Terça-feira, 21 de Maio de 2013

A banca do vizinho não é melhor do que a nossa

O Financial Times decidiu pôr a banca portuguesa - a única dos países intervencionados que não registou fugas de depósitos, incluindo a 'intervencionada' Espanha - no centro do risco financeiro da zona euro, com base em declarações de Ricardo Salgado e Nuno Amado na ressaca da intervenção em Chipre e na situação económica do país. Aí está uma matéria que causa mais danos do que uma crise política da coligação.

Em primeiro lugar, as observações do insuspeito FT são claramente exageradas. Em dois dias seguidos, ontem e hoje, o jornal inglês põe em causa a capacidade e a resiliência e até a competência dos banqueiros nacionais, sem ter em conta por exemplo o que foi a história de Portugal e de Espanha ou Irlanda nos últimos três anos. As falências desordenadas, as fusões à pressa com dinheiro dos contribuintes não sucederem em Portugal, e nem vale a pena citar os casos do BPN e BPP, casos de polícia que nada têm a ver com a crise.

Em segundo lugar, os riscos existem, como é óbvio, desde logo porque a recessão no país está para durar, e não há bancos sem economia interna. E não há, no limite, rácios de solvabilidade que cheguem para segurar bancos de economias e Estados em situação de falência ou crises de confiança, como se viu em casos como o franco-belga Dexia. Mas os bancos portugueses estão a fazer o seu trabalho de casa, provavelmente de forma excessiva, isto é, com uma mudança drástica de critérios de risco. Do empréstimo com risco elevado e, às vezes, sem garantias, passaram ao financiamento sem risco, mesmo com todas as garantias. É o preço a pagar pelo ajustamento. E os resultados dos bancos, o aumento das provisões, conhecidos, aliás, já depois das declarações dos dois banqueiros que suportaram os artigos do FT, provam isso mesmo.

Os banqueiros portugueses estão nervosos, escreve Patrick Jenkins, o editor de banca do FT. Não, não são apenas os banqueiros portugueses, são todos os banqueiros de todos os países da zona euro que percebem os efeitos desastrosos de uma intervenção desastrosa do Eurogrupo, dos ministros das Finanças do euro, em Chipre, na confiança dos cidadãos europeus nos respectivos bancos.

O modelo de intervenção em Chipre, inicialmente atingindo todos os depositantes de bancos e, depois, os que tinham depósitos acima dos 100 mil euros, seguiu o modelo de 'tudo o que não deve ser feito'. E lançou a confusão.

Os contribuintes não podem continuar a ser usados para salvar bancos e, aqui, subscrevo a análise de Jenkins, tem de ficar claro que não haverá mais 'haircuts' de depósitos nas próximas intervenções. A união bancária deve avançar e os bancos devem ser obrigados a constituir um verdadeiro fundo de resolução para garantir uma eventual falência organizada de um banco. E os accionistas devem ser os primeiros a assumir as perdas dessa falência. Sem mais.

 

PS: Quando o país discute a dicotomia austeridade/crescimento, as propostas de António José Seguro sobre a transformação de dívidas das empresas ao Estado é uma prova de que as duas são possíveis. O corte de despesa vai continuar, mais depressa ou mais devagar, sob pena de continuarmos com a 'troika' por cá. Mas é possível adoptar políticas de crescimento sem impacto na despesa. O Governo deveria seguir estas propostas, que são realistas e dependem mais de decisões internas do que da 'troika', e seriam mais relevantes para a recuperação do que anúncios a obrigar a CGD a emprestar mais mil milhões às PME. As PME precisam mais de capital do que de financiamento.

 

publicado por concorrenciaperfeita às 07:00
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