Terça-feira, 16 de Abril de 2013

Já basta uma CGD

 

Pedro Passos Coelho criticou a banca por não conceder mais crédito à economia e deixou a ameaça velada de uma intervenção política e legislativa musculada para impor novas práticas de crédito aos banqueiros portugueses. Como se já não bastasse uma Caixa Geral de Depósitos.

A banca, é verdade, passou da gestão arriscada, e sem garantias, à gestão sem risco, mesmo com todas as garantias. Ainda assim, o negócio da banca é captar depósitos e conceder crédito, como as padarias têm de vender pão. Sem crédito, não haverá margem, logo, não haverá lucro. Aliás, se há crítica a fazer aos bancos a operar em Portugal nos últimos anos é a de que foram pró-cíclicos, responderam e acentuaram as políticas públicas de crédito ilimitado, ao próprio Estado ou garantido pelo Estado, de que as Parcerias Público-Privadas são talvez o melhor (leia-se pior) exemplo. O crédito foi concentrado nas empresas e sectores de bens não-transaccionáveis, mas também serviu para financiar empresas e grupos empresariais sem a devida avaliação de risco, muitas vezes para estratégias de guerra de poder em que todos perderam, a começar pelos próprios bancos.

A banca está a fazer a digestão desses problemas, como se percebe pelas centenas de milhões de prejuízos, agravados pela crise da dívida soberana, processo que ainda vai demorar anos. E está, claro, a tentar recuperar da overdose de crédito a baixos juros, particularmente de crédito à habitação. A necessidade de recorrerem ao Estado - só o BES foi capaz de resolver o problema por meios e capitais próprios - e os casos BPN e BPP agravaram esta ideia de que os banqueiros são a fonte de todos os males. Não são. São uma presa fácil, particularmente de políticos e de Governos.

É claro que há crédito disponível, mas a um preço que nenhum negócio, nem as PPP, consegue suportar. Portanto, têm todos razão? Sim, mas a melhor forma do Governo corrigir este problema - essencial para promover o investimento e, logo, o emprego - não é seguramente com uma intervenção na política de crédito dos bancos. Ou Passos Coelho considera ter mais e melhor informação do que os conselhos de crédito dos bancos para decidir empréstimos? A experiência da intervenção política na CGD deveria ser suficiente para não seguir este caminho.

As diferenças de juros no financiamento das empresas entre Portugal e a maior parte dos países da zona euro são gritantes e contribuem decisivamente para uma dificuldade acrescida de concorrência. A fragmentação financeira da zona euro prejudica as empresas portuguesas, porque a banca nacional financia-se a um preço mais elevado do que os bancos internacionais. Logo, as diferenças de custo de financiamento entre empresas portuguesas e estrangeiras com balanços identicamente sólidos são de 1% para 5% em função do país em que estão, mas não devem ser assacadas aos bancos, antes ao funcionamento do próprio sistema monetário do euro. E só se resolve com uma intervenção do Banco Central Europeu.

Em Portugal, Passos Coelho pode contribuir para atenuar este problema, e não é com ameaças à banca, menos ainda com intervenções administrativas. Se o Estado pagar o que deve, por um lado, e se substituir a banca no financiamento das empresas públicas, duas condições que dependem de Passos Coelho e Vítor Gaspar, estará a contribuir mais para a inversão da recessão em Portugal do que mil promessas.

 

 

 

publicado por concorrenciaperfeita às 07:00
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