - tão previsível como justo - com o Presidente da República. A história, essa, está escrita nas pedras e nem a competência política, a força de Sócrates poderá apagar. O País caminhava para a 'troika' à velocidade da despesa pública e do défice, da dívida sem controlo que nem a decisão dos líderes europeus em 2009 explica, das Parcerias Público-Privadas que nem a previsão de receitas de portagens esconde. A crise política foi apenas um detonador do fim de um ciclo, que nem o BCE seria capaz de prolongar.

Sócrates é um político único, e é essa capacidade que o faz regressar agora, quando o terreno está fértil para reescrever a narrativa. A crise económica e social em que vivemos hoje não decorre da crise política de 2011, mas é, para Sócrates, um momento de redenção. Mais do que a intenção de um qualquer lugar ou função - nem o próprio deve saber o que quer ser ou fazer no futuro - Sócrates quer ser regenerado, moral e politicamente reabilitado. E esta crise - que se explica pelo que este Governo não fez nos últimos 22 meses e não pelo que o PSD fez quando provocou eleições em Março de 2011 - é o quadro perfeito. Mais cedo do que imaginaria possível, Sócrates regressa, e Passos Coelho e Vítor Gaspar são os principais responsáveis. E, de alguma maneira, no curto prazo, beneficiarão deste regresso, porque Sócrates remeterá Seguro para segundo plano, dividirá o PS, é a sua natureza. Mas o curto prazo vai esfumar-se, e Sócrates vai continuar a escavar, até à queda deste Governo.

Sócrates é amado e odiado, e a entrevista à RTP1 não mudou isso. Sócrates não mudou nada, foi imprevisivelmente previsível. Mas o País mudou, apesar do risco, da probabilidade de regressarmos à casa de partida, a Março de 2011, a uma nova crise política que vai arrastar a desconfiança dos mercados e, necessariamente, um segundo resgate. Não queríamos ser os gregos, esforçamo-nos por ser os irlandeses, mas estamos hoje muito próximos dos cipriotas.

À semelhança de Sócrates e Teixeira dos Santos, Passos Coelho e Vítor Gaspar parecem incapazes de virar o jogo. O resultado da sétima avaliação da 'troika' foi uma desilusão e a decisão do Tribunal Constitucional - que deverá ser conhecida esta semana - poderá ser o detonador que faltava para um salto em frente deste Governo, para a demissão. Seria inadmissível, qualquer que venha a ser a decisão dos juízes, seria uma traição, porque os portugueses não merecem um Governo que deite a toalha ao chão. Sócrates não o faria.

 

PS: Isabel dos Santos conversou com o Financial Times, um encontro inédito entre a empresária angolana e um jornalista. Fica, nesta edição, o exclusivo para Portugal de um encontro, um almoço, em que Isabel dos Santos revela pormenores desconhecidos da sua ascensão e poder.

 

publicado por concorrenciaperfeita às 07:03
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